
O pardal (Passer domesticus) é uma das aves mais disseminadas e comuns do mundo. De acordo com estudos científicos, a família Passeridae, que inclui diversas espécies de pardais, é originária do Leste da África e dali se disseminou por todo o Norte da África, Eurásia e Oriente Médio. As aves foram introduzidas propositalmente em outras regiões do mundo como as Américas e a Austrália.
A história dos pardais aqui no Brasil é bastante curiosa. As aves foram introduzidas na cidade do Rio de Janeiro no início do século XX para combater uma grande infestação de mosquitos Aedes aegypti. Naquele momento, a antiga Capital Federal do Brasil enfrentava uma série de doenças como febre amarela, que é transmitida pelo mosquito Aedes, além de varíola, peste bubônica, malária, tifo e tuberculose. O responsável pela importação e soltura dos pardais na cidade foi o então Prefeito Pereira Passos.
Francisco Franco Pereira Passos (1836-1913), prefeito indicado da cidade do Rio de Janeiro entre 1902 e 1906, iniciou uma série de obras que tinham como objetivo a modernização da cidade. Inspirado nas reformas urbanas da cidade de Paris décadas antes, Pereira Passos desapropriou grandes áreas para a construção de largas avenidas e praças, iniciou a modernização da área do porto da cidade e a construção do Teatro Municipal, do Museu Nacional de Belas Artes e da Biblioteca Nacional.
Consta que muitos cortiços foram demolidos e que os moradores se refugiaram nos morros, dando origem a algumas das mais famosas favelas cariocas. Parte importante do legado de Pereira Passos foram os trabalhos na área de saneamento básico e de higienização da cidade, cuja coordenação foi confiada ao médico sanitarista Oswaldo Cruz, empossado como diretor do Serviço de Saúde.
Muitas das ações de Oswaldo Cruz não foram muito bem recebidas pela população, levando ao episódio que ficou conhecido como a Revolta da Vacina de 1904. Os agentes de saúde entravam nas residências, muitas vezes a força, buscando focos de mosquitos e de ratos, o que não era totalmente compreendido pela população. Quando o governo tornou obrigatória a vacinação contra a varíola, a população tomou as ruas e entrou em confronto com as forças de segurança.
Uma das ações polemicas do período foi a importação de 200 pardais de Portugal em 1903. Alguns cientistas haviam afirmado ao Prefeito Pereira Passos que essas aves eram vorazes comedoras de insetos e que, uma vez introduzidas na cidade do Rio de Janeiro, atuariam como um agente biológico natural para o controle da população de mosquitos. As aves foram soltas no Campo de Santana, em cerimônia com pompa e muito protocolo.
O estratagema criado por Pereira Passos, é claro, não chegou nem perto dos resultados que eram esperados. Os pardais não conseguiram acabar com a infestação de mosquitos na cidade do Rio de Janeiro e ainda se transformaram em uma perigosa espécie invasora no país.
O pardal é uma ave robusta e rústica, acostumada a enfrentar os invernos rigorosos da Europa e da Ásia. Na competição natural contra os pássaros nativos, o pardal não encontrou competição à sua altura e acabou se espalhando com facilidade por todo o país. Cambacicas, corruíras, sanhaços, sabiás, bem-te-vis, tico-ticos e outras espécies de pássaros de menor porte da Mata Atlântica foram facilmente derrotados.
Com o passar dos anos, as aves começaram a migrar para outros biomas, inclusive para a Região Amazônica e países vizinhos, ocupando nichos ecológicos de outras espécies de aves. Pouco a pouco, os pardais passaram a fazer parte da paisagem de cidades por todo o Brasil. É impossível calcular o tamanho do estrago causado ao meio natural pela introdução dos pardais em nossas terras.
O mundo deu muitas voltas e, de alguns anos para cá, os pardais passaram a experimentar do seu próprio veneno – inúmeras espécies de aves que antes ocupavam espaços em áreas rurais do país passaram a migrar para as cidades, roubando os espaços conquistados pelos pardais ao longo de um século. E, muito pior, esse fenômeno está se repetindo em diversas regiões do mundo.
Um estudo do Instituto de Biodiversidade e Biologia Evolutiva de Valência, na Espanha, apontou algumas das causas para esse “súbito” desaparecimento dos pardais. Destacam-se: perda de locais para nidificação, má qualidade da alimentação, choque com vidraças, ruído e poluição e, especialmente, a redução das áreas verdes nas cidades. Dentro do campo especulativo, muita gente associa esse desaparecimento às mudanças climáticas.
Um outro estudo, do Imperial College de Londres, buscou entender o fenômeno da migração de outras espécies de aves desde áreas rurais para os centros urbanos. Segundo os pesquisadores, a produção agrícola mecanizada reduziu enormemente a perda de grãos, uma das principais fontes de alimento das aves; defensivos agrícolas, por sua vez, reduziram as populações de insetos, sua principal fonte de proteínas.
A chegada desses grandes contingentes de “imigrantes rurais” passou a pressionar e a ocupar os espaços que haviam sido conquistados pelos pardais. Cito um exemplo: aqui nas minhas vizinhanças, na Zona Sul da cidade de São Paulo, tenho visto com frequência cada vez maior outras espécies como maritacas, gaviões e sanhaços, citando só algumas aves, e cada vez menos pardais.
Pobres pardais: de ave invasora bem-sucedida a indigente expulso das cidades. Mais uma ascensão e queda de um “império” para os anais da história.
