FALANDO DE RUBINEIA, A CIDADE DE RUBENS E DE NEIA…

Rubineia

“O relógio marca meio dia.  

Antes de sair para almoçar, Dona Conceição Berselle repete o mesmo ritual das últimas semanas – ela vai até a beira do lago em formação do reservatório da Usina Hidrelétrica de Ilha Solteira para conferir o nível das águas, que sobem a cada dia e encobrem trechos já abandonados da cidade. Nos últimos anos, desde que foi anunciada a construção da usina hidrelétrica em 1967, Dona Conceição e o marido, responsáveis pelo cartório de Rubineia, trabalham intensamente no pagamento de indenizações e na preparação das escrituras dos novos imóveis, que foram construídos na nova sede da cidade, em implantação a poucos quilômetros dali. O casal, que só abandonou a cidade quando as águas chegaram à porta de sua casa em 1973, conheceu de perto o drama de todos os desapropriados. Eles foram, literalmente, os últimos moradores a abandonar sua velha cidade.”

Essa breve narrativa, adaptada de uma reportagem sobre o alagamento de Rubineia, é um dos muitos registros que mostram, com nomes e sobrenomes, todo o drama humano das populações desalojadas pela construção das grandes usinas hidrelétricas. Conforme comentamos em postagem anterior, a construção da Usina Hidrelétrica de Ilha Solteira, na divisa entre os Estados de São Paulo e de Mato Grosso do Sul, e o represamento das águas do rio Paraná, criaram um lago com uma superfície de 2 mil km² e provocaram a desapropriação de milhares de imóveis e propriedades rurais. Somente no município de Rubineia, cerca de 10 mil pessoas tiveram de abandonar suas propriedades – a sede do município foi totalmente inundada e uma nova área urbana foi erguida em um terreno mais alto. 

A história de Rubineia se confunde com a de muitas outras cidades que surgiram ao longo das margens do rio Paraná durante as primeiras décadas do século XX. Inúmeros programas de colonização e ocupação de áreas interioranas do país foram criados e estimulados pelos sucessivos Governos Federais, com o claro objetivo de ocupar o imenso vazio populacional dos sertões brasileiros. Esses movimentos receberam nomes como Marcha para o Oeste, Frentes Pioneiras e também Frentes de Expansão

Rubineia nasceu no início da década de 1950 por iniciativa de Rubens de Oliveira Camargo, que resolveu transformar suas terras em um grande loteamento, onde criaria sua própria cidade. O nome do lugar, aliás, surgiu da junção do seu nome – Rubens, com o de sua esposa – Neia: Rubineia. O empreendedor tinha consciência que os trilhos da Estrada de Ferro Araraquara não tardariam a chegar até as margens do rio Paraná rumo ao Mato Grosso e que a presença de um terminal ferroviário traria muito progresso para a região. Uma das primeiras construções da futura cidade foi uma mercearia, instalada onde já funcionava um botequim, conhecido pelo sugestivo nome de “Fecha Nunca” – a cidade cresceu ao redor desse núcleo. 

Como previsto, os trilhos da ferrovia chegaram ao lugar no final de 1952, uma facilidade logística que estimulou a chegada de inúmeras famílias, que buscavam construir uma nova vida. A foto que ilustra esta postagem, retirada de um site que guarda a memória de Rubineia, mostra uma típica família de pioneiros da cidade nessa época. Durante muito tempo, a cidade funcionou como uma escala para os viajantes que seguiam ou vinham da cidade de Aparecida do Taboado, na outra margem do rio Paraná já em território do Mato Grosso do Sul. Esse intenso movimento de viajantes estimulou o surgimento de um intenso comércio e de uma estrutura de serviços na cidade de Rubineia, o que se somou à forte produção agropecuária local. 

Em 1953, a jovem vila foi elevada à categoria de distrito de Santa Fé do Sul e em 1964, tornou-se um município independente. A prosperidade da cidade, que crescia sem parar, foi abalada pelo anúncio da construção da Usina Hidrelétrica de Ilha Solteira em 1967, obra que provocaria a inundação de parte considerável das terras do município. 

Um dos aspectos mais complicados de um processo de desapropriação de propriedades para a realização de uma grande obra é o valor que será pago como indenização. Trabalhando nas obras de prolongamento de uma grande avenida na cidade de São Paulo, eu acompanhei todo esse processo e senti as dificuldades – quem está pagando pela desapropriação usa o menor valor de mercado possível; já o desapropriado vai lutar com todas as suas forças para tentar receber um valor mais alto. Normalmente, o lado mais fraco – o do desapropriado, perde. No caso de propriedades rurais, onde nem sempre o dono das terras tem a documentação de posse em ordem (muitas vezes são posseiros ou invasores de terras públicas), é comum que as famílias tenham de abandonar as terras sem receber praticamente nada – na melhor das hipóteses, recebem apenas uma ajuda de custo. 

Durante o período dos Regimes Militares, que esteve no comando do Governo do país entre 1964 e 1985, a construção de um grande número de usinas hidrelétricas por todos os cantos do país, criou uma verdadeira legião de pequenos proprietários rurais desalojados. Sem dispor de mecanismos legais a quem recorrer, esses desalojados criaram seu próprio movimento social anos mais tarde – o Movimento dos Atingidos por Barragens. De acordo com estatísticas do Movimento, cerca de 1 milhão de pessoas foram afetadas pela construção de barragens em todo o Brasil. As diversas barragens construídas no rio Paraná no período, deram uma importante “contribuição” para a formação desse grande número de desalojados

Um número interessante de ser analisado é a população atual do município de Rubineia que, de acordo com as informações do último censo demográfico, é inferior a 3 mil habitantes. Entre 1969 e 1973, período em que ocorreram as desapropriações de terras e propriedades para a construção do reservatório da hidrelétrica de Ilha Solteira, foram cerca de 10 mil pessoas desapropriadas. Essa diferença entre a população antiga e a atual no município mostra as distorções desse processo – os baixos valores pagos pelas terras desapropriadas, isso na hipótese de ter existido algum pagamento, empurrou as famílias para regiões distantes, onde o preço das terras ainda era mais baixo, especialmente na Região Amazônica. 

Os números também mostram o enfraquecimento da economia do município, que não conseguiu recuperar o antigo vigor e as fortes taxas de crescimento da fase inicial da sua história. Em 1998, com a inauguração da ponte rodo-ferroviária sobre o rio Paraná, ligando o município de Rubineia a Aparecida de Taboada, a importância da cidade como entreposto de viajantes diminuiu muito. Um dos poucos impactos positivos após a formação da represa da hidrelétrica de Ilha Solteira foi um aumento no número dos turistas, que passaram a frequentar a cidade, especialmente pescadores e/ou amantes da pesca, que buscam as águas do rio Paraná e seus grandes peixes, como o cobiçado dourado. 

A construção de usinas hidrelétricas traz enormes ganhos econômicos e benefícios para as nossas modernas sociedades. Porém, como se vê facilmente, muita gente perde muito com a implantação dessas obras. 

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