A SECA NO SERTÃO DO CARIRI E AS TEMPESTADES EM MINAS GERAIS

Roliúde Nordestina

As chuvas continuam fortes em diversas regiões do Estado de Minas Gerais, atingindo também o Norte do Espírito Santo, grande parte de Goiás e o Distrito Federal, Sul de Mato Grosso do Sul e Oeste do Estado de São Paulo. Lembro que ainda faltam duas semanas para o início oficial do Verão, época que marca o período das fortes chuvas em grande parte das regiões Central, Sudeste e Sul do país. Enquanto isso, os sertanejos de boa parte do Semiárido olham para cada pequena nuvem que aparece no céu dos sertões do Nordeste, rezando para que caiam algumas gotas de chuva sobre as terras secas.

Na minha última postagem citei alguns números da chuva em Belo Horizonte, a fim de mostrar a intensidade das precipitações: em alguns bairros da capital, choveu o equivalente a 292 mm apenas nos primeiros 4 dias do mês – a média histórica de chuvas em Belo Horizonte no mês de dezembro é de 319,4 mm. Quem lida com recursos hídricos e que já está acostumado com esses números, sabe que estamos falamos de chuvas absolutamente volumosas. Porém, sempre que eu coloco este tipo de informação em meus textos, fico me perguntando se quem os ler conseguirá entender exatamente o que significam. Vou tentar explicar de um jeito bem didático:

O índice pluviométrico corresponde à somatória das precipitações de água (o que inclui chuva, neve e granizo) sobre uma área equivalente a 1 m², durante um determinado período de tempo. A medida utilizada é o milímetro (mm) e o período de tempo é escolhido conforme a necessidade: pode ser um dia, um mês, um ano.

Imagine que você queira saber qual é a quantidade de chuva que cai aí no quintal da sua casa durante um certo mês. Para determinar esta quantidade, que é o índice pluviométrico, você vai precisar instalar um recipiente em uma área aberta, que tenha condições de armazenar toda a água das chuvas que cairão ao longo do mês. Esse recipiente é teórico e corresponde a uma caixa com 1 metro de largura, 1 metro de profundidade e 1 metro de altura – feitas as devidas contas, esta caixa tem capacidade para armazenar 1 metro cúbico ou 1.000 litros de água. Para facilitar a leitura, imagine que esta caixa possui uma régua com graduação em milímetros colada em uma das faces internas – o zero estará voltado para o fundo da caixa. Conforme as chuvas vão caindo no seu quintal, uma parcela da água ficará armazenada dentro desta caixa – cada 1 mm de água acumulada na caixa corresponderá a 1 litro de água da chuva. No caso de Belo Horizonte, uma caixa coletora equivalente a esta indicaria que em 4 dias, o volume de água de chuva acumulado atingiu a marca de 292 mm – ou seja, foram 292 litros de água de chuva para cada metro quadrado de terreno em 4 dias. Fazendo os cálculos, podemos afirmar que choveu o equivalente a 73 milímetros ou 73 litros de chuva a cada dia sobre cada metro quadrado deste terreno.

No dia a dia, os meteorologistas e demais profissionais que precisam coletar dados sobre o volume de chuvas usam um pequeno equipamento conhecido como pluviômetro, que é uma versão bem reduzida desta caixa e, desta forma, bem mais fácil de se transportar e manusear. São instalados diversos pluviômetros em uma determinada região e o índice pluviométrico será calculado em função da média das leituras. Existe uma versão bem mais moderna do pluviômetro – o pluviógrafo, que realiza a leitura automaticamente e faz o registro em uma planilha ou gráfico; alguns modelos transmitem as informações via rádio ou celular diretamente para uma central de monitoramento do clima.

Agora que você já tem uma ideia do significado de índice pluviométrico, vamos comparar os volumes das recentes chuvas de Belo Horizonte com o índice equivalente da cidade mais seca do Brasil: Cabaceiras no Estado da Paraíba, mais conhecida como a “Roliúde Nordestina”.

Localizada no sertão do Cariri, no chamado Planalto da Borborema, a cidade de Cabaceiras fica a 180 km da capital da Paraíba, João Pessoa. Com uma população de pouco mais de 5 mil habitantes, Cabaceiras se orgulha da produção cinematográfica local, onde já foram filmados 25 longas metragens dos mais diversos gêneros. Destacam-se “O Auto da Compadecida”, do diretor Guel Arraes, baseado em uma peça de Ariano Suassuna e lançado em 1999; “Cinema, Aspirinas e Urubus”, de Marcelo Gomes e “Romance”, também dirigido Guel Arraes. A alcunha “Roliúde Nordestina” vem daí e a cidade acabou criando um Memorial Cinematográfico. Uma outra atração turística natural de grande fama na cidade é o Lajedo de Pai Mateus, uma formação rochosa a 25 quilômetros do centro da cidade, formada por grandes pedras arredondadas, cada uma com até 45 toneladas.

A precipitação média anual na cidade de Cabaceiras é de apenas 348 mm, resultante de chuvas que ocorrem normalmente em apenas dois meses do ano. O período de estiagem na cidade dura entre dez e onze meses. Não é incomum a ocorrência de tempestades violentas nos períodos das chuvas – em 29 de abril de 2011 choveu o equivalente a 108,2 milímetros em apenas 24 horas – este índice é bem mais alto que os 73  mm registrados em Belo Horizonte nos primeiros dias deste mês de dezembro.

Para que você tenha uma ideia exata da aridez de Cabaceiras, a precipitação média mensal é de apenas 29 mm ou menos de 1 mm de chuva a cada dia. Ou seja, a chuva que caiu em um único dia na capital mineira corresponde a mais de dois meses de chuva em “Roliúde” – para tornar o roteiro ainda mais dramático, já que estamos falando de um polo cinematográfico, podemos fazer a comparação em dias: é necessária a soma de 73 dias de chuva em Cabaceiras para se atingir o volume acumulado em um único dia de chuva em Belo Horizonte neste início de dezembro. Nem os melhores roteiristas da verdadeira Hollywood conseguiriam imaginar um cenário mais dramático do que o sertão do Cariri.

Felizmente, desde o início de 2017, a situação de Cabaceiras é um pouco melhor do que em anos anteriores graças à inauguração de um ramal do Eixo Leste do Sistema de Transposição das Águas do Rio São Francisco. Este ramal, que chega até a cidade de Monteiro na Paraíba, está despejando 7 m³ de água no leito do Rio Paraíba, que atravessa o município de Cabaceiras. Depois de acompanhar o leito do rio completamente seco por mais de cinco anos, a população de Cabaceiras agora pode admirar de camarote, sobre as muitas formações rochosas da região, a passagem das águas em meio à vegetação ainda devastada pela forte estiagem e sentir alguma esperança de um futuro melhor. Quem gosta de cinema, talvez associe esta imagem a uma cena do filme “Laurence da Arábia”, um dos grandes clássicos do cinema – depois de atravessar o deserto da Península do Sinai a pé e sem nenhum suprimento de água, o protagonista da história avista a imagem surreal de um grande navio passando atrás das dunas: ele e os companheiros acabavam de chegar ao Canal de Suez no Egito.

Este dois casos mostram os extremos climáticos de nosso país e expõem com absoluta clareza a falta de infraestrutura para lidar com os problemas ligados à água – tanto o excesso, como no caso das enchentes que assistimos em Belo Horizonte, quanto a falta do precioso líquido nas regiões do Semiárido nordestino. No Sertão do Cariri, as águas, que vem sendo prometidas desde os tempos de Dom Pedro II, finalmente começaram a chegar, mais ainda falta muito a se fazer: estações de tratamento e redes de distribuição para levar a água a toda a população e canais de irrigação que permitam transformar os campos em “jardins”.

Ou seja – ainda faltam muitas cenas para finalizar a saga da “Roliúde Nordestina” e os dramas das muitas cidades assoladas pelas fortes chuvas de verão.

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