INTERFERÊNCIAS, OU OS MISTÉRIOS DO SUBSOLO

Arqueologia

No meu último post falei sobre a necessidade de se conhecer detalhadamente as características da bacia e sub-bacias hidrográficas de um bairro ou de uma cidade como pré condição para o desenvolvimento de um projeto de uma Rede Coletora de Esgotos. Porém existe um enorme problema – por melhor que sejam esses estudos, o subsolo de qualquer cidade é uma verdadeira caixa preta: só se saberá o que existe no subsolo com os trabalhos de escavação das valas, num verdadeiro trabalho de arqueologia urbana.

Quanto mais antiga é uma cidade, maiores as possibilidades de se encontrar surpresas no subsolo. Anos atrás em Roma, conversei rapidamente com uma equipe de operários que estava tentando há dois meses substituir um trecho de uma tubulação de abastecimento de água nas proximidades do Coliseu, um dos mais famosos monumentos da antiguidade. Um desconsolado encarregado afirmou que a cada 10 metros de escavação encontravam vestígios arqueológicos e eram obrigados a paralisar os trabalhos e chamar a Soprintendenza Speciali per i Beni Archeologici di Roma, o departamento responsável pelo estudo e preservação dos bens culturais de Roma, uma cidade com mais de 2.750 anos de história. No Brasil, qualquer achado arqueológico é considerado patrimônio da União e qualquer obra de escavação que encontre algum vestígio histórico deve ser imediatamente paralisada e os órgãos municipais, estaduais ou federal devem ser informados imediatamente – dependendo da importância do achado, o traçado da obra poderá, inclusive, ter de ser modificado.

Outras fontes potenciais de interferências em obras subterrâneas são: veios rochosos; trilhos enterrados (na cidade de São Paulo, por exemplo, existem dezenas de quilômetros de trilhos de bonde cobertos por asfalto); redes de águas pluviais; redes de gás, telefonia, eletricidade e TV a cabo; fossas (apesar de proibido, é comum se encontrar fossas escavadas sob as calçadas e ruas); gasodutos e oleodutos; esqueletos e restos mortais humanos (aqui será importante determinar se são elementos históricos/arqueológicos antigos ou simplesmente um caso policial); dependendo da região em que se trabalha, poderão ser encontrados fósseis de animais pré históricos, entre outros tipos de achados. Em países e regiões que passaram por guerras, existe um tipo específico de interferência, que felizmente não encontramos aqui no Brasil: bombas e minas terrestres não detonadas, que vão exigir o trabalho especializado de equipes anti bombas das forças militares locais; recentemente, em Londres, Inglaterra, uma grande bomba não detonada da II Guerra Mundial foi encontrada em um canteiro de obras de ampliação da rede do Metrô daquela cidade.

Instalações mais modernas como dutos de água, gás, telefonia e eletricidade devem ser informadas às respectivas Prefeituras para documentação e futura consulta nos processos de autorização de obras (as construtoras precisam solicitar autorização das Prefeituras para realizar qualquer tipo de obra linear em logradouros públicos); mesmo assim podem acontecer erros nestas documentações – um amigo estava realizando uma obra de manutenção na Praça do Três Poderes, em Brasília e, acidentalmente, uma das suas retroescavadeiras partiu um cabo telefônico subterrâneo e deixou o Palácio do Planalto sem telefone por várias horas: a planta fornecida pelo Governo Distrital estava errada e esse amigo teve muito trabalho para convencer a Polícia Federal disso.

Interferências subterrâneas em obras de Redes de Esgotos são frequentes e podem provocar atrasos significativos e custos extras. Conforme discutimos no meu último post, essas Redes precisam apresentar uma declividade adequada ao fluxo dos esgotos por gravidade – qualquer obstáculo encontrado vai exigir modificações na profundidade e nos trajetos das tubulações; algumas vezes, traçados inteiros terão de ser refeitos, com alterações complexas nos projetos – se o administrador público responsável pelo contrato não tiver firmeza no comando, a obra dificilmente será concluída.

Continuaremos no próximo post.

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