O ROMPIMENTO DE UMA BARRAGEM DO PROJETO DE TRANSPOSIÇÃO DAS ÁGUAS DO RIO SÃO FRANCISCO: UMA CRÔNICA

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Depois de uma semana de Carnaval com postagens mais genéricas, previa retomar hoje as postagens sobre a Política Nacional dos Resíduos Sólidos. Acontecimentos alteraram meus planos.

Na última sexta-feira começaram a circular notícias sobre o rompimento de uma barragem no interior do Estado de Pernambuco que, ao que tudo indicava, faz parte do polêmico Projeto de Transposição das Águas do Rio São Francisco. Demorou um pouco até que o Ministério da Integração Nacional confirmasse que a barragem faz mesmo parte do Projeto. Curiosamente, essa mesma barragem havia sido inaugurada oficialmente uma semana antes com toda a pompa e protocolo.

A Barragem de Barreiros tem capacidade para armazenar 2,6 milhões de metros cúbicos de água – calcula-se que ao menos 1 milhão de metros cúbicos vazou através de uma fenda com 3 metros de largura que se abriu na frágil barragem construída com pedras e areia. Pelo menos sessenta famílias foram desalojadas pela enchente, que destruiu plantações e arrastou animais – felizmente, nenhuma pessoa morreu no acidente. Técnicos de empresas construtoras conseguiram conter o vazamento fechando a fenda com pedras e areia: em engenharia isto é chamado de “solução técnica”, no popular – “gambiarra”.

Na propaganda oficial, o Projeto de Integração beneficiará 12 milhões de pessoas em 390 municípios nos estados de Pernambuco, Ceará, Paraíba e Rio Grande do Norte, além das 294 comunidades rurais às margens dos canais. São dois eixos, Norte e Leste, que, quando concluídos, possibilitarão a captação água do Rio São Francisco e a sua distribuição por 477 quilômetros de canais. Como todos devem estar acompanhando nos noticiários, o Projeto caminha a passos de tartaruga em alguns trechos e em outros está simplesmente abandonado. Há denúncias de superfaturamento e desvios dos recursos do projeto; grande parte das obras já realizadas é de péssima qualidade – o acidente na Barragem do Barreiro é uma prova disso.

Enquanto a Região Nordeste enfrenta a maior seca dos últimos 100 anos, recursos destinados a obras contra a seca são desperdiçados a olhos vistos, como parece sugerir essa barragem – isto é o que muitos chamam de Indústria da Seca; outros dirão que a Indústria da Seca é “intriga da oposição”.

Tire suas próprias conclusões…

UMA QUARTA-FEIRA CINZA E SECA NO DISTRITO FEDERAL

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Os moradores das áreas mais nobres do Distrito Federal tiveram muitos motivos para lamentar a chegada desta última quarta-feira: o Carnaval chegou ao fim e, a contragosto de muita gente, a vida vai voltando a sua rotina normal; essa quarta-feira também foi o início de um evento nunca visto nessa área da cidade de Brasília – entrou em vigor o rodízio de água potável. A crise hídrica que afeta todo o Distrito Federal já havia colocado 80% das residências (da população pobre, diga-se de passagem) num regime de rodízio de abastecimento de água – agora chegou a vez dos ricos sentirem na pele o que é a falta de água nas torneiras.

O Distrito Federal é abastecido por dois diferentes sistemas: 85% da população é abastecida com água dos reservatórios do Descoberto e do Santa Maria, e os outros 15% da população e parte dos produtores agrícolas recebem água diretamente de, pelo menos, cinco córregos. Com chuvas muito abaixo da média histórica nos últimos meses, a Barragem do Descoberto está 20% abaixo do nível esperado para esse período – a de Santa Maria não está muito diferente. A empresa responsável pelo abastecimento do Distrito Federal, inclusive, está solicitando autorização junto aos órgãos ambientais para captação de água do Lago Paranoá, cartão postal de Brasília, para ajudar no abastecimento.

Moradores das áreas nobres da Capital Federal, acostumados a um consumo diário de até 800 litros de água, mais de quatro vezes o consumo médio da população e oito vezes mais do que o consumo diário per capita recomendado pela OMS – Organização Mundial da Saúde, vão ter de “sambar miudinho” e aprender a conviver com um volume de água sustentável. O período das chuvas está chegando ao fim e a água armazenada pode não ser suficiente para atender a todos até a chegada do próximo verão – todos vão ter de se esforçar muito para utilizar cada gota de água com muita responsabilidade.

NA AMAZÔNIA, O DESMATAMENTO CONTINUA CHOVA OU FAÇA SOL

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Enquanto milhões de pessoas se divertiam nos bailes, blocos e em desfiles nos diversos Carnavais de todo o país ao ritmo das marchinhas e sambas enredos, nos confins da Amazônia era o som desafinado das motosserras que dava o tom da destruição oculta da floresta.

Depois de uma queda de 70% a partir de 2004 e de uma sequência de anos de estagnação, o desmatamento da Amazônia voltou a crescer em 2016, período em que a floresta perdeu 7.989 km². Segundo dados do IPAM – Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia, a floresta perdeu no período uma área equivalente a 128 campos de futebol a cada hora. Os estados que registraram maior aumento da taxa de desmatamento foram Amazonas, Acre e Pará, com incremento de 54%, 47% e 41%, respectivamente.

Dez municípios lideram a lista do desmatamento na Amazônia, o que, em tese, deveria facilitar o trabalho de fiscalização das autoridades brasileiras. No Pará são cinco municípios: Altamira, São Feliz do Xingu, Novo Repartimento, Portel e Novo Progresso; dois municípios no Amazonas: Lábrea e Apuí; dois em Rondônia: Porto Velho e Nova Mamoré e um em Mato Grosso: Colniza.

É preciso que governos e autoridades hajam com responsabilidade e consigam reverter mais uma vez essa situação, mantendo o desmatamento sob controle. A se manter o ritmo do crescimento do desmatamento, corremos o sério de risco de, num futuro não tão distante, lembrar da floresta Amazônica apenas em sambas enredos e temas de desfile das escolas de samba…

NAS SERRAS CATARINENSES, O EQUILÍBRIO PERFEITO ENTRE SOL, CHUVA E FRIO

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Diferente de outras regiões brasileiras que, conforme citei nos dois posts anteriores, passam por extremos climáticos e estão sofrendo ou com o excesso de chuva ou com a seca prolongada, diversas regiões do Estado de Santa Catarina viveram neste último ano num clima de perfeito equilíbrio entre calor, frio e chuva.

A combinação de um inverno rigoroso e de uma primavera com baixa umidade e muito calor está possibilitando uma supersafra de maçãs em Santa Catarina. Responsável por 50% da produção nacional da fruta, a perspectiva do Estado é a colheita de 500 mil toneladas de maçãs em 2017, produção 20% maior em volume e com qualidade surpreendente.

Em 2016 foram colhidas no Brasil 830 mil toneladas de maçãs. Neste ano a previsão é a colheita de mais de 1,1 milhão de toneladas. Ao contrário de anos anteriores, onde os invernos foram excessivamente quentes, as chuvas intensas e ocorreram geadas fora de hora, essa safra contou com 1.400 horas de frio rigoroso no inverno e um período de floração das árvores com poucas chuvas, resultando em frutos com polpa firme, teor de acidez e nível de açúcar em perfeito equilíbrio.

Os trabalhos de colheita devem se estender até o mês de abril, com os produtores conseguindo vender a fruta com preços até 17% superiores ao período de safra de 2016. Muita gente em Santa Catarina tem razões de sobra para comemorar muito neste Carnaval.