E O PEIXE QUE REPRESENTA O RIO IPOJUCA É: A GOIABADA!

Goiabada

Ao longo dos últimos meses, tenho trabalhado em uma sequência de postagens sobre os dez rios mais poluídos do Brasil. Já falei dos rios Tietê e Cubatão em São Paulo – o primeiro, o mais poluído do Brasil; o segundo, um símbolo da recuperação ambiental regional. Na sequência, explorei as nuances do rio Paraíba do Sul, um curso d’água vital para a região Leste do Estado de São Paulo e faixa Leste de Minas Gerais e, especialmente importante para o Estado do Rio de Janeiro, onde é o rio mais importante apesar de ser o quinto mais poluído do Brasil. Passamos então para o sofrido Rio Doce, um rio de grande importância regional e que foi destruído pelo rompimento de uma barragem de rejeitos de mineração em 2015. Na região Sul encontramos o rio Iguaçu, o segundo rio mais poluído do Brasil. Em Pernambuco encontramos os famosos Ipojuca e Capibaribe, respectivamente, o terceiro e o sétimo da lista dos rios mais poluídos do Brasil.

Em cada um destes rios, sempre encontramos uma espécie de peixe símbolo: a piabinha do rio Paraíba do Sul; o surubim do Iguaçu e o surubim-do-doce, respectivamente dos Rio Iguaçu e Doce; pacus e jaús no rio Tietê. Pesquisando sobre as espécies de peixes que poderiam simbolizar os rios Capibaribe e Ipojuca, encontrei algo bastante curioso: o peixe que melhor pode simbolizar o rio Ipojuca era uma goiabada, a goiabada Peixe, produzida na cidade de Pesqueira no Agreste pernambucano e cuja história se mostrou ligada ao rio. Deixem-me explicar este “causo”:

Até as últimas décadas do século XIX, as comunicações e o transporte de pessoas e produtos entre as Regiões do Agreste e Sertão pernambucanos até o litoral eram muito precários e demorados.  O transporte de pessoas e produtos dependia da força animal de cavalos e burros ou de redes de navegação fluvial limitadas. Frutas e legumes, produzidos em abundância no interior de Pernambuco, se perdiam facilmente pela falta de um transporte rápido e confiável para as áreas populosas do Litoral. Para resolver estes gargalos logísticos e dinamizar a economia do Estado, o Governo Central (ainda no período do Império) iniciou a construção da Estrada de Ferro Central de Pernambuco (oficialmente, The Great Western of Brazil Railway Company Limited, chamada pelos populares de Greitueste) em 1881, com o objetivo de ligar a cidade do Recife a Caruaru, objetivo que só seria alcançado em 1896. Em 1907, a ferrovia foi estendida até a cidade de Pesqueira, com as obras avançando cada vez mais Sertão adentro.

A chegada do transporte ferroviário até a cidade de Pesqueira teve uma importância ímpar: desde 1898, funcionava na cidade a Indústria Alimentícia Carlos de Brito, que ganharia projeção nacional com a marca de produtos Peixe – doces a base de frutas e produtos de tomate em lata. Aliás, segundo alguns estudiosos, o complexo industrial criado em Pesqueira, em pleno Agreste pernambucano, foi o marco inicial da industrialização da Região Nordeste. Entre todos os produtos da Peixe, merece destaque a goiabada em lata – eu tenho lembranças desta goiabada ainda na minha primeira infância, quando ela disputava mercado com uma marca famosa aqui de São Paulo, a Cica – servida com queijo Minas, a goiabada pernambucana ficava deliciosa!

A iniciativa empreendedora da Carlos de Brito trouxe uma enorme prosperidade a toda a região de Pesqueira nas primeiras décadas do século XX, período em que a cidade chegou a ter cinco jornais semanais, jóquei clube, revendedoras de automóveis, aeroporto e uma forte classe de trabalhadores assalariados. Com o passar dos anos, outras empresas produtoras de doces se instalaram em Pesqueira – Rosas, Tigre e Touro, entre muitas. A partir da década de 1950, o grupo Carlos de Brito entrou num processo de estagnação, especialmente por problemas de escassez de água nas regiões produtoras de frutas e às sucessivas quebras de produção em períodos de forte estiagem. No final de 1998, a empresa acabou fechada e todos os funcionários demitidos.

E qual a relação destas indústrias produtoras de doces de fruta com o rio Ipojuca?

A Região do Agreste é uma zona de transição climática entre a Zona da Mata úmida e o Sertão seco. A vegetação predominante é a Caatinga, um bioma adaptado a baixa incidência de chuvas e às secas periódicas. Nesta extensa região são encontrados os brejos, tanto de altitude quanto os chamados de “pé-de-serra”, áreas úmidas com enclaves de matas densas. Nas regiões dos brejos nascem inúmeros cursos d’água, fundamentais para a sobrevivência das populações e formadores dos grandes rios com nascentes no Agreste como o Ipojuca, o Capibaribe e o Una. Foram nestas áreas úmidas e de grande fertilidade onde se instalaram as grandes plantações de árvores frutíferas e de tomates, fornecedoras de matérias primas para as indústrias de doces e conservas de Pesqueira. Na região de entorno da cidade de Pesqueira merecem destaque os Brejos de São José e Ororubá, na Serra de Ororubá, o de Poção, na serra do mesmo nome, e o Brejo da Serra do Bituri, entre os municípios de Sanharó, Belo Jardim e Brejo da Madre de Deus.

As matas destes brejos formavam importantes redutos da vida animal do Agreste, com espécies como veados, onças, raposas, gatos maracajás, caititus, coelhos, além de aves e répteis de diversas espécies. Elas também abrigavam uma infinidade de espécies de árvores. Vejam essa descrição feita por Sebastião de Vasconcellos Galvão em 1908:

“A aroeira (muito usada no cozimento do entre casca para dores de garganta), o bom nome (com o uso específico das moléstias das vias respiratórias), o jucá ou pau-ferro, o assafraz, guáiaco, cabeça de negro, gitó, parreira brava, japecanga (succedaneo da salsaparrilha), o ingazeiro, jaboticabeira, o imbuzeiro, a catinga de porco (de cujas folhas se faz travesseiros sobre os quais se deitando os doentes de dores de cabeça e tonteiras, dizem cessar o incômodo), o mulungu, o cardeiro (mandacaru), o marmeleiro, o velame, o barbatenão (ou barbatimão), etc.”

A derrubada sistemática das matas ao longo de várias décadas, para ceder espaço para a expansão contínua das plantações e fornecimento de lenha para alimentação dos tachos de cozimento das fábricas e das caldeiras das locomotivas a vapor, levou o sistema ao colapso: sem a proteção das matas, solos perdem rapidamente a fertilidade e passam a sofrer erosão contínua pelos ventos e pelas chuvas; sem as raízes profundas das árvores do Agreste, deixa de existir a recarga natural dos lençóis subterrâneos de água, o que ameaça a própria existência do brejo – a produção de água nas nascentes ou cessa ou fica muito reduzida. O fornecimento cada vez mais irregular de frutas e tomates pelos produtores, acabou por comprometer a produção da indústria, que não resistiu à produção regular dos concorrentes das Regiões Sul e Sudeste. Em meio a esse colapso, restou ao Ipojuca um gigantesco passivo de sedimentos carreados para a sua calha pelas chuvas de vários invernos, a redução da oferta de água de muitos dos seus tributários e muitos pequenos produtores, que trabalhavam em parceria com a indústria, terminarem arruinados e em busca de “asilo” nas margens e várzeas do rio nas muitas cidades ao longo do seu vale.

O sonho efêmero da industrialização desta parte do Agreste acabou em uma tragédia socioambiental, que atualmente chamamos de “insustentabilidade” – ficou uma espinha do (da) Peixe em muitas gargantas…

A nós, restou apenas um punhado de “doces” lembranças.

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