AINDA FALANDO DA SIDERURGIA E DA DESTRUIÇÃO DAS MATAS MINEIRAS

A primeira metade do século XX foi bastante tumultuada para a economia do Brasil. Nossa jovem República entrou no século passado apresentando um forte perfil agrário, onde a cultura do café e os seus poderosos “barões” davam as cartas no país. Há época, o Brasil era o maior produtor e exportador de café do mundo, uma commodity que gerava metade das receitas em moeda forte do país. Outro importante produto era o látex, matéria prima estratégica há época e que era usada na produção da borracha. Até 1912, o Brasil era o maior produtor de látex do mundo e suas exportações representavam 40% de nossas receitas externas. 

O primeiro grande baque econômico do século começou ainda nos primeiros anos da década de 1910, quando os seringais ingleses plantados no Sudeste Asiático iniciaram a produção de látex. Conforme já tratamos em postagens anteriores, a seringueira (Hevea brasiliensis) é uma árvore nativa da Floresta Amazônica, o que garantiu, por muitas décadas, o monopólio do látex na mão na mão de produtores de países da região.  

Entretanto, em 1876, o inglês Henry Wickhan realizou a façanha de contrabandear milhares de sementes da seringueira para a Inglaterra, onde botânicos conseguiram produzir mudas da árvore. Essas mudas foram levadas para as Colônias Inglesas do Sudeste Asiático, onde o clima era muito similar ao da Amazônia. Plantadas organizadamente, essas seringueiras passaram a produzir látex em grande escala, superando a produção da Amazônia em volume e em custos. 

A dramática situação da economia só não foi pior por causa do início da I Guerra Mundial em 1914. Com o aumento da demanda mundial por borracha, os produtores da Amazônia conseguiram ganhar uma sobrevida. A deflagração da Grande Guerra também passou a inibir a importação de uma grande gama de produtos industrializados e forçou a produção local. Conforme comentamos na postagem anterior, esse quadro estimulou o aumento da produção de ferro e aço no Brasil, principalmente em Minas Gerais – a necessidade de grandes volumes de carvão vegetal levou ao desmatamento de grandes trechos da Mata Atlântica nesse Estado

Pouco mais de dez anos após o final da I Guerra Mundial, quando a economia brasileira ainda estava em recuperação, nosso país sofreu um novo abalo – a grande crise econômica mundial deflagrada com a quebra da Bolsa de Valores de Nova York em 1929. Dessa vez, a crise atingiu em cheio as exportações brasileiras de café, o nosso mais importante produto de exportação. Passados outros dez anos, tem início a II Guerra Mundial e mais uma vez entramos em uma fase de restrições à importação de produtos industrializados

Essa sucessão de crises “decenais” teve profundos reflexos na economia brasileira, que foi forçada a mudar profundamente, deixando de depender da agricultura e viu a participação das indústrias crescer muito. Esse forte crescimento do setor industrial, é claro, estimulou o crescimento da produção de ferro e aço, produtos básicos para as indústrias. 

Um outro setor que passou a apresentar um grande crescimento ao longo desse período foi a construção civil. A mudança do perfil econômico do país levou a uma intensa migração de populações de áreas rurais para as áreas urbanas. As famosas “barras de ferro” são elementos fundamentais para a construção de casas e edifícios com estrutura de concreto armado.

Por todo o país surgiram pequenas empresas especializadas na produção dessas barras – essas empresas compravam as barras de ferro e aço padronizadas produzidas pelas siderúrgicas mineiras e, usando equipamentos de trefilação a frio, produziam as barras nas medidas e padrões usados pela construção civil. 

Abrindo um rápido parêntese aqui – os materiais cerâmicos usados pela construção civil – tijolos, telhas, manilhas, lajotas e azulejos, entre outros, também contribuíram, e muito, com a devastação de matas em todo o Brasil. Esses produtos precisam passar por um processo de queima, o que normalmente era feito em fornos a lenha

Conforme comentamos na postagem anterior, em 1921 foi fundada a Companhia Belgo-Mineira, a maior empresa do setor do Brasil há época e que mudaria os rumos da siderúrgica no país. Essa empresa geraria um grande desenvolvimento regional. Entre outros importantes avanços, o início das operações da Belgo-Mineira levou à retomada das obras da Estrada de Ferro Vitória a Minas, obra que vinha se arrastando desde 1904 e que era essencial para o escoamento de produtos e o transporte de carvão mineral importado. 

A demanda por produtos siderúrgicos no Brasil não parava de crescer – a produção total em 1931, incluindo ferro gusa, aço, laminados trefilados e peças fundidas, atingiu a marca de 71 mil toneladas. No final da década de 1930, a Belgo-Mineira construiu uma segunda usina na cidade de João Monlevade e novas empresas começaram a operar em Minas Gerais. Em 1945 foi criada a Acesita – Aços Especiais Itabira, e em 1956 a Usiminas – Usinas Siderúrgicas de Minas Gerais. 

Em 1942, o Governo Federal fundou a Companhia Vale do Rio Doce, que ao longo do tempo se transformaria numa das maiores produtoras e exportadoras de minério de ferro e ferro gusa do mundo. Já em 1946, foi inaugurada a CSN – Companhia Siderúrgica de Volta Redonda, no interior do Estado do Rio de Janeiro. 

A partir de meados da década de 1950, a demanda por ferro e aço sofreu um forte incremento no país, porém, ao menos dessa vez, a causa foi interna – indústrias do setor automobilístico passaram a operar no Brasil. O Governo do Presidente Juscelino Kubitschek (1956-1961), criou uma política de estímulo à fabricação de veículos em território brasileiro 

Apesar do aumento da importação e do uso do carvão mineral nos altos fornos das empresas siderúrgicas brasileiras, principalmente nas de Minas Gerais, o uso de carvão de origem vegetal continuava em alta. A razão para isso era muito simples – o baixo custo do “produto nacional”. A grande maioria dos produtores de carvão eram pequenos agricultores, que retiravam as madeiras ilegalmente de florestas públicas, sem gastar praticamente nada.

Na produção do carvão nos fornos rudimentares em suas propriedades, esses carvoeiros se valiam da “mão de obra familiar”, ou seja, mulher, filhos (o famoso “trabaho infantil“) e outros parentes. Graças a tudo isso, o carvão vegetal se mostrava altamente competitivo quando comparado ao produto importado, que além de caro, ficava sujeito ás fortes oscilações do valor do dólar. 

Graças a toda essa conjuntura, a devastação florestal continuou avançando e atingiu níveis altíssimos, o que, a grosso modo, acabaria se transformando numa grande ameaça às próprias indústrias. A fim de garantir o suprimento de carvão vegetal para suas unidades de produção, as grandes empresas siderurgicas passaram a adquirir grandes áreas cobertas por florestas. Esse foi o caso da Companhia Belgo-Mineira, que comprou grandes áreas em Várzea da Palma, no Norte de Minas Gerais, e no Vale do Rio Doce. 

A partir de 1948, a Belgo-Mineira se tornaria pioneira no plantio de florestas de eucalipto, visando garantir a produção de madeira e de carvão para uso futuro. O eucalipto australiano já vinha sendo produzido com sucesso no Estado de São Paulo há vários anos, onde tinha a missão de fornecer madeira para a construção de dormentes ferroviários e de lenha para locomotivas.

As árvores apresentavam um crescimento rápido e podiam sofrer o primeiro corte sete anos após o plantio. Outras empresas perceberam rapidamente a estratégia da Belgo-Mineira e também passaram a investir no plantio de florestas artificiais. A partir da década de 1960, as autoridades florestais da época tornaram obrigatória a autoprodução de madeiras para a produção de carvão. 

Apesar de todos esses cuidados ambientais, que tinham como meta a preservação dos remanescentes florestais em Minas Gerais, os dados do setor continuavam desanimadores. De acordo com dados estatísticos de 1976, ano em que as informações passaram a ser registradas com maior grau de fidelidade, cerca de 90% do carvão vegetal produzido no Brasil há época, o que correspondia a 15,5 milhões m³, era produzido com madeira retirada de matas nativas. A Mata Atlântica e o Cerrado em Minas Gerais, por causa da forte demanda por carvão nas siderúrgicas do Estado, foram os biomas mais devastados

Apesar dos grandes esforços das empresas para evitar o uso de carvão de origem “suspeita”, ainda hoje há muito carvão sendo produzido com madeira retirada das matas nativas. A razão para isso é relativamente simples – segundo a AMS – Associação Mineira de Silvicultura, 40% do carvão vegetal produzido no Estado em 2015 veio de pequenos produtores rurais – muitos desses produtores continuam derrubando matas nativas para obtenção de madeira e lenha

Infelizmente, o Estado de Minas Gerais continua liderando a devastação do pouco que restou da Mata Atlântica no Brasil.

Uma observação final: Somando-se as perdas de Mata Atlântica ao longo da faixa do Nordeste Açucareiro, que segundo minhas estimativas oscilam entre os 90 e 120 mil km², com as perdas para a siderurgia em Minas Gerais, que superam a casa dos 230 mil km², chegamos a uma perda entre 320 e 350 mil km² de matas nativas somente nessas duas regiões.

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