AS “CABEÇAS D’ÁGUA” EM GUAPÉ E AS TRÁGICAS MORTES DE TURISTAS

Cabeça d'água

Na última quarta-feira, dia 1° de janeiro, um grupo de turistas que visitava o Parque Ecológico do Paredão, localizado a cerca de 15 km da cidade de Guapé, no Estado de Minas Gerais, foi surpreendido por uma forte “cabeça d’água” – três pessoas morreram afogadas. A “cabeça d’água” ou “cabeça de água” é um fenômeno provocado por fortes chuvas localizadas, o que resulta num aumento rápido e violento do nível de um rio ou cachoeira, o que pode surpreender banhistas mais distraídos. 

O Parque Ecológico do Paredão é famoso por suas cachoeiras, que atraem um grande número de banhistas nos dias quentes do verão, justamente a época em que as fortes chuvas são comuns e também a formação repentina das “cabeças d’água”. Os turistas que morreram no Parque estavam em uma cachoeira localizada em um grotão, uma fenda aberta entre paredões rochosos, e não tiveram chance de fugir com a chegada brusca de um grande volume de água, que inundou rapidamente o local e arrastou as vítimas. A foto que ilustra esta postagem mostra uma cachoeira em um dia tranquilo e a o mesmo local após ser atingido por uma “cabeça d’água”. Observe na foto que há um grupo de banhistas ilhados em uma pedra.

Quando eu era adolescente, talvez com 14 ou 15 anos de idade, testemunhei um desses fenômenos no rio Branco de Cima, um curso de água localizado no extremo Sul do Município de São Paulo dentro do Parque Estadual da Serra do Mar. Eu participava de um clube de escoteiros há época e estávamos realizando uma caminhada por uma das trilhas da região, famosa por possuir um dos maiores e mais ricos fragmentos preservados da Mata Atlântica.  

Nosso grupo estava terminando a decida da Trilha dos Índios, um declive de mais de 500 metros entre o alto do Planalto de Piratininga e a planície costeira, quando desabou um fortíssimo temporal. Em menos de dez minutos, testemunhamos o nível do pacato rio Branco de Cima subir mais de 2 metros e se transformar num violento e assustador turbilhão de águas. Nossa trilha naquele dia nos levaria a cruzar o rio e sempre me perguntei o que teria acontecido com nosso grupo se tivéssemos sido surpreendidos por aquela “cabeça d’água” no meio da travessia … 

Mortes de banhistas devido a essas enchentes repentinas ocorrem com relativa frequência em regiões interioranas do país, onde são comuns as tempestades de verão. Sem contar com praias para se refrescar nos dias quentes, as populações buscam os pequenos rios, especialmente aqueles com trechos de cachoeiras, onde é comum a formação de piscinas naturais. Enquanto os banhistas se divertem distraidamente, um temporal localizado pode estar caindo a poucos quilômetros de distância e selando a sorte dessas pessoas. 

Foi exatamente o que aconteceu com as lendárias Três Marias – as irmãs Maria Francisca, Maria das Dores e Maria Geralda, que viviam nas margens do rio São Francisco, no local onde existe atualmente a Represa de Três Marias. Contam as histórias do lugar que havia uma hospedaria familiar que era administrada pelas três irmãs. O local era conhecido popularmente com a Hospedaria das Três Marias. Certo dia, as três irmãs foram nadar no rio, sendo surpreendidas por uma repentina “cabeça d’água”, que chegou aumentando bruscamente a correnteza e o volume das águas do São Francisco. A três irmãs acabaram morrendo afogadas e toda a região passou a ser conhecida pelo nome de Três Marias. 

Se você fizer uma rápida pesquisa na internet, encontrará diversas notícias de mortes provocadas por “cabeças d’água por todo o país. No final de janeiro de 2017, um homem morreu afogado e outros três ficaram ilhados no rio Nhundiaquara, no litoral do Estado do Paraná. O grupo se refrescava no rio quando foi surpreendido pelo aumento brusco do nível da água, que além da força da correnteza arrastava uma grande quantidade de detritos.  

No final de 2018, cinco pessoas morreram afogadas na Cachoeira do Zé Pereira, na região da Serra da Canastra, interior de Minas Gerais. Essa é uma região repleta de cachoeiras e rios de águas cristalinas, que atraem milhares de banhistas nos dias mais quentes. Os acidentes com as “cabeças d’água” são muito frequentes na região e as unidades do Corpo de Bombeiros costumam ficar em alerta máximo nas temporadas de verão. 

Um outro caso que teve forte repercussão na imprensa ocorreu em janeiro de 2019 no município de Itatiaia, na região serrana do Estado do Rio de Janeiro. Uma forte chuva atingiu o Parque Nacional de Itatiaia, levando a um rápido aumento do nível do rio Campo Belo. A enchente chegou rapidamente a um trecho de cachoeiras do rio, chamado pelos locais de Paraíso Perdido, pegando de surpresa um grupo de turistas que estava no local – 4 pessoas morreram afogadas. 

Muita gente, inclusive nos meios jornalísticos costuma confundir as “cabeças d’água com as trombas d’água, um fenômeno diferente que é formado quando fortes ventos em rotação atingem um corpo d’água e formam uma coluna de água no ar. As trombas d’água costumam durar poucos minutos e desaparecem repentinamente, sem causar maiores estragos. Já os estragos provocados pelas bruscas enchentes criadas pelas “cabeças d’água” costumam se estender por dezenas de quilômetros de margens, deixando muita destruição pelo seu caminho. 

Uma das formas de se evitar acidentes mais graves provocados por essas enchentes seria a instalação de sensores de nível ao longo das calhas de rios onde as cabeças d’água costumam ocorrer com maior frequência. Ao menor sinal de aumento do nível e da intensidade das correntezas, esses sensores disparariam alarmes de alerta para os banhistas. Infelizmente, vivemos no país das tragédias anunciadas e é difícil imaginar que alguma autoridade venha a se preocupar com a criação de sistemas de segurança deste tipo. 

Na falta de sistemas de alerta automáticos, cabe aos banhistas de plantão um olhar apurado para o horizonte na busca de nuvens escuras de tempestades. Caso se aviste ou se suspeite de alguma chuva mais forte na região, se afaste da água e procure um ponto mais alto para se abrigar. Esse cuidado poderá prejudicar o seu banho refrescante no rio ou na cachoeira, mas poderá salvar a sua vida. Uma enchente criada por uma “cabeça d’água” costuma ser muito rápida – se você for atingido por uma delas, mal terá tempo de iniciar uma reza antes de ser arrastado pela força das águas. 

Cuidem-se e curtam o verão!

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