CÓRREGO PIRARUNGÁUA: O RENASCIMENTO DE UM CURSO D’ÁGUA

pirarungaua

Os problemas na drenagem de águas pluviais nas cidades são uma realidade e neste início da estação das chuvas em grande parte do país, quando as enchentes, alagamentos e desmoronamentos com as habituais vítimas ocupam os noticiários, é impossível não deixar de encontrar temas a serem apresentados. Também a corrupção escancarada na execução de obras e serviços de engenharia é matéria diária nos meios de comunicação graças às inúmeras operações da Polícia Federal – muito difícil de não se indignar. Mas, vamos dar uma pausa nisso tudo e tentar achar as coisas boas que estão acontecendo.

O Jardim Botânico de São Paulo é uma das mais importantes áreas verdes da cidade de São Paulo com 360 mil metros quadrados vegetação típica da Mata Atlântica, onde o visitante pode conhecer 280 diferentes espécies de árvores, além de observar animais típicos dessa floresta como bichos preguiças, saguis, bugios, tucanos-do-bico-verde, entre outros. Foi criado em 1928 graças a um convite feito ao famoso naturalista Frederico Carlos Hoehne, quando o Governo local pretendia implantar e desenvolver um projeto de botânica na região da Água Funda. Aceito o convite, o professor Hoehne criou inicialmente o Orquidário de São Paulo, considerado o embrião do Jardim Botânico. Em 1938, após a criação do Departamento de Botânica de São Paulo , o espaço foi oficialmente inaugurado como Jardim Botânico.

Como manda a nossa tradição colonial, o Jardim Botânico de São Paulo teve sua estrutura baseada no Jardim Botânico de Upsala na Suécia – foram construídas estufas, lagos, escadarias e espaços de exposições interligados por alamedas calçadas ao estilo do Jardim sueco. Para viabilizar a construção de uma dessas alamedas, um trecho de uma nascente de córrego foi canalizada na década de 1940 – essa nascente foi simplesmente esquecida pela administração e era desconhecida da população.

Em 2007, parte da galeria construída sobre o córrego desmoronou e, depois de 70 anos, as águas límpidas do Córrego do Pirarungáua se mostraram à luz do sol. A administração do Jardim Botânico avaliou a situação e entendeu que, ao invés de reconstruir a galeria e voltar a manter o curso d’água escondido novamente, seria muito melhor remover completamente esse trecho do calçadão da alameda e deixar o Pirarungáua “vir a tona” outra vez. Ao longo de um ano de trabalho, a galeria de tijolos foi completamente demolida e as margens foram recuperadas com a plantação de vegetação – várias espécies de árvores em risco de extinção que foram retiradas do trecho sul das obras do Rodoanel (o Rodoanel é um conjunto de rodovias que circunda toda a Região Metropolitana de São Paulo) foram replantadas nessas margens.

Para facilitar o acesso dos visitantes, inclusive dos portadores de problemas de mobilidade, foi implantado um extenso deck de madeira reflorestada, inclusive com alguns trechos suspensos. Apesar de representar um trecho de apenas 250 metros de curso d’água recuperado, a notícia do renascimento do Córrego de Pirarungáua provocou um aumento no número de visitantes ao Jardim Botânico de São Paulo, o que demonstra que a população apoia e gosta deste tipo de iniciativa. O custo total dessa “revolução”: R$ 2,3 milhões em valores atualizados.

O processo de regeneração do Córrego do Pirarungáua também ajudou a aumentar o número de espécies nativas e ameaçadas de extinção plantadas no Jardim Botânico; também foi fundamental no processo de recuperação das nascentes do famoso Riacho do Ipiranga, do qual o Córrego é um dos tributários – diversas nascentes formadoras do Ipiranga estão localizadas dentro do Jardim Botânico.

O exemplo da recuperação do Córrego Pirarungáua também inspirou a formação de diversos grupos de cidadãos que, preocupados com os problemas das enchentes e gestão dos recursos hídricos da cidade de São Paulo, passaram a pressionar as autoridades municipais pela recuperação de cursos d’água e criação de parques lineares como o Parque das Corujas, na Vila Madalena, zona oeste da cidade.

Falaremos sobre esse Parque no nosso próximo post.

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