FALANDO DA MARGEM EQUATORIAL 

No último dia 26 de março, a ONU – Organização das Nações Unidas, publicou uma resolução reconhecendo a ampliação do território da Plataforma Continental Brasileira na região conhecida como Margem Equatorial. 

Essa faixa da plataforma continental se estende desde a foz do Rio Oiapoque, no Amapá, até o litoral do Rio Grande do Norte, correspondendo a uma área total de 360 mil km², um território equivalente ao da Alemanha. Com essa resolução, o Brasil tem reconhecido o seu direito a soberania para explorar todos os recursos naturais da área – especialmente o petróleo.  

Estimativas preliminares indicam a existência de reservas da ordem de 30 bilhões de barris de petróleo e gás na Faixa Equatorial Brasileira, números que justificam os esforços das autoridades em obter o reconhecimento da região. Esse volume vem se somar às reservas já mapeadas do Brasil e que são estimadas em 14,8 bilhões de barris. 

Explicando da forma mais simplista possível, essa plataforma marítima foi formada ao longo dos últimos 160 milhões de anos a partir da deposição de sedimentos de diversas bacias hidrográficas ao longo da costa. Esse processo teve início com a fragmentação do supercontinente de Gondwana, momento em que a América do Sul iniciou a sua deriva continental rumo ao oeste. As diferentes camadas desses sedimentos possibilitaram a formação das reservas de petróleo e gás recém descobertas. 

A Margem Equatorial não fica limitada ao litoral brasileiro, e se estende ao largo da Guiana Francesa, Suriname e Guiana. Essa área marítima do Caribe passou a ocupar manchetes em todo o mundo a partir de 2015, ano em que as enormes descobertas petrolíferas da Guiana passaram a ser divulgadas. Até o momento, o país já confirmou reservas de petróleo calculadas em 11 bilhões de barris, volume equivalente a 75% das reservas conhecidas no Brasil. 

No trecho do Suriname, as descobertas datam de 2020, com um volume de reservas confirmadas da ordem de 4 bilhões de barris. Segundo estimativas de especialistas, as reservas totais do país podem chegar aos 13 bilhões de barris. A Guiana Francesa, provavelmente por questões de ideologia, ainda não iniciou as suas explorações. 

Para que todos tenham uma ideia da riqueza natural da Margem Equatorial, vamos fazer uma breve análise da economia da Guiana: o país teve um crescimento do seu PIB – Produto Interno Bruto, de 43,24% em 2024. Em renda per capita, a Guiana já é o país mais rico da América do Sul, com uma renda de mais de US$ 40 mil por habitante. A Guiana tem pouco mais de 800 mil habitantes. 

As repercussões econômicas no pequeno país são imensas – a Guiana quadruplicou o tamanho da sua economia em apenas 5 anos. Todo esse sucesso, é claro, não veio de graça – a vizinha Venezuela, de olho no “ouro negro” da Margem Equatorial, reacendeu uma centenária disputa pela posse da região do Essequibo, área que engloba o equivalente a 2/3 do território da Guiana. O clima anda muito tenso entre os dois países. 

Aqui no Brasil, desgraçadamente, a exploração das reservas de petróleo e gás da Margem Equatorial divide opiniões. Enquanto a Petrobras – Petróleo Brasileiro S.A., faz seus planos para estruturar a exploração, autoridades ambientais, especialmente do IBAMA – Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis, não querem nem ouvir falar na Margem Equatorial – principalmente na região da Foz do Rio Amazonas. 

O órgão alega um sem-número de riscos ambientais, que vão desde ameaças às tribos indígenas da faixa litorânea do Amapá e do Pará, a riscos aos chamados corais da Amazônia, formações que a maioria dos especialistas em vida marinha diz ser improvável de existir na região. 

Essa posição é derivada de uma postura fortemente idealista, onde a conservação da Floresta Amazônica deve impedir todo e qualquer tipo de exploração econômica do bioma, mesmo que isso se valha de práticas sustentáveis. Esse grupo defende cegamente a total eliminação da queima de combustíveis fósseis e luta pelo uso pleno de energias renováveis, sem que entre na equação um período adequado de transição e reordenamento das economias dos países. 

Combustíveis de origem fóssil, principalmente o carvão mineral e os derivados de petróleo, são altamente prejudiciais ao meio ambiente e estão no topo da lista dos vilões do aquecimento global. Em inúmeras postagens aqui do blog já tratamos disso, mostrando uma enorme série de consequências nocivas ao meio ambiente. 

Entretanto, temos consciência que uma transição brusca da matriz energética mundial não pode ser feita de uma hora para outra. Um exemplo – trocar todos os veículos com motores a combustão interna por veículos elétricos demandaria num crescimento exponencial da oferta e consumo de energia elétrica. Atualmente, mais de 60% da energia elétrica produzida no mundo vem de centrais termelétricas, principalmente de unidades movidas por carvão mineral. Não é necessário muito esforço para entender o tamanho do desastre ambiental de uma mudança brusca nessa área. 

Petróleo, ao contrário do que muitos pensam, não é usado apenas para a produção de gasolina, diesel e querosene, entre outros combustíveis. O mineral também é a fonte de matérias primas para toda uma gama de petroquímicos como plásticos, fibras sintéticas, borrachas, fertilizantes e produtos químicos diversos. Também precisamos incluir na lista o GLP – Gás Liquefeito de Petróleo, essencial nas cozinhas de milhões de brasileiros. 

Atualmente, cerca de 95% do total de petróleo produzido aqui no Brasil vem de campos de exploração off-Shore, ou seja, de plataforma instaladas sobre o leito oceânico, especialmente na região conhecida como Pré-sal. As receitas geradas por essa exploração geram importantes dividendos para vários Estados, com destaque para o Rio de Janeiro. 

A produção diária de petróleo e gás natural no Pré-sal atingiu a marca 3,681 milhões de barris em 2024, um volume equivalente a 81,2% da produção nacional.  De acordo com informações do IPEA – Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada, a indústria do petróleo e do gás corresponde a 11% do PIB brasileiro. 

Quando comparamos todos os impactos econômicos e sociais decorrentes da indústria do petróleo e do gás com acidentes na produção e no transporte dos produtos, observamos que os riscos reais ao meio ambiente são muito pequenos. Acidentes, é claro, vivem acontecendo, porém, as políticas e ações de prevenção e combate aos problemas costumam ser muito eficazes. 

Enquanto o impasse persiste por aqui, nossos vizinhos do norte – Guiana e Suriname, estão se aproveitando da riqueza gerada pela exploração petrolífera e usando o dinheiro para melhorar a infraestrutura e a vida dos seus cidadãos. 

Sendo irônico – viva a sustentabilidade! 

GROENLÂNDIA: A “TERRA VERDE” 

Quem acompanha os noticiários com alguma atenção deve ter reparado que a Groenlândia, grande ilha localizada a leste da costa do Canadá, vem sendo bastante comentada nos últimos quatro meses. De um lado, ouvem-se falas de Donald Trump, Presidente dos Estados Unidos da América, afirmando que vai anexar o território; de outro lado, dinamarqueses contra-atacando e reafirmando a sua soberania sobre a ilha. 

A Groenlândia possui um território com cerca de 2,1 milhões de km², sendo considerada a maior ilha do mundo. Para efeito de comparação, isso equivale a soma dos territórios dos estados do Amazonas e da Bahia. De uma forma geral, os mapas apresentam a ilha com um território imenso, maior inclusive que o Brasil. Essa é uma distorção provocada pela técnica usada na confecção desses mapas – a projeção de Mercator. Na realidade, a Groenlândia tem uma área equivalente à da Arábia Saudita.  

A ilha é um território autônomo do Reino da Dinamarca, país do qual depende financeiramente, e tem uma população de 57 mil habitantes. Cerca de 80% do território da Groenlândia é recoberto por um manto de gelo. O nome da ilha é de origem nórdica e foi dado pelos antigos navegadores vikings que lá aportaram por volta do ano 900 da nossa era. Em dinamarquês, o nome da ilha é Grønland, o que significa, literalmente, “terra verde”. 

Para nós que vivemos em um país tropical, é bem fácil imaginar o momento em que o vigia da expedição de Pedro Álvares Cabral, em 1500, avistou o litoral da Bahia coberto por uma densa mata verde. Esse vigia poderia até ter gritado – “terra verde à vista!” 

No caso da Groenlândia, tendemos a achar que um grito desses não teria sido possível à época do seu descobrimento. Todas as imagens que nos veem à cabeça quando pensamos nesse país estão repletas de esquimós, iglus, montanhas cobertas de gelo e mares coalhados de icebergs. 

Por mais incrível que possa parecer, os primeiros nórdicos que avistaram o litoral da Groenlândia viram mesmo uma terra coberta de vegetação verde e, nada mais natural que batizar o lugar como “terra verde”. 

De acordo com o Landnámabók, um livro medieval que narra as sagas dos vikings escandinavos, a Groenlândia teria sido avistada pela primeira vez pelo navegador Gunnbjörn Ulfsson no início do século X. No ano 978 de nossa era, Snæbjörn galti Hólmsteinsson partiu da Islândia com um pequeno grupo de colonizadores e se estabeleceu em Gunnbjarnar Skerries, um pequeno grupo de ilhas localizadas na costa groenlandesa. 

Até o início do século XV, a Groenlândia manteve uma população nórdica pequena, porém estável, com números variando entre 2 mil e 10 mil habitantes, conforme a fonte. Estudos arqueológicos encontraram evidências de cerca de 620 fazendas na região sudoeste da ilha datadas do periodo. É importante citar que os nórdicos também criaram um assentamento em L’Anse aux Meadows, localizado na ilha de Terra Nova, no extremo nordeste do Canadá. Esse assentamento teve início por volta do ano 1021 e durou poucos anos.

Então, de uma hora para outra, todos os escandinavos abandonaram a Groenlândia, que voltou a ser povoada exclusivamente pelos inuit, os indígenas originais da ilha. Existem diversas explicações para essa fuga dos escandinavos da ilha, indo desde guerras com os inuits até a ocorrência de epidemias. A explicação mais plausível, entretanto, foi uma intensa mudança climática na ilha, o que derrubou drasticamente as temperaturas e tornou o lugar inóspito para nórdicos acostumados com a vida sob frio intenso. 

Os climatologistas chamam esse fenômeno de Pequena Era Glacial ou Pequena Idade do Gelo. O evento ocorreu entre os séculos XIII e XVII – muitos autores afirmam que o período teve início no século XVI e se estendeu até o início do século XIX. Existem inúmeros relatos dramáticos das consequências do frio intenso nesse período. 

Islândia e Finlândia, países localizados dentro da mesma faixa de latitudes da Groenlândia, perderam, respectivamente, um terço e metade de suas populações. O rio Tâmisa, cartão postal de Londres, congelou totalmente diversas vezes no periodo. O mesmo fenômeno passou a ocorrer nos rios da cidade de Nova York – alguns cronistas afirmam que era possível ir da ilha de Manhatan até Staten Island caminhando sobre a crosta de gelo. 

O periodo também foi marcado por uma forte redução na oferta de alimentos – solos congelados são difíceis de arar e, quando o plantio das sementes era feito, as baixas temperaturas não permitiam o desenvolvimento adequado das plantas. A falta de pastos também afetava fortemente a criação de animais domésticos. Foi uma fase bastante complicada para as populações de diversas regiões do mundo. 

Em nossos dias, tempos de mudanças climáticas e aumento das temperaturas em diversas regiões de nosso planeta, a Groenlândia está passando por fortes transformações e, literalmente, está voltando aos tempos em que foi batizada de “terra verde” pelos navegadores nórdicos. 

Estudo realizado pelo pesquisador Michael Grimes e colaboradores, publicado na prestigiada revista científica Nature no início de 2024, mostra que as áreas cobertas por vegetação na Groenlândia dobraram e as áreas úmidas, especialmente os pântanos, quadruplicaram nos últimos 30 anos. A imagem que ilustra esta postagem mostra uma ”inusitada” paisagem groenlandesa de verão dos dias atuais. 

Esse “esverdeamento” está ocorrendo em áreas da ilha próximas ao litoral, onde a tradicional camada de gelo desapareceu – foram cerca de 30 mil km² de perdas na calota de gelo, uma área um pouco maior que a do nosso Estado de Alagoas. O estudo também mostrou que o número médio anual de dias com temperaturas acima dos 6º C aumentou muito, o que favorece o crescimento da vegetação. 

Apesar dessas mudanças no clima e na vegetação favorecerem de alguma forma as populações locais, que poderão passar a produzir localmente toda uma variedade de alimentos que hoje precisam ser importados, as notícias não são boas para o restante do planeta. 

Os grandes volumes de água doce resultante do derretimento da capa de gelo corre na direção do oceano e já está provocando problemas visíveis, especialmente no aumento do nível do mar. Segundo um estudo de pesquisadores da Universidade de Washington e que foi publicado em 2018, a AMOC – Circulação Meridional do Atlântico, na sigla em inglês, que é mais conhecida como a Corrente do Golfo do México, está desacelerando, o que é o ponto mais importante.  

Essa corrente de águas quentes se forma no Mar do Caribe e segue na direção das Ilhas Britânicas, seguindo depois nas direções da Islândia, da Escandinávia e do Polo Norte. A largura dessa corrente é de aproximadamente 90 km e sua velocidade é de 2 metros/segundo, o que resulta na movimentação de 20 milhões de m³ de água por segundo.   

Segundo os especialistas, somente para citar um exemplo da importância dessas águas, é essa corrente marítima que torna o clima mais ameno na Irlanda e na Grã-bretanha. Sem as águas quentes da Corrente do Golfo, a vida de irlandeses, ingleses, escoceses e galeses seria muito mais difícil devido ao clima inóspito.  

Sempre costumo lembrar do filme “O dia depois de amanhã”, lançado em 2004, para frisar a importância da AMOC. No enredo, a Corrente do Golfo deixa de fluir para o Norte, o que causa o início catastrófico de uma nova Era do Gelo ou período glacial no Hemisfério Norte. Uma das razões para a paralização da corrente marítima no filme foi justamente o degelo acelerado na Groenlândia. 

Os “campos verdes” da Groenlândia parecem estar enchendo os olhos de norte-americanos e tirando o sono dos dinamarqueses. Para o resto do mundo, entretanto, a coisa está para um alerta “vermelho” de perigo… 

Uma última informação – o mesmo processo de “esverdeamento” está em pleno desenvolvimento em algumas regiões da Antártida. Grandes problemas ambientais a vista!

O CENTENÁRIO DA REPRESA BILLINGS – A USINA HIDRELÉTRICA HENRY BORDEN

A construção da Represa Billings, cujo início das obras acaba de completar 100 anos, foi um feito da engenharia mundial da época. A represa foi concebida e construída com o objetivo de alimentar uma usina hidrelétrica em Cubatão, se valendo do grande desnível entre o alto da Serra do Mar e a Região da Baixada Santista, o que potencializaria a força da água que chegava aos geradores. 

Para entender melhor o somatório de fatores que levou a empresa canadense São Paulo Tramway, Light and Power, concessionária dos serviços de geração e distribuição de energia elétrica na região, a iniciar essa saga, é preciso entender o contexto histórico paulistano no início do século XX. 

Graças ao enorme fluxo de capitais gerados na então Província de São Paulo pela produção e exportação de café a partir de meados do século XIX, a cidade de São Paulo passou a crescer exponencialmente. De uma pequena vila perdida nos confins do Planalto de Piratininga com menos de 30 mil habitantes em 1850, São Paulo foi transformada num importante entreposto comercial, industrial e financeiro, atingindo a marca de 240 mil habitantes em 1900. 

Entre outras demandas, a crescente metrópole passou a ficar cada vez mais sedenta por eletricidade, a nova forma de energia que movia os grandes centros industriais mundiais naqueles dias. Diversos projetos de pequenas centrais hidrelétricas e termelétricas se multiplicavam em toda a região do entorno, sem conseguir saciar a sede energética da cidade. 

Foi nesse contexto que surgiu a ideia para a construção da Usina de Parnahyba, o primeiro projeto da Light para o abastecimento da cidade de São Paulo e Região em 1899. Essa usina seria construída em Santana de Paranaíba, cidade localizada a cerca de 50 km de São Paulo, se aproveitando das águas do rio Tietê. Aliás, essa se tornaria a primeira hidrelétrica com barragem do Brasil. 

Na sua inauguração em 1901, Parnahyba produzia 2 MW de energia elétrica – pouco mais de 10 anos depois, essa potência já tinha sido aumentada para 12,8 MW, atendendo a uma demanda cada vez maior da população e das indústrias por energia elétrica. Gradativamente, a Light passou a construir novas pequenas usinas hidrelétricas, aumentando a sua capacidade de geração de energia.  

A importante e impactante Usina Hidrelétrica de Parnahyba, entretanto, sofria de um problema crônico – a irregularidade dos caudais do rio Tietê, cujas águas abundavam nos meses de chuvas e escasseavam dramaticamente nos meses de inverno. A produção de energia elétrica, consequentemente, era altamente irregular. 

Para regularizar as vazões do rio Tietê e garantir a operação contínua da Usina de Parnahyba nos meses de seca, foi necessária a construção de uma grande represa na região de Santo Amaro. Essa represa, concluída em 1908 e que depois passou a ser chamada de Guarapiranga, foi transformada em uma importante área de lazer dos paulistanos e levaria a uma expansão da mancha urbana da cidade rumo ao Sul, na direção da represa. 

Apesar de todos esses avanços, a demanda por energia elétrica na região não parava de crescer e, na década de 1920, os engenheiros da Light desenvolveram o projeto de uma usina hidrelétrica revolucionária para os padrões da época. O projeto desse sistema considerou o aproveitamento do enorme desnível da Serra do Mar entre a região da Baixada Santista e o Planalto de Piratininga – são mais de 720 metros.  

As águas de uma grande represa localizada no alto da Serra do Mar, a futura Represa Billings, seriam canalizadas através de um sistema de tubulações para a uma usina hidrelétrica em Cubatão, município no litoral de São Paulo, aonde chegariam com uma enorme energia, movendo as turbinas dos grupos geradores.   

A Usina Hidrelétrica de Cubatão, que depois teve seu nome mudado para Usina Hidrelétrica Henry Borden, teve seu primeiro grupo gerador inaugurado em 1926. A capacidade geradora da Usina foi sendo ampliada gradativamente até 1950, quando o 14° grupo gerador entrou em funcionamento, atingindo uma capacidade total instalada de 889 MW. Os grupos geradores da Usina Henry Borden utilizam turbinas Pelton, altamente eficientes no aproveitamento dos fortíssimos jatos de água que desciam do alto da Serra do Mar.  

O fantástico complexo formado pela Represa Billings e pela Usina Henry Borden foi fundamental para o desenvolvimento da Região Metropolitana de São Paulo. Um exemplo – a farta disponibilidade de energia elétrica na região foi um dos critérios usados na escolha da Região do ABC Paulista (sigla para os municípios de Santo André, São Bernardo e São Caetano) como sede das primeiras indústrias automobilísticas do Brasil na década de 1950.  

Infelizmente, o grande crescimento populacional da Região Metropolitana de São Paulo acabou decretando o “fim” da geração no complexo Billings – toda a poluição das águas do rio Tietê acabava sendo transferida para a represa Billings através do sistema de bombeamento do rio Pinheiros. A Constituição Paulista de 1992 proibiu essa transferência de águas, exceto em emergências nos casos de chuva forte. Desde então, a geração na Usina Hidrelétrica Henry Borden foi reduzida em 75% e a produção atual está na casa de 200 MW.  

Apesar de não receber mais águas do poluído rio Tietê, a centenária Represa Billings continua sofrendo com a poluição – perto de 1 milhão de pessoas vivem nas áreas de mananciais ao redor do reservatório e a maior parte dos seus esgotos acabam sendo lançados nas águas da Represa. Ironicamente, mais de 1,5 milhão de pessoas dependem das águas da Represa Billings para o seu abastecimento diário – uma barragem foi construída em um dos braços da Represa, evitando assim o contato com as águas poluídas do resto do reservatório. 

Os problemas ambientais atuais da Represa Billings mancham, literalmente, a festa de aniversário do centenário do início das obras e da saga do complexo energético. Mesmo assim, há muito o que comemorar – a Região Metropolitana de São Paulo talvez nem existisse hoje caso o Complexo Energético não tivesse sido construído. 

O CENTENÁRIO DA REPRESA BILLINGS 

No último dia 27 de março, a Represa Billings, maior reservatório de águas da Região Metropolitana de São Paulo, completou o primeiro centenário do início de suas obras. 

Normalmente lembrada por notícias que tratam da poluição de suas águas e/ou por ocupação desordenada de suas margens por um mar de casas precárias, o Complexo Billings, que engloba a represa e a Usina Hidrelétrica Henry Borden de Cubatão, forneceu a maior parte da energia elétrica que impulsionou a industrialização da Região Metropolitana de São Paulo no século XX. 

Vamos relembrar um pouco dessa história: 

O rápido crescimento da cidade de São Paulo a partir das últimas décadas do século XIX trouxe uma série de mudanças na paisagem urbana, especialmente no que diz respeito às suas fontes de água – riachos e rios passaram a ser canalizados em série para a liberação de espaços para a construção civil; as águas passaram a receber volumes cada vez maiores de esgotos domésticos e industriais e o início da retificação de grandes rios amplificou um antigo problema do Planalto de Piratininga: as cheias dos rios nos períodos das chuvas estavam cada vez maiores. A alta sociedade paulistana, confortavelmente instalada nos terrenos altos da Avenida Paulista e arredores, parecia não se incomodar muito com este problema. 

Uma história que ouvi quando criança ilustra muito bem a questão: nos anos da Primeira Guerra Mundial (1914-1918), as mulheres da alta sociedade paulistana se reuniam nas tardes frias da cidade para tomar chá com biscoitos finos ingleses, enquanto tricotavam luvas, cachecóis e pulôveres de lã, que seriam enviados “aos pobres soldados franceses entrincheirados nos solos úmidos e frios dos campos de batalha da Europa”.  

A poucos quilômetros da região do Jardim Paulista e dos Campos Elíseos, redutos das elites econômicas da cidade na época, muitos pobres paulistanos sofriam com as consequências das últimas enchentes e tremiam de frio por falta de agasalhos. Apesar desta alienação da classe mais rica da cidade, o problema das enchentes se tornava cada vez mais preocupante e a população pobre pressionava cada vez mais as autoridades pela busca de soluções.  

Uma solução técnica inesperada e bastante elegante para a minimização das enchentes anuais da cidade de São Paulo foi proposta pela empresa São Paulo Tramway, Light and Power Company como parte do projeto do novo sistema de geração de energia elétrica Billings / Usina Hidrelétrica de Cubatão: as águas excedentes dos períodos de chuva na região Metropolitana de São Paulo passariam a ser bombeadas para a Represa Billings, desde o canal do rio Tietê, através de duas usinas de traição ou de bombeamento por reversão do curso do rio Pinheiros.  

Essas águas problemáticas, causadoras de enchentes e transtornos na cidade de São Paulo, reforçariam os estoques da represa Billings e garantiriam a geração contínua de energia elétrica na Usina de Cubatão. A ideia, por mais absurda que podia parecer à primeira vista, até que funcionava (e funciona até hoje, sendo usado apenas em emergências), apesar de nunca ter conseguido resolver completamente o problema das enchentes. 

Com a assinatura do decreto presidencial que autorizou a construção do Complexo Billings/Cubatão, o conjunto de obras de construção da represa no alto da Serra do Mar, do sistema de tubulações de descida da água, da Usina Hidrelétrica de Cubatão (cujo nome foi alterado depois para Usina Henry Borden) e do sistema de transposição das águas do rio Tietê para a represa Billings foram iniciadas em 1925. 

A represa Billings seria formada a partir do represamento dos rios Grande, Pequeno, Capivari, Pedra Branca, Taquacetuba, Alvarengas, Bororé, Cocaia e outros rios menores, perfazendo cerca de 560 km² de área de drenagem, com uma vazão somada total de 16,5 m³/s. O espelho d’água da Represa ocuparia uma área inundada de aproximadamente 172 km² e teria capacidade para armazenar 1,2 bilhões de metros cúbicos de água. Mesmo atualmente, quando se segue pelas Rodovias Anchieta e Imigrantes ou pelo Trecho Sul do Rodoanel, a visão do grande reservatório ainda é impressionante. 

O rio Pinheiros, que hoje não passa de um canal retilíneo e largo, com águas quase paradas e extremamente poluídas, era até a década de 1920 um rio pequeno e extremamente sinuoso, que recebia as águas sangradas pela represa de Guarapiranga e as conduzia até a sua foz no rio Tietê. Para atender as especificações técnicas do projeto de transposição, o rio Pinheiros passou por um intenso trabalho de escavação e retificação do seu curso. Anos atrás eu visitei uma exposição fotográfica que contava a história do bairro de Santo Amaro e lembro de ter visto diversas fotografias destas obras – homens escavando o novo canal com pás e picaretas e outros carregando os entulhos em carroças puxadas por burros: cenas impressionantes da determinação e força de vontade das antigas gerações da nossa cidade. A represa foi concluída em 1926 e o Complexo Billings em 1937. O sistema de transposição das águas do rio Tietê para a represa Billings só passou a operar integralmente a partir de 1950. 

Além de preparar o rio Pinheiros para a futura função de transposição das águas para a represa Billings, estas obras transformariam antigas várzeas alagáveis em “terras secas”. Um dos exemplos é uma região do bairro de Pinheiros que anos depois foi loteada pela Companhia City, uma subsidiária da empresa canadense São Paulo Tramway, Light and Power especializada no desenvolvimento imobiliário e, por acaso, a mesma empresa responsável pela construção do Complexo Billings. A região foi transformada no elegante e sofisticado bairro do Alto de Pinheiros, ainda hoje uma referência em alto padrão imobiliário na cidade de São Paulo. Além do planejamento impecável, com ruas elegantes, praças e todo equipamento urbano necessário, o bairro receberia as linhas de bonde operadas pela empresa Light, um diferencial em tanto numa cidade que sempre teve, e continua tendo, problemas de transporte. Como dizia a minha mãe: “esses estrangeiros sabiam como ganhar muito dinheiro! ” 

Apesar de esquecida e muito maltratada, a Represa Billings marcou e mudou os rumos de toda a Região Metropolitana de São Paulo, quiçá do Brasil. Parabéns Billings!

Falaremos mais sobre essa história.