A VILA PRINCESA, OU VIVENDO EM UM LIXÃO

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Uma comunidade de catadores de recicláveis construída dentro de um grande lixão a céu aberto a apenas 20 quilômetros do centro da cidade de Porto Velho, capital do Estado de Rondônia. São pelo menos quatrocentos habitantes, sendo um terço crianças, que vivem e trabalham em meio aos resíduos gerados por uma cidade grande, com mais de 400 mil habitantes. A atmosfera é pesada, carregada pelos mais diferentes tipos de gases que emanam continuamente das pilhas de lixo. A cada novo caminhão que manobra pelos apertados vales ladeados por “montanhas”, catadores se apressam para chegar o quanto antes, disputando uma verdadeira prova de velocidade contra nuvens de urubus, enxames com todos os tipos de insetos e outros animais que compartilham esse mesmo habitat. Visitei o local pela primeira vez em meados de 2009, poucos meses após desembarcar em Rondônia junto com uma grande equipe de profissionais contratados para realizar as obras do sistema de esgoto sanitário da cidade de Porto Velho. O singelo nome dessa comunidade: Vila Princesa.

Na Amazônia tudo é superlativo: os rios, as distâncias entre as cidades, as dificuldades para se adquirir os mais básicos insumos da construção civil, a carência dos serviços públicos mais fundamentais. Na minha primeira semana morando no apartamento fornecido pela construtora, entrou uma aranha dentro de casa – não uma aranha comum, destas que estamos tão habituados: uma enorme aranha caranguejeira – falar que tudo por lá é superlativo não é uma mera figura de linguagem.

A pobreza na Amazônia também é superlativa.

Diferente da pobreza a que estamos habituados ou que imaginamos, é uma carência cercada de muito verde, água e aparente abundância, muito diferente daquela que ouvimos falar ou conhecemos em sertões com árvores esturricadas pela seca e pelo calor do sol. A Vila Princesa é um resumo da pobreza equatorial em nosso país.

Entre outras atividades profissionais a mim confiadas, recebi um pedido especial do gestor da obra para desenvolver algum tipo de ação de responsabilidade social para, ao menos tentar, ajudar as pessoas carentes que cercavam os nossos canteiros de obras. Grandes construtoras, como a pauta diária dos grandes telejornais têm mostrado quase que diariamente, têm muito dinheiro para “doar” para dirigentes políticos – para atividades de cunho social, muito pouco. E na falta de dinheiro, partimos para um caminho alternativo: conversando com um e com outro colega, formamos um grupo de voluntários – os Amigos Badecos (na linguagem popular de Rondônia, badeco é um dos nomes usados para chamar os operários da construção civil – seria alguma coisa parecida com “marmiteiro” em outras regiões do país). A primeira atividade do nosso grupo foi a de organizar uma festa no Dia das Crianças para as muitas crianças da Vila Princesa – por isso a visita para conhecer o lugar.

À conselho dos colegas nativos da cidade, fiz uma aproximação cuidadosa junto aos desconfiados moradores – nessa primeira visita, entrei vagarosamente com o carro da empresa pelas trilhas irregulares, reconhecendo assim o terreno. Circulando umas poucas centenas de metros, avistamos um grupo de crianças vasculhando uma pilha de lixo, descarregada a poucos minutos por um caminhão que ainda manobrava. Um dos garotos achou uma caixa de papelão branco, de dentro da qual retirou um objeto – usando o zoom da máquina fotográfica, foi possível identificar o achado: linguiça – era uma caixa de papelão branco de um frigorífico com linguiças, provavelmente descartadas por terem estragado ou por estar com o prazo de validade vencido. O garoto fechou a caixa e saiu andando com o achado em suas mãos. Para meu assombro, um colega rondoniense que me acompanhava comentou que os catadores retiravam, literalmente, seu sustento do lixo: materiais recicláveis para vender e também muitos dos alimentos do seu dia a dia. Os vídeos mostrados através desses links lhe darão uma amostra da vida neste local: Vila Princesa e Gente que vive do lixo.

Nossa festinha para as crianças foi um sucesso: com a companhia de um grupo de voluntários de uma outra empresa, preparamos e distribuímos centenas de cachorros quentes e refrigerantes, comprados com os parcos recursos arrecadados, para  crianças entre 1 e 80 anos da Vila Princesa. A garotinha da foto foi uma das participantes do evento e ficou muito minha “amiga” – a cada 10 minutos ela se aproximava sorrateiramente e dava um puxão na perna das minhas calças para chamar a atenção: era a senha para pedir um novo sanduíche. Além dos grandes olhos brilhantes e da pele cor de jambo, comum na maioria das crianças, duas coisas se destacavam – uma grande quantidade de cicatrizes nos braços e pernas e um número incontável de picadas de insetos em todo o seu corpo.

E foi assim, num conto que nada tem de fadas, que conheci a Vila desta minha pequena princesa…

PS: Postagem n° 150. Viva!

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