O POVO DO LIXO

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A definição de povo pode ser a de um conjunto de indivíduos que, num determinado momento de sua história, passa a constituir uma nação; normalmente, esse conjunto de indivíduos vive num território comum.  É comum também que os indivíduos pertençam a uma mesma etnia, com valores culturais e linguísticos semelhantes. Numa linguagem mais popular, o termo povo pode se referir à população que vive numa cidade, numa região, numa comunidade ou até mesmo em uma família – é o famoso “povo popular”.

Existem alguns povos que, tradicionalmente, têm sua identidade associada a lugares ou formas de vida: povo das montanhas, povo do deserto, povo do mar, povo do gelo, povos da floresta e assim por diante. Aqui no Brasil e em outros países tão miseráveis quanto o nosso, existem milhões de pessoas que, literalmente, moram dentro dos chamados lixões ou que vivem em suas bordas, retirando o seu sustento da coleta de materiais “recicláveis” – estou tomando a liberdade (e ponha-se liberdade nisso) de chamar esse grupo populacional de povo do lixo. Forçando um pouco a mão, podemos até incluir os catadores de recicláveis neste grupo.

Muitos grupos populacionais, como os catadores de materiais recicláveis (nome politicamente correto usado para se referir a esta população), podem ser considerados como invisíveis – seus membros estão por toda a parte, mas a população dominante finge que eles não existem. Um exemplo, são os moradores de rua da cidade de São Paulo: dados oficiais da Prefeitura falam de uma população de 14 mil pessoas vivendo nas ruas e avenidas da cidade, porém fontes da mesma Prefeitura falam que este número está subestimado. Moradores de rua ou “sem teto”, como alguns grupos políticos preferem usar, habitam em lugares ermos embaixo de pontes e viadutos, imóveis abandonados, túneis de serviço subterrâneos, terrenos baldios entre outros verdadeiros esconderijos urbanos, tornando difícil sua visualização e contabilização. Muitos desses indivíduos estão contidos na população dos catadores de recicláveis, outros em populações marginais como dependentes químicos, doentes mentais, idosos abandonados pelas famílias e outros mais.

Numa tentativa de determinar o tamanho e conhecer melhor as características desse grupo, a Secretaria-Geral da Presidência da República e a Secretaria de Economia Solidária do Ministério do Trabalho e Emprego desenvolveram um trabalho conjunto, publicado em 2012 sob o título de Diagnóstico sobre Catadores de Resíduos Sólidos, nome pomposo para apresentar o povo do lixo. O estudo, com números e resultados surpreendentes, possibilitou, inicialmente, a quantificação do tamanho dessa população: 400 mil pessoas, população maior que algumas capitais brasileiras como Porto Velho, Boa Vista e Macapá, e muito superior à de alguns pequenos países insulares do Oceano Pacífico como a Federação Micronésia e o Território da Polinésia Francesa. Quando a estatística inclui os familiares e dependentes, o número salta para 1,4 milhão de pessoas ou 0,7% da população brasileira ou ainda quase o dobro da população do Estado do Acre. É muita gente para se continuar a ignorar por mais tempo…

A maioria dessa população é formada, basicamente, por homens jovens, negros ou pardos, de baixa escolaridade e moradores das áreas urbanas, sobrevivendo com uma renda entre meio e um salário mínimo. Em algumas regiões, especialmente no Nordeste e Norte, a situação é bem pior que nas demais. O estudo também mostrou que apenas 10% deste contingente de catadores estão organizados em cooperativas – membros de um grupo vulnerável, com baixa escolaridade e trabalhando individualmente apresentam todas as condições para exploração por grupos mais fortes e organizados. Uma das consequências da falta de força se mostra na venda dos recicláveis “garimpados” no dia a dia com tanto esforço – os preços pagos pelos intermediários é sempre muito baixo, condenando esses catadores ao um ciclo interminável de vida na pobreza: passar o dia inteiro reunindo “produtos”, que transformados em dinheiro garantirão o jantar e, com um pouco de sorte, o próximo café da manhã.

Vamos continuar falando sobre o povo do lixo nos próximos posts.

3 Comments

  1. O grande problema do “lixo” nas cidades brasileiras corresponde a 2% do orçamento municipal, sendo assim tem muito “urubu de gravata” voando sobre a verba gorda. Esse dinheiro não tem fiscalização sobre as benfeitorias para a população. O povo do lixo, são os coitados que sobrevive como dá dos restos nogados fora.
    Continuamos a achar que quando jogamos algo no lixo, lembramos que esse material continuará nesse planeta. Precisamos mudar o termo jogar no lixo por: Tirar do meu campo de visão.

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