AINDA FALANDO DE GRANIZO, OU LEMBRANDO DA “PROFECIA DO CAPADÓCIO”

Avião Latam

O mineiro Fernando Sabino (1923-2004), escritor e jornalista de primeira linha, nos legou uma obra fantástica, onde se incluem romances, histórias, contos, artigos, filmes e, especialmente, crônicas. Na crônica “A quem tiver carro”, uma das minhas favoritas, Sabino fala dos dissabores de um motorista com um carro problemático, onde cada mecânico visitado dá um diagnóstico diferente ao problema (bem por acaso, já tive um carro com um “problema” semelhante).  

Ao sair para uma viagem, o carro “morreu” a poucos quilômetros de sua cidade, bem na frente de uma oficina mecânica de beira de estrada. O mecânico, “especialista” em eletricidade de automóveis, rapidamente diagnosticou o problema – o dínamo estava esquentando. Como solução mágica, o mecânico enrolou um pano molhado na peça, informando que o carro iria morrer de novo assim que esse pano secasse. O indignado motorista, que havia decidido voltar para a sua casa, encontrou rapidamente com o seu destino: “À entrada da cidade a profecia do capadócio se realizou: morreu de novo.” 

Sentindo-me um pouco como o capadócio de Fernando Sabino, encontrei entre as notícias publicadas nesta manhã a informação do incidente ocorrido na madrugada de ontem (31/10/2018), com um avião Airbus A-320 da empresa Latam, que sofreu grandes danos por granizo, durante um voo entre as cidades de São Paulo e Santiago do Chile. O avião sobrevoava a região de fronteira entre o Rio Grande do Sul e a Argentina, quando passou a enfrentar uma forte turbulência e os passageiros passaram a ouvir o barulho do granizo batendo contra a fuselagem. A postagem publicada ontem aqui no blog tratou justamente das tempestades no Rio Grande do Sul e dos graves problemas criados pela precipitação de granizo. O avião fez um pouso de emergência em Buenos Aires, na Argentina, e todos os passageiros passam bem. 

Leiam a integra da matéria publicada pelo site de notícias FOLHAPRESS que fala dessa infeliz coincidência: 

“AVIÃO DA LATAM TEM NARIZ E PARA-BRISA DESTRUÍDO POR GRANIZO EM VOO 

Um voo da Latam saído de Guarulhos, com destino a Santiago, no Chile, teve de ser desviado para Buenos Aires na madrugada desta quarta-feira (31), após a aeronave passar por uma tempestade de granizo e sofrer avarias. 

Embora, segundo a Latam, o voo e o desvio para a Argentina tenha ocorrido de maneira segura, nas TVs passageiros dizem ter passado momentos de pânico e “queda livre”. 

Segundo sites de monitoramento de voos, A aeronave A320 (uma das mais usadas no mundo), partiu de Guarulhos à 1h51 (de Brasília) e seguia normalmente seu voo até as 3h11, quando sobrevoava no noroeste do Rio Grande do Sul, fez uma curva atípica para este voo para a direita. Logo depois, já na fronteira com a Argentina, a aeronave ganhou altitude, possivelmente para desviar de uma tempestade. 

Segundo relatos dos passageiros, o piloto anunciou que o voo passaria por uma zona de turbulência e que os passageiros deveriam colocar o cinto de segurança. 

Às 3h23, a aeronave desceu cerca de mil metros em um minuto e meio, segundo os sites de monitoramento. Nesse momento, passageiros relataram pânico no voo. 

“Foi uma turbulência, mas muito violenta. Era como uma espécie de queda livre. E se prolongou no tempo, isso causou pânico entre os passageiros. Se ouviram gritos e choro”, disse a uma TV argentina um dos passageiros. “Em um momento, percebemos o aumento da potência das turbinas. E houve um barulho tremendo do granizo golpeando a fuselagem. Foi bastante impactante”, comentou o passageiro. 

Após o incidente, o piloto teria informado que mudariam o destino do voo para Buenos Aires, por motivos de segurança. O pouso ocorreu às 4h52. 

Nesse momento, o nariz do avião e o vidro que permitiam a visualização da pista pelos pilotos estavam danificados pelo impacto de diversas pedras de granizo. 

Em uma conta no Twitter, o jornalista Diego Dominelli publicou fotos da frente e do interior da cabine do avião. 

Segundo o especialista em segurança aérea Lito de Sousa, apesar do susto dos passageiros, o voo não correu risco. 

“É normal que os passageiros tenham se assustado, pois a turbulência costuma ser bem severa e o barulho é bastante alto, em casos de tempestade com granizo. Mas independente do susto, o avião não corre risco de queda. Existem vários casos já registrados em que granizos que destroem o nariz e o para-brisa. Mas o voo segue com segurança. Não há riscos sobre os motores, por exemplo”, comenta. 

A Latam diz que a aeronave terá de passar por manutenção e que os passageiros receberam assistência da companhia e estão seguindo para Santiago, no Chile. 

A companhia diz que seguiu todos os procedimentos previstos para este tipo de situação, mantendo o controle da aeronave em todos os momentos e resguardando sempre a segurança de seus passageiros. Com informações da Folhapress.”  

 

AS TEMPESTADES NO RIO GRANDE DO SUL COM QUEDA DE GRANIZO

Granizo

O mês de Outubro se encerra no Estado do Rio Grande do Sul com fortes chuvas, ventos e queda de granizo em algumas regiões. Na região da Serra Gaúcha, as precipitações foram acompanhadas de ventos de 90 km/h, o que provocou a queda de árvores e o destelhamento de casas. Os maiores volumes de chuvas foram registrados nas cidades de Alegrete, com um volume acumulado de 75 mm, e em Santiago, onde foram registrados 64 mm. Os fortes ventos causaram prejuízos nas regiões de Tupanciretã e também em Soledade, onde atingiram a velocidade de 86 km/h. 

As tempestades de primavera e de verão são comuns na região Sul, onde as altas temperaturas e a entrada de fortes frentes frias vindas do Sul do continente provocam alterações súbitas no clima. No dia anterior, o INMET – Instituto Nacional de Meteorologia, já havia emitido um alerta sobre a possibilidade de fortes chuvas com ventos de até 100 km/h em todo o território do Rio Grande do Sul, com a possibilidade de queda de granizo. A Marinha do Brasil também havia emitido um alerta sobre os riscos de ressaca em todo o litoral, com ondas que poderiam chegar aos 2,5 metros. Todas as previsões acabaram confirmadas, inclusive com registros de queda de granizo em cidades da Serra Gaúcha e na região da Campanha. 

Nosso planeta inteiro, conforme já comentamos em postagens anteriores, é uma gigantesca máquina movida a partir da energia do Sol. Entre outras inúmeras aplicações, a energia solar é a responsável pela evaporação de grandes volumes da água do mar – 383 mil km³ de vapor de água ou o equivalente a uma camada com aproximadamente 1,06 metro da água de todos os oceanos do mundo a cada ano. Esse vapor é espalhado pelos ventos por todos os cantos do planeta e é precipitado na forma de chuva, neve e granizo, entre outras, formando a água doce ou potável disponível na superfície dos continentes. De todas essas formas de precipitação da água, o granizo é uma das mais “desagradáveis”

Granizo ou saraiva são pedaços irregulares de gelo que se formam em nuvens densas como as cúmulos-nimbos e que se precipitam na direção dos solos durante as chuvas. Esses pedaços de gelo são compostos por água no estado sólido e têm um diâmetro entre 5 e 200 mm. Os institutos de meteorologia se referem ao evento em seus comunicados como queda de granizo, saraivada ou, simplesmente, queda de gelo. A formação do granizo requer ambientes de forte ascendência de ventos na atmosfera e baixa altitude do nível de congelamento, sendo mais frequentes nas áreas interiores dos continentes, dentro das latitudes médias do planeta. 

Normalmente, os pedaços de gelo têm um diâmetro de pouco mais de 5 mm, porém, conforme o grau de severidade das tempestades, os pedaços de gelo se aglutinam e formam bolas de gelo de grande peso e com alto potencial para causar danos materiais ao atingir o solo. É comum nas reportagens de televisão sobre os estragos causados por quedas de granizo, que moradores das regiões mostrem grandes pedras de gelo ao lado de frutas, como maçãs ou laranjas, ou de ovos, como forma de comparação de tamanho. 

O granizo se forma a partir de gotas de água que congelam ao entrar em contato com os chamados núcleos de condensação das nuvens, onde a temperatura está abaixo dos 0° C. Conforme novas gotas de água entram em contato com esse granizo, elas também se congelam e passam a formar uma estrutura parecida com uma cebola, apresentando várias camadas sucessivas de gelo. A força ascendente dos ventos continuará levando gotas de água e manterá o granizo suspenso até que sua massa atinja um peso que não poderá ser mais suportado pela nuvem – é nesse momento que o granizo cai na direção dos solos. 

As quedas de granizo ou saraivadas costumam causar grandes prejuízos para os agricultores, que muitas vezes têm plantações inteiramente destruídas pelo choque das pedras de gelo. Conforme o tamanho do granizo, esses prejuízos se estenderão a danos em telhados, construções, veículos, trens e aeronaves, além de riscos de ferimentos em pessoas e animais. No ano de 2004, eu tive a infelicidade de, num intervalo de três meses, ter meu carro atingido por duas tempestades com queda de granizo – mais de 50 marcas do choque das pedras de gelo ficaram “registradas” na lataria do veículo. 

Os sistemas de radares meteorológicos mais modernos conseguem detectar rapidamente a formação de granizo nas nuvens de tempestades – o Sistema Meteorológico do Canadá, por exemplo, faz esse tipo de acompanhamento e emite boletins de alertas para as áreas sob risco de queda de granizo, informação que permite que as populações se preparem para o evento climático. Uma outra alternativa que vem sendo usada na prevenção das quedas de granizo são sistemas de foguetes anti-granizantes. Essa tecnologia, de origem russa, permite que nuvens densas onde há probabilidade de formação de granizo sejam bombardeadas por baterias de foguetes, que ao atingirem o seu alvo liberam cargas de iodeto de prata no interior da nuvem, um produto que dissolve o granizo.  

Uma tecnologia brasileira, desenvolvida pela FATEC – Faculdade de Tecnologia de São Paulo, utiliza um sistema que libera o iodeto de prata nas nuvens sem explodir o foguete, que retorna ao solo numa decida controlada por paraquedas e pode ser reutilizado. Esse sistema permite um barateamento da operação e já vem sendo utilizado por cooperativas de produtores de frutas da Serra Gaúcha. 

Para a maioria de nós, pobres mortais que não dispõem desses foguetes anti-granizantes, precisaremos continuar contando com a sorte para fugir das imprevisíveis e problemáticas quedas de granizo.