
O “interminável” e tumultuado ano de 2016 chegou ao fim e todos começamos 2017 com as esperanças renovadas.
A chegada do Verão trouxe, para algumas regiões, as preciosas e esperadas chuvas, tão importantes para a renovação dos estoques de águas para o abastecimento das cidades, geração de energia elétrica, irrigação das lavouras e garantia da sobrevivência de todos os seres vivos nos mais variados ecossistemas.
Infelizmente, a chegada do Verão e de suas chuvas traz em sua esteira as imagens das enchentes, desmoronamentos de encostas, danos ao patrimônio, veículos presos em ruas e avenidas tomadas por enxurradas e, não raras vezes, mortes de inocentes.
No Nordeste, ao contrário, se agrava a seca e a falta de água em centenas de cidades na região do semiárido, que persiste desde 2012 e, ao que tudo indica, continuará a se repetir ao longo de 2017. Essa prolongada seca, que já está sendo considerada uma das mais intensas em um século, já afeta 34 milhões de pessoas e escancara a incapacidade de governos de todos os níveis na gestão dos recursos hídricos. A construção do polêmico sistema para a transposição das águas do Rio São Francisco é um exemplo – as obras, se concluídas dentro dos prazos e orçamentos iniciais, poderiam estar auxiliando milhões de brasileiros a enfrentar esse grave período de estiagem; trechos inacabados e, não raras vezes, mal projetados estão envoltos em escândalos e desvios de verbas.
Mas esse novo ano trouxe também cenas diferentes para os telejornais: em meio a um cenário de caos, novos prefeitos assumiram o comando de cidades em situação falimentar: funcionários públicos com salários atrasados, postos de saúde e hospitais com falta dos insumos mais básicos, prédios públicos com corte de água e luz por falta de pagamentos, montanhas de resíduos sólidos nas ruas e calçadas aguardando por um serviço de coleta que nunca chega – as prefeituras devem centenas de milhões de reais para fornecedores e empresas concessionárias de todos os tipos. A combinação de crise econômica, corrupção e incompetência nunca havia sido tão explícita!
Resíduos sólidos amontoados em ruas e calçadas combinados com as fortes chuvas de Verão são um convite para a ocorrência e agravamento das enchentes localizadas – quem acompanha as minhas publicações sabe que trato, irritantemente, deste tema com muita frequência. Nossas cidades cresceram desordenadamente e sem planejamento, criando todos os tipos de dificuldades para a drenagem das águas pluviais. Qualquer descaso com a coleta e destinação dos resíduos sólidos, mesmo que temporário, implica em agravamento dos problemas.
Além dos alagamentos, a proliferação descontrolada dos vetores é também preocupante. Como todos tem acompanhado nos noticiários, diversas regiões de nosso país convivem há anos com as epidemias de Dengue, que sempre se agravam nos períodos das chuvas. O responsável pela transmissão da doença é o conhecido mosquito Aedes aegypti – os criadouros desse mosquito são os recipientes que acumulam as águas das chuvas: garrafas, latas, pneus, embalagens, entulhos e afins. Caixas d’água e recipientes usados sem maiores cuidados para armazenar água nas residências também podem se transformar em criadouros de mosquitos. Além dos “estoques” de criadouros de mosquitos já existentes nas nossas casas e cidades, os recentes problemas na coleta e destinação dos resíduos domésticos, comerciais e industriais, que observamos em inúmeros municípios, criaram as condições ideais para um aumento das populações dos mosquitos e, consequentemente, num incremento do número de casos de Dengue.
Além da Dengue, o mosquito Aedes aegypti é o transmissor da febre Chikungunya e do vírus Zika, causador da síndrome de Guillain-Barré e, já comprovado cientificamente, está associado ao nascimento de milhares de crianças com microcefalia; em menor escala, o Aedes aegypti é o transmissor da febre amarela em áreas urbanas.
A melhor defesa das populações contra todo esse conjunto de doenças é a eliminação dos criadouros dos mosquitos e a prevenção contra o surgimento de novos focos de acúmulo de águas das chuvas, a gestão responsável dos resíduos sólidos urbanos e a educação ambiental – desgraçadamente, para a infelicidade geral de todos nós, estas atividades desandaram nestes últimos tempos.
Trataremos disso nos próximos posts.
