NIGÉRIA DECLARA SITUAÇÃO DE EMERGÊNCIA POR CONTA DA GRAVE ESCASSEZ DE ALIMENTOS

Na última sexta-feira, dia 14 de julho, o Presidente da Nigéria – Bola Tinubu, decretou situação de emergência no país por conta da escassez e do aumento generalizado nos preços dos alimentos. 

A região mais afetada é o Nordeste do país, especialmente os estados de Borno, Adamawa e Yobe, que ficam dentro da região do Sahel, uma extensa faixa de terrenos semiáridos de transição entre o Deserto do Saara e as savanas da África Central. A crise afeta diretamente mais de 4,3 milhões de pessoas. 

Populações africanas sofrendo de falta de alimentos e fome não são nenhuma novidade dentro de um continente cheio de conflitos étnicos e problemas climáticos. O que chama a atenção nesse caso é que a Nigéria é simplesmente a maior economia da África e o segundo maior produtor de petróleo do continente. 

A crise nigeriana é o triste resultado da combinação de problemas climáticos resultantes da falta de chuvas nna faixa Norte do país, combinado com conflitos religiosos e mudanças na política de subsídios dos combustíveis. 

A Nigéria é o país mais populoso da África com uma população de cerca de 190 milhões de habitantes. O país é habitado por mais de 250 grupos étnicos, divididos em dois grandes blocos religiosos – muçulmanos ao Norte e cristãos ao Sul, além de diversas minorias praticantes de religiões tradicionais africanas como jgbo (ou Ibo) e iorubá.  

Esses diferentes grupos religiosos vivem em um estado de tensão permanente, o que é agravado pela extrema pobreza em que vive a grande maioria dos nigerianos. Na faixa Norte do país esse conflito é potencializado pela presença do grupo radical islâmico Boko Haram. Esse grupo defende o fundamentalismo religioso e o combate à influência ocidental com a implantação radical da lei islâmica, a sharia

Além da atuação do Boko Haram, as populações da faixa Norte da Nigéria sofrem com a escassez de chuvas e com sucessivas perdas na produção agrícola de subsistência. Até poucas décadas atrás, a faixa do Sahel era coberta por uma vegetação de estepe seca, o que ajudava a conter o avanço das areias do Deserto do Saara. 

Após décadas seguidas de desmatamentos, essa “barreira” de proteção deixou de existir, passando a permitir o avanço contínuo das areias do Saara rumo ao Sul. Conforme já tratamos em postagens anteriores, diversos Governos africanos se uniram para criar a Barreira ou Muralha Verde do Sahel, um enorme programa de reflorestamento que já consumiu mais de US$ 8 bilhões. 

Entre as espécies de árvores que estão sendo plantadas destacam-se a acácia, o mogno, o nim e o baobá, todas adaptadas aos solos e ao clima do Sahel. O grande destaque dessa lista é o baobá, uma árvore que possui um tronco grosso e bulboso, que tem uma grande capacidade para armazenar água. O projeto prevê o reflorestamento de uma faixa de 8 mil km de terrenos semiáridos no sentido Leste-Oeste. 

Apesar das boas intenções, o projeto da Muralha Verde está longe de ser concluído. Além da falta de coordenação entre os diferentes países, existem inúmeros problemas ligados à corrupção de autoridades públicas e desvios de verbas, problemas que desgraçadamente, são bem comuns na\ África. 

Como se todo esse pacote de problemas já não fosse o suficiente, o Governo do país retirou uma série de subsídios dos combustíveis, o que resultou em aumentos de preços para os consumidores do país de até 200%.  

Essa verdadeira “cassetada” tarifária, entre outros problemas, está criando dificuldades generalizadas para a produção de alimentos e produtos. Grande parte da geração de energia elétrica na Nigéria depende de geradores alimentados com derivado de petróleo como diesel e gasolina. Com esse aumento brutal de custos, essa produção precisou ser reduzida, afetando toda a economia do país. 

Como sempre acontece nessas situações, a corda arrebentou no lado mais fraco – a imensa massa de pobres do país, que passaram a depender de ajuda internacional e de ajuda governamental. 

Não custa lembrar que os problemas criados pelo aquecimento global poderão impactar na produção de alimentos em todo o mundo, criando situações pareciadas com a que está assolando a Nigéria. 

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