AS MUITAS HISTÓRIAS DO “BRAZIL” E DO PAU-BRASIL

São Brandão

Ao longo das três primeiras décadas após o “descobrimento” do Brasil, a grande riqueza explorada em nossas matas foi uma madeira que produzia um corante de um vermelho bastante intenso e a partir da qual era produzido o “brazil”, um tradicional produto da Índia.

A primeira referência a essa madeira é encontrada no livro Lendas da Índia, escrito por Gaspar Correia, um dos membros da primeira expedição exploratória liderada por Gaspar de Lemos. Essa expedição foi armada e financiada por Fernão de Noronha, cujo nome batizou o maravilhoso arquipélago pertencente ao Estado de Pernambuco.

“E logo armou navios com que tornou a mandar a descobrir essa terra, porque mandou experimentar o “pau” que acharam e que fazia mui fina cor vermelha, com que logo fez contrato com mercadores que lhe compraram o pau a peso, que foram carregar esse brazil, de quem houve grande contrato e muito proveito.”

Com a grafia da época, Gaspar Correia nos conta a origem do primeiro produto de exportação de nosso país – o pau-brasil. Segundo as “lendas” que foram surgindo, o nome de nossa terra, que originalmente era conhecida como “Terra de Santa Cruz”, passaria a ser conhecida como Brazil, grafia que depois seria mudada para Brasil. A implacável história real, porém, é muito mais profunda e cheia de sutilezas.

Entre os anos 1.500 e 300 a.C, mercadores fenícios singravam o Mar Mediterrâneo, Mar Negro e áreas do Oceano Atlântico ao largo das costas do Leste e Norte da Europa e da África, comprando e vendendo de tudo. Um dos produtos de maior sucesso do portfólio fenício era o BRZL ou brazil – palavra fenícia para o ferro. Essa palavra entrou em diversas línguas antigas como o hebraico e o aramaico para indicar os produtos feitos de ferro e também para designar a cor vermelha.

Os produtos de brazil foram espalhados em grande parte do mundo antigo por caravanas de mercadores. O brazil acabou chegando até a Índia como uma espécie de “marca internacional” para produtos de ferro e tinturas vermelhas. Os indianos há época já produziam uma tinta vermelha, cujo principal corante era extraído da madeira de uma árvore nativa de todo o Sudeste Asiático – Caesalpina sappan. Esse corante (que em muitas fontes é chamado de brazilina) era muito utilizado para o tingimento de tecidos em todo o Oriente e Ásia, chegando posteriormente até a Europa através dos mercadores Venezianos e Genoveses. Foi a partir dessa via que a palavra brazil entrou em inúmeras línguas europeias.

Caesalpina sappam asiática é uma espécie de prima-irmã da Paubrasilia echinatao nosso famoso pau-brasil e não seria de estranhar que as duas árvores produzam corantes muito parecidos. Inclusive, até bem poucos anos atrás, o nome científico da árvore era Caesalpina echinata. A explicação para árvores tão semelhantes em lugares tão distantes do mundo vem da Deriva dos Continentes.

Conforme já comentamos em outras postagens, a América do Sul, a África, a Antártida, a Ilha de Madagascar, a Índia (Subcontinente Indiano), a Austrália e a Nova Zelândia, entre outras ilhas menores, formavam o antigo supercontinente de Gondwana. Quando esse grande bloco de terras começou a se fragmentar e a se separar há cerca de 160 milhões de anos, espécies animais e vegetais próximas também acabaram se separando. Essa similaridade entre espécies animais e vegetais em diferentes partes do mundo foi uma das pistas seguidas pelo geofísico e meteorologista alemão Alfred Wegener para propor a Teoria da Deriva Continental em 1915.

A grande sacada ou malandragem dos portugueses foi a de perceber rapidamente que o nosso pau-brasil produzia uma espécie de “genérico” do brazil indiano. Com o controle da fonte da matéria prima, ou seja, da Mata Atlântica, os mercadores portugueses gastariam uma pequena fração do custo do brazil indiano e poderiam vender o “legítimo brazil brasileiro” na Europa com uma margem de lucro absurda. Muitas famílias de comerciantes lusitanos ganharam verdadeiras fortunas com esse engodo.

O primeiro registro do embarque de um volume considerável de pau-brasil para Portugal foi o da nau Bretoa em 1511, embarcação que, bem por acaso, era de propriedade de Fernão de Noronha. Segundo os registros que sobreviveram, a nau transportou cerca de 600 toras da madeira. Estima-se que até o ano de 1867, onde consta o último registro de exportações oficiais de pau-brasil, mais de 70 milhões de árvores da espécie foram derrubadas para o aproveitamento da madeira.

Os grandes volumes de brazil que os portugueses passaram a colocar no mercado europeu há época chamaram a atenção de concorrentes em outros países como a França, Holanda, Dinamarca, Alemanha e Itália. A desconfiança, que depois acabou sendo comprovada, era que os portugueses estavam utilizando uma árvore nativa de seu novo território na América do Sul como fonte de matéria prima para a produção do brazil. Foi graças a isso que grandes investimentos passaram a ser feitos para o envio de expedições desses concorrentes às costas brasileiras para a coleta ilegal da madeira dessa árvore.

Os franceses organizaram diversas expedições às costas brasileiras ao longo do século XVI com essa finalidade. Muitas tribos indígenas, como os tamoios do litoral do atual Estado do Rio de Janeiro, simpatizavam com esses franceses e os ajudavam nas operações de corte, transporte e embarque do pau-brasil. Preocupados em garantir uma fonte de fornecimento contínuo de pau-brasil, os franceses invadiram a região onde fica a cidade do Rio de Janeiro. Lembro aqui que em 1532, um grupo de franceses tomou uma feitoria de portugueses na Ilha de Itamaracá, em Pernambuco. Essa invasão durou pouco tempo.

No Rio de Janeiro fundaram em 1557, a França Antártica sob o comando de Nicolas Durand de Villegagnon. O sonho dos franceses durou pouco e eles acabaram sendo expulsos por forças portuguesas em 1567. Anos mais tarde, os franceses fariam uma nova tentativa de invasão e fundariam a França Equinocial no Maranhão, uma iniciativa que também não durou muito tempo. O monopólio do “pau-brasil genérico” continuaria em mãos portuguesas. No início do século XIX começaram a surgir os primeiros corantes químicos, como as anilinas, e o brazil ficou obsoleto.

Quanto ao nome de nosso país ser derivado do pau-brasil, existem muitas controvérsias e histórias interessantes a se explorar. A narrativa que eu mais gosto é a da lendária Hy-Brazil, uma fantástica terra no mar exterior da mitologia dos vikings e cuja descoberta era uma das metas das grandes sagas desses navegadores. Se você já assistiu ao filme As Aventuras de Erik, o viking, de 1989, lembrará que os navegadores estavam buscando por essa terra lendária. Existem duas fontes principais dessa lenda.

A primeira é a lenda grega das Ilhas Afortunadas ou a Macaronésia, citadas pelo escritor Plutarco. Essas ilhas ficavam no Oceano Atlântico e eram lugares onde todos os habitantes levavam uma vida de grande felicidade e de desfrute dos bens terrestres. Essa lenda acabou sendo transmitida para outros povos.

Bem mais recente é a lendária expedição de São Brandão, um monge irlandês, no século VI. Contada no Navigatio Sancti Brendani, um dos manuscritos mais copiados da Idade Média, a expedição de São Brandão teria sido formada por cerca de 60 religiosos, que zarparam com um barco (que segundo muitas fontes era feito de couro) na costa Oeste da Irlanda, até então o fim do mundo conhecido, e saíram em busca das lendárias terras da Macaronésia.

Uma das passagens mais interessantes da narrativa fala da descoberta de uma ilha completamente desnuda. Os religiosos desembarcaram e chegaram a acender uma fogueira – foi só então que descobriram se tratar de uma grande baleia. A saga dos religiosos terminou com a descoberta da Terra Repromissionis, ou o Paraíso. Essa ilha foi chamada de Brazil. A Ilha do Brazil aparece em quase todos os mapas produzidos na Idade Média, mudando de posição de mapa para mapa.

Cerca de sete anos depois, os religiosos retornaram para a Irlanda e fizeram relatos fantásticos de novas terras. Durante os séculos seguintes, as lendas de muitos povos falariam de uma terra mítica chamada Brazil ou Hy-Brazil em algum lugar no Oceano Atlântico. Logo após as notícias sobre a descoberta pelos portugueses de uma extensa terra no Atlântico Sul começarem a circular pela Europa,  mapas com essa terra recebendo o nome de Brasil também começaram a circular. Ou seja: o nome do lugar já existia – só faltava descobrir a terra. Se existiam ou não árvores de pau-brasil no lugar, isso seria um pequeno detalhe histórico.

A imagem que ilustra essa postagem é de um selo das Ilhas Feroé ou Faroé e mostra São Brandão descobrindo essas ilhas durante essa lendária expedição. Isso demonstra o quanto o Santo ainda é popular em muitos lugares do mundo.

PS: É provável que você nunca tenha ouvido falar, mas existe a Cimeira (ou Cúpula) dos Arquipélagos da Macaronésia, um fórum econômico que reúne os Arquipélagos das Canárias, da Madeira, dos Açores e de Cabo Verde.

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