O QUE FAZER PARA SE RECUPERAR OS RIOS IPOJUCA E CAPIBARIBE?

Heráclito de Éfeso

Heráclito de Éfeso (vide imagem) foi um filósofo pré-socrático que viveu meio milênio antes de Cristo (aproximadamente entre 535 e 475 A.C) – é chamado de “Pai da Dialética” e o pensador do “tudo flui”, sintetizando a ideia de um mundo em movimento perpétuo. Vou iniciar esta postagem usando uma de suas mais famosas frases, que ao final do texto você entenderá bem porque foi usada:

Ninguém pode entrar duas vezes no mesmo rio, pois quando nele se entra novamente, não se encontra as mesmas águas, e o próprio ser já se modificou. Assim, tudo é regido pela dialética, a tensão e o revezamento dos opostos. Portanto, o real é sempre fruto da mudança, ou seja, do combate entre os contrários.”

Ao longo de toda a pesquisa realizada para a produção dos textos desta sequência de postagens, encontramos, em uma quantidade bem acima da média, referências saudosistas aos rios Ipojuca e Capibaribe: pessoas que nadaram e brincaram em suas águas quando criança, lavadeiras que ganhavam o seu pão trabalhando nas suas margens, comentários de pescadores – tanto profissionais quanto de amadores, que enfrentavam as águas em jangadas improvisadas e construídas com troncos de bananeiras. Referências de antigos catadores de caranguejos, essas são inúmeras. Surgiram também muitas lendas de monstros e assombrações que vivem nestas águas, alguns inclusive “especializados” no roubo das roupas das antigas e pobres lavadeiras. Pessoas de todas as idades e lugares ao longo das margens destes rios demonstram muita saudade e tristeza pela perda de uma parte importante de suas vidas.

Diferente de alguns rios que conheço muito bem – o Tietê e o Tamanduateí, rios paulistanos que já estavam poluídos em muitos trechos ainda na metade do século XIX: a poluição só fez aumentar e acompanhou o crescimento das cidades, o Ipojuca e o Capibaribe eram, em grandes trechos, limpos até uma ou duas gerações atrás – são muitas as lavadeiras e os pescadores que frequentavam e usavam as águas dos rios até as décadas de 1980 e 1990, trechos que atualmente estão altamente degradados e poluídos. Acredito que estas memórias do convívio com as águas destes rios estejam tão vivas na memória de muita gente devido a esta brevidade de tempo.

Agora, o que é necessário (senão possível) fazer para recuperar a qualidade ambiental destes dois rios tão importantes?

Segue uma “pequena” lista de ações:

– Ampliação dos sistemas de produção e distribuição de água potável;

– Instalação e ampliação das redes coletoras de esgotos e demais sistemas voltados ao afastamento e tratamento dos efluentes. A universalização destes serviços, sozinha, pode resolver até 60% da poluição nas águas dos rios;

– Ampliação da infraestrutura de atendimento à saúde das populações, com destaque ao controle e tratamento da esquistossomose, doença que apresenta altíssimos níveis de contaminação nos vales dos dois rios;

– Fomentar programas de construção de moradias para as populações de baixa renda, liberando as áreas de margens e de várzeas para o cumprimento das suas funções naturais de absorção dos excedentes de água nos períodos de cheia;

– Criação de parques lineares nas áreas urbanas nas margens dos dois rios, com plantio de vegetação e pistas de caminhada, ciclovias e equipamentos de lazer, reaproximando a população dos rios. Essas instalações não devem interferir nos ciclos de cheia e transbordamentos naturais dos rios – ao contrário, devem auxiliar nestes eventos;

– Replantio e recomposição das matas ciliares, inclusive recompondo áreas de manguezais nas regiões dos estuários, fazendo-se respeitar as áreas de recuo das construções em relação as margens dos rios;

– Criação de programas de reflorestamento e recuperação das áreas de brejo, permitindo a recomposição dos pontos de recarga dos lençóis subterrâneos e nascentes de importantes fontes de água em áreas do Agreste;

– Implantação de programas eficientes de coleta de resíduos sólidos urbanos (resíduos domésticos, industriais, comerciais e hospitalares), com a criação de programas de reciclagem e disposição dos resíduos inservíveis em áreas de aterro controlado, que atendam a respectiva legislação (Lei dos Resíduos Sólidos);

– Desenvolvimento de programas para coleta, destinação e reutilização dos resíduos da construção civil, vulgarmente chamados de entulhos, criando áreas para o armazenamento temporário, atendendo as recomendações da Lei dos Resíduos Sólidos vigente;

– Adequação dos abatedouros públicos e particulares às normas sanitárias, com eficientes processos de controle e tratamento dos efluentes e resíduos gerados ao longo do processo de abate e processamento de proteína animal;

– Controle e supervisão dos serviços de aplicação de defensivos agrícolas, cumprindo adequadamente as normas referentes a lavagem das embalagens dos produtos e devolução aos fabricantes;

– Disseminar a Educação Ambiental e o respeito pelos recursos naturais entre todas as populações dos municípios que se encontram total ou parcialmente inseridos nas respectivas bacias hidrográficas.

Observem que esta lista de ações não apresenta nada de “outro planeta”, que seria absolutamente impossível de ser realizado por nós, pobres mortais. Deixando de jogar lixo, entulhos e efluentes de todo o tipo nos rios, as suas águas, naturalmente, irão se renovar e os próprios processos naturais das águas se encarregarão de recuperar a qualidade ambiental – com águas limpas e livres de poluentes, todas as formas de vida voltarão a ocupar as águas, várzeas e margens dos rios. É sempre importante salientar que o acesso a moradia e aos serviços de saneamento básico, problemas que estão na origem da degradação ambiental destes rios, é um direito de todo cidadão brasileiro, conforme disposto no artigo 23, inciso IX da Constituição Federal:

“Artigo 23 – É competência comum da União, dos Estados, do Distrito Federal e dos Municípios:

(…)

IX – Promover programas de moradia e a melhoria das condições habitacionais e de saneamento básico.”

Nas mesmas fontes de pesquisa que usei para levantar muitas das informações e dados usados na redação dos meus textos, também encontrei inúmeros projetos e planos de autoridades e Governos de todos os níveis, descrevendo programas de implantação de infraestruturas de saneamento básico, controle de fontes de poluição, programas de habitação popular, reflorestamento, implantação de parques lineares, entre muitos outros. Muitos destes programas e políticas “já estão em andamento”, inclusive com prazos de entrega bastante próximos. Recomendo aos moradores destas regiões uma marcação cerrada em cima das autoridades responsáveis por todos estes programas e uma fiscalização implacável das obras e programas anunciados.

Com cidadãos fazendo a sua parte e autoridades cumprindo aquilo que está previsto na Legislação, sem que se precise inventar nada de diferente, os rios Ipojuca e Capibaribe voltarão em poucos anos a apresentar águas limpas e cheias de vida.

E voltando ao pensamento de Heráclito de Éfeso, teremos pessoas de diferentes gerações entrando nas novas águas de rios recuperados e renovados.

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