A PRIMAVERA CHEGOU! JÁ AS CHUVAS…

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Às 11h21 deste dia 22 de setembro começou oficialmente a Primavera, estação do ano que, segundo ensinavam na minha infância na década de 1960, é marcada pela chegada das flores. Confesso que nunca entendi direito essa definição – nasci em São Paulo, cidade cortada pelo Trópico de Capricórnio e ponto de encontro de três climas: Tropical Atlântico, Tropical de Altitude e Subtropical: aqui há flores o ano inteiro. Até um passado recente, lembro que havia alguma regularidade no clima, com períodos de frio e calor bem definidos, e ocorriam as chuvas previstas ao longo do ano – até o final dos anos de 1960 ainda caía a famosa garoa paulistana, que refrescava o ar da cidade grande no meio da tarde – já no inverno, algumas geadas cobriam os gramados de branco

A Primavera deste ano começou com o anúncio de racionamento de água no Distrito Federal e na Região de Vitória, no Espírito Santo. Também assisti reportagem informando que o Rio Madeira, em Rondônia, está no nível mais baixo da história, o que pode levar à paralisação total dos transportes via balsa até o Rio Amazonas, atividade fundamental para o Estado. Outro indicativo importante – o Lago da Usina de Serra Mesa em Goiás está com apenas 13% da sua capacidade. Nunca ouviu falar? Trata-se do maior reservatório artificial do Brasil em capacidade de armazenamento, podendo reter 54,4 bilhões de litros – isso é cinquenta vezes o volume máximo que pode ser armazenado no famoso Sistema Cantareira de São Paulo.

Outras regiões há muito já convivem com problemas associados à seca; ano passado éramos nós aqui na Paulicéia quem sofria com a angústia de ver os nossos reservatórios de água a cada dia afundando mais um pouco no volume morto, na expectativa do anúncio eminente do racionamento de água, o quê, felizmente, não aconteceu.

O fenômeno climático El Niño, um aquecimento anormal das águas do Oceano Pacífico que provoca distorções no clima de todo o mundo, foi até pouco tempo atrás apontado como o vilão das secas em várias regiões do Brasil; esse ano não teremos mais esse problema pois as águas do Pacífico estão com os níveis de temperatura na faixa considerada normal.

Vilões “chicanos” não podem ser apontados como os únicos responsáveis pelas grandes alterações no ciclo da água em nosso país e que tantos problemas estão provocando na vida de milhões de pessoas. Sem muito tecnicismo, vamos relembrar rapidamente alguns eventos que assistimos nos últimos 50 anos:

Em 1970 éramos “noventa milhões em ação” – quem é um pouco mais velho vai se lembrar bem desse jingle da Copa do Mundo de Futebol daquele ano – hoje somos 205 milhões de brasileiros, ou seja, nossa população mais que dobrou de tamanho;

56% da população brasileira morava em áreas rurais em 1970 – hoje, 84% dos brasileiros vivem em cidades, que simplesmente “incharam” nesses poucos anos;

A produção brasileira de grãos em 1970 foi de 27,3 milhões de toneladas – a previsão para 2016 é uma produção de 210 milhões de toneladas; é importante lembrar que 70% do consumo de água no Brasil está ligado aos usos na agricultura e na pecuária;

Esse fabuloso crescimento da produção agrícola aconteceu em grande parte pela transformação do Cerrado brasileiro em campos agricultáveis – o bioma perdeu 80% de sua área original.

Sem citar maiores dados e sem exigir que qualquer um de vocês seja um gênio em cálculo, fica fácil perceber que houve uma explosão no consumo de água nos últimos anos, tanto nas atividades ditas rurais quanto nas necessidades das área urbanas; como os volumes de água não aumentam desde que o planeta Terra se formou, temos a nítida percepção que está mesmo é faltando água para tanta gente e para tantos usos.

O marco zero do movimento ambientalista mundial é considerado o lançamento do livro Primavera Silenciosa (Silent Spring) pela bióloga marinha Rachel Carson em 1962 – vale uma pena dar uma olhada. Passado mais de meio século e tantas outras primaveras, as coisas só fizeram por piorar na área ambiental, particularmente na área dos recursos hídricos.

Que essa nova Primavera traga alguma esperança de mudança para o nosso Planeta Água…

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