UM PROJETO HIDROVIÁRIO PARA A CIDADE DE SÃO PAULO, OU DE VOLTA PARA O PASSADO 

Desde o mês de maio de 2024, está em operação o Aquático-SP, um serviço de transporte hidroviário público através das águas da Represa Billings. O serviço utiliza embarcações com capacidade entre 30 e 60 lugares, fazendo a ligação entre o Cantinho do Céu, um bairro afastado no extremo Sul da cidade de São Paulo, e o Parque Mar Paulista, na região do bairro da Pedreira. 

O trajeto tem cerca de 5,6 km de extensão e pode ser feito em 15 minutos. Isso pode até parecer pouca coisa para a maioria dos leitores, mas, para os moradores da região, isso significa uma redução do tempo de trajeto em mais de uma hora quando comparado ao roteiro feito por ônibus. 

A Represa Billings que, conforme comentamos em postagem recente, comemorou o primeiro centenário há poucas semanas, é o maior reservatório da Região Metropolitana de São Paulo. Suas margens se estendem por áreas dos municípios de São Paulo, Santo André, São Bernardo do Campo, Diadema, Ribeirão Pires e Rio Grande da Serra, com um espelho d’água com cerca de 100 km². 

O serviço está com um ótimo nível de aprovação pelos usuários e representa apenas a ponta do iceberg de todo um pacote de serviços e soluções de transporte hidroviário já em gestação e que deverão ser implementados na cidade de São Paulo ao longo das próximas décadas. 

A Região Metropolitana de São Paulo é cortada por diversos rios e córregos de bom tamanho, com grande potencial para uso como hidrovia. O maior desses corpos d’água é o Rio Tietê, maior rio do Estado, que dentro da Região Metropolitana conta com cerca de 125 km de extensão. 

Também se destacam os rios Pinheiros, com 25 km de extensão, e Tamanduateí, este com 35 km. Também podemos incluir na conta córregos volumosos como o Aricanduva, com 20 km de extensão, e a Represa Guarapiranga, localizada na Zona Sul da cidade de São Paulo, que tem um espelho d’água com aproximadamente 25 km². 

Após a realização de todo um conjunto de obras como barragens, eclusas, aprofundamento e alargamento de canais, reconfiguração de pontes já existentes e construção de docas para carga e descarga, todo esse conjunto de vias fluviais poderá ser usado tanto para o transporte de passageiros, quanto para o transporte de cargas. 

Sistemas semelhantes estão em operação em diversas cidades do mundo. Um dos exemplos mais conhecidos são os canais dos Países Baixos, que estão em operação desde a antiguidade. Também podemos citar o rio Sena e os canais da cidade de Paris, e o rio Tâmisa em Londres. 

Ao contrário da grande inovação que esse futuro sistema de transportes hidroviários poderá representar para toda a cidade e Região Metropolitana, a cidade de São Paulo nasceu e se desenvolveu utilizando o transporte fluvial através de toda uma rede de rios e córregos por todo o Planalto de Piratininga. 

Quando os primeiros padres Jesuítas, entre eles Manuel da Nobrega e José de Anchieta, chegaram ao Planalto de Piratininga na década de 1550, encontraram diversas aldeias indígenas espalhadas. Esses indígenas utilizam canoas de diversos tamanhos para o transporte de pessoas e de mercadorias. Após a fundação da cidade de São Paulo em 1554, esse sistema de transporte foi mantido e sobreviveu até o início do século XX. 

Um exemplo notável desse modal de transporte paulistano é a região da rua 25 de Março, bem no coração da cidade e que abriga o maior centro comercial a céu aberto do Brasil. Até o final do século XIX, um braço do rio Tamanduateí existia no local e abrigava um movimentado porto fluvial, bem ao lado do mercado central. Com o crescimento da cidade, essa região foi aterrada e urbanizada – uma das únicas lembranças daqueles tempos está no nome de uma rua – Ladeira Porto Geral. 

De acordo com registros históricos, o Planalto de Piratininga, a região onde encontramos grande parte das cidades da Região Metropolitana de São Paulo, era cortado por cerca de 300 rios e córregos de bom tamanho. Algumas fontes afirmam que esse número se situava na casa de 1.200 corpos de água. Durante séculos, toda essa rede hidroviária foi usada para o transporte de pessoas e mercadorias, definindo os contornos atuais da área metropolitana. 

Um exemplo que sempre cito é o do meu bairro – Santo Amaro, localizado a pouco mais de 15 km do centro de São Paulo. Até a década de 1930, Santo Amaro foi um município independente, especializado na produção de produtos hortifrutigranjeiros, lenha, carvão e produtos cerâmicos. Esses produtos eram transportados até o mercado central por toda uma rede de rios como o Guarapiranga, Jurubatuba, Pinheiros e Tietê. 

Com o advento da cafeicultura na Província de São Paulo a partir dos anos de 1850, a cidade de São Paulo passou a crescer de forma exponencial. A partir da década de 1860, trechos de rios, córregos e áreas de várzea passaram a ser canalizados e/ou aterrados, criando terrenos para a expansão da mancha urbana da cidade. 

Ao longo de todo o século XX, devido ao aumento massivo de automóveis, caminhões e ônibus nas ruas da cidade, rios passaram ter seus cursos retificados para a construção de grandes avenidas como as Marginais Tietê e Pinheiros. Também surgiram as avenidas de fundo de vale como Aricanduva, do Estado, Salim Farah Maluf, Pacaembu e Bandeirantes, entre muitas outras. Centenas de riachos e córregos desapareceram sob camadas de concreto e asfalto.

A futura revitalização do modal de transporte hidroviário poderá mudar a cara da cidade de São Paulo e vizinhanças para melhor. Uma das premissas do projeto é a despoluição dos rios e córregos, e, de quebra, solucionar os problemas históricos das enchentes. Serão menos carros, ônibus, caminhões e enchentes, e mais lanchas, barcos e barcaças 

Será uma bem-vinda volta para o passado! 

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