O LONGO CAMINHO SEGUIDO PELAS ÁGUAS DO RIO AMAZONAS

Nascente do Amazonas

Na postagem anterior tentamos mostrar, em números, a grandiosidade do rio Amazonas. Com aproximadamente 7 mil km de extensão, o Amazonas disputa com o Nilo o título de rio mais extenso do mundo. Isso ocorre porque ainda persistem dúvidas quanto à localização do ponto exato das nascentes de ambos os rios. Quando se fala em volume de água, porém, o rio Amazonas é, com muita folga, o maior do mundo. 

Determinar com absoluta precisão o local exato da nascente de um rio nem sempre é uma tarefa fácil. Muitos rios têm suas nascentes formadas a partir da junção de pequenos filetes e cursos de água perdidos no meio das montanhas e das matas, situações onde é difícil afirmar com certeza onde está a “nascente” principal. Curiosamente, essa é a situação dos três maiores rios do mundo: o Nilo, o Yangt e o Amazonas. E, sem a certeza do ponto onde nasce um rio, também se cria uma incerteza quanto a extensão total desse rio até a foz. 

Até que surja prova em contrário, a nascente do rio Amazonas fica localizada num trecho da Cordilheira dos Andes no Peru, conhecido como Cordilheira Chila. Num ponto a 5.600 metros de altitude, de acordo com estudos cartográficos realizados por especialistas peruanos e brasileiros, encontram-se algumas fendas em um paredão rochoso (vide foto), através das quais escorre água de derretimento de um glaciar conhecido como Nevado Mismi. Essas são consideradas as “primeiras” águas do rio Amazonas. 

A água escorre alguns metros na direção de um pequeno lago conhecido como Lauri ou Lauricoa. É nesse pequeno lago que nasce o córrego ou Quebrada Carhuasanta, um pequeno corpo d’água que começa a descida das montanhas dos Andes e vai se juntar a outras fontes de água, formando primeiro um curso mais volumoso, conhecido como Quebrada Apacheta, que alguns quilômetros mais a frente passa a ser conhecido com rio Loqueta.

O rio Loqueta é o principal afluente do rio Apurimac, um rio de montanha com uma extensão total de 730 km, que segue no sentido Noroeste através de estreitos cañones (ou canyons) entre as montanhas, alguns com profundidade superior a 3.000 metros, recebendo contribuições de diversos pequenos rios. Um ponto de referências importante, que fica próximo das margens do rio Loqueta, é a cidade de Cuzco, antiga capital do Império Inca. 

Ao atingir uma altitude de aproximadamente 400 metros, na divisa das regiões de CuzcoJunin Ayacucho, o rio Apurimac se junta ao Mantaro, formando o rio Ene, que segue na direção Norte, através de um trecho de mata na região de Junin por aproximadamente 180 km, até se juntar com o rio Perené para formar o rio Tambo

O rio Tambo se encontra na região central do Peru, dentro dos domínios da Floresta Amazônica. Esse rio corre por uma extensão de 159 km até se juntar com as águas do Urubamba e formar o Ucayali, um rio com características tipicamente amazônicas, inclusive com uma fauna que inclui botos-cor-de-rosa, peixes-boi e ariranhas. O rio Ucayali tem um caudal médio de 13,5 mil m³ por segundo, fluindo por cerca de 1.600 km na direção Norte até encontrar o famoso rio Marañon – a partir deste ponto, os peruanos passam a chamar o rio de Amazonas, nome que persistirá até a fronteira com o Brasil. Desde a nascente nas montanhas da Cordillheira Chila até a fronteira com o Brasil, essa rede de rios que forma o rio Amazonas já percorreu 2.667 km.

Ao entrar em território brasileiro, o rio Amazonas, curiosamente, passa a ser chamado de rio Solimões, nome que será mantido ao longo de um trecho com aproximadamente 1.700 km, até o encontro com as águas do rio Negro, onde o rio passa a ser chamado de Amazonas novamente. De acordo com registros históricos de cronistas espanhóis e portugueses do século XVI, o nome Solimões deriva da palavra latina Solimum, em referência ao veneno usado nas pontas das flechas pelos ferozes índios das tribos Yurimáguas, que habitavam as margens desse rio. Com o passar do tempo, essa referência ao veneno (Solimum) foi alterada para Solimões – já os índios, esses foram extintos. 

A primeira cidade em território brasileiro banhada pelas águas do rio Solimões é Tabatinga, no Estado do Amazonas, que faz fronteira com a cidade de Letícia, na Colômbia, e está bem próxima de Caballococha, no Peru. Dentro do Brasil, o rio Solimões passa a receber importantes contribuições de grandes afluentes, aumentando gradativamente o volume de seus caudais. Em sua margem direita encontram-se os rios Javari, Jutaí, Juruá e Purus; na margem esquerda, desaguam os rios Içá (que até a divisa com o Brasil é chamado de Putumayo) e Japurá. Nas margens do Solimões encontram-se importantes cidades do interior do Estado do Amazonas: São Paulo de Olivença, Amaturá, Santo Antônio do Içá, Tonantins, Jutaí, Fonte Boa, Alvarães, Tefé, Coari, Anamã, Anori e Manacapuru. A cerca de 30 km da cidade de Manaus, as águas barrentas do rio Solimões se “encontram” com as águas escuras do rio Negro e o rio passa a ser chamado de Amazonas mais uma vez.

O chamado “Encontro das Águas” é uma das maiores atrações turísticas do Estado do Amazonas, atraindo visitantes de todo o mundo. Devido às diferenças na temperatura e composição química das águas dos rios Solimões e Negro, as águas barrentas, de um lado, e escuras, do outro lado, seguem sem se misturar por um trecho de aproximadamente 6 km. Deste ponto até o delta, onde está localizada a sua foz, rio Amazonas vai percorrer aproximadamente 1.550 km, até se encontrar com as águas do Oceano Atlântico ao redor das ilhas do arquipélago de Marajó.  

Foi exatamente nesta região que, no ano de 1.500, o navegador espanhol Vicente Yañez Pinzón descobriu e navegou com sua frota exploratória pela primeira vez nas águas do grande rio. Impressionado com o grande volume de água doce que o rio descarregava no Oceano Atlântico, Pinzón batizou-o como Rio Santa Maria del Mar Dulce, que depois acabou reduzido para Mar Dulce. Muitas décadas depois, conforme comentamos em postagens anteriores, duas expedições espanholas que partiram do Peru em busca do lendário El Dorado, sucumbiram diante da força da floresta, dos grandes rios e dos nativos selvagens.

Como consequência deste fracasso, surgiram novos nomes para definir o grande rio: primeiro como Amazonas, porque os espanhóis confundiram os índios de cabelos compridos com as mitológicas guerreiras amazonas (também conhecidas como valquírias); depois como Marañon, palavra derivada de maranã, que em espanhol, significa “traição” e tem tudo a ver com as intrigas, traições e assassinatos que ocorreram entre os espanhóis nestas trágicas expedições

Como você pode perceber nesta rápida descrição dos rios que formam o curso principal do rio Amazonas, trata-se de uma imensa e complexa região, onde águas e matas se confundem, ao mesmo tempo que se complementam. E essa complexidade só aumenta à medida que passamos a analisar e a incorporar novas informações de cada um dos afluentes do rio Amazonas. É um “mundo” totalmente a parte do resto do Brasil, seja em aspectos físicos e geográficos, seja em aspectos sociais e culturais. 

Vamos tentar falar desta complexidade no próximo post

O PODEROSO RIO AMAZONAS

Rio Amazonas

O Amazonas é o segundo maior rio do mundo em extensão, com quase 7 mil km das nascentes até a foz, e é, de longe, o rio com maior fluxo de água do Planeta – calcula-se que um volume entre 12% e 20% de toda a água doce do mundo flua através dos rios e ares (os chamados “rios voadores”) da Bacia Amazônica e, mais cedo ou mais tarde, essa água irá atingir a calha do rio Amazonas. A Bacia Amazônica ocupa uma área com mais de 7 milhões de km², onde se encontram mais 1.000 afluentes – alguns destes afluentes, como o Negro e o Madeira, entram na lista dos 10 maiores rios do mundo. 

Todas estas informações são absolutamente clichês e você já deve ter lido ou ouvido pelo menos alguma delas em algum lugar. Deixe-me mostrar a grandiosidade da Bacia Amazônica e do grande rio das Amazonas de um jeito diferente: 

Algumas estimativas científicas indicam que um volume equivalente a 383 mil km³ de água evapore dos oceanos a cada ano (dependendo da fonte consultada, você poderá encontrar valores diferentes deste). Para que você tenha uma ideia mais precisa do que é esse volume, ele equivale a uma camada de 1,06 metro da superfície de todos os oceanos do mundo: Pacífico, Atlântico, Índico, mares polares, Mar Mediterrâneo, entre outros. É claro que, nas regiões mais frias do Planeta, a quantidade de água evaporada é muito pequena – nas regiões mais quentes, especialmente ao longo da Linha do Equador, a quantidade de água evaporada pelo calor do sol será bem maior do que o valor médio indicado. 

Essa inacreditável quantidade de água na forma de vapor é colocada em circulação ao redor do nosso Planeta pela força dos ventos, elemento esse que também é influenciado pelas diferentes temperaturas ao redor do globo terrestre. Em algum momento, quando o vapor esfria, a água volta ao estado líquido e é precipitada de volta a superfície do Planeta – cerca de 75% das chuvas caem de volta sobre os oceanos e os 25% restantes vão cair sobre os continentes, na forma de chuva, neve, granizo ou sereno.  

O volume total dessa precipitação sobre os continentes equivale a mais de 95 mil km³ – isso pode parecer muita coisa a princípio, mas esse volume equivale a menos de 0,5% da água existente no Planeta inteiro: 97,5% da água existente na Terra é salgada, ou seja – água do mar, imprópria para o consumo. A água doce ou potável, corresponde a apenas 2,5% do volume de água existente no Planeta, sendo que a maior parte está congelada nos Polos e nas geleiras, e grande parte se encontra em aquíferos e lençóis subterrâneos de difícil acesso

A região onde se encontra a Bacia Amazônica intercepta 1/5 de todo o volume de vapor de água do Planeta, que se precipita na forma de chuva – são quase 20 mil km³ de água que irão cair sobre os solos da região e, na sua maior parte, vão fluir pelos rios, riachos, lagos e igarapés, até atingir a calha do poderoso rio Amazonas, que muitas vezes é chamado, e com toda a razão, de rio-mar

O caudal médio do rio Amazonas, termo que indica o volume total de água que corre pela calha do rio, corresponde a 209 mil m³ por segundo – isso significa que, a cada 10 segundos, um volume de água equivalente à Baía da Guanabara é lançado pela foz do rio Amazonas no Oceano Atlântico. Esse volume de água doce é tão grande que a salinidade do Oceano é afetada numa distância de até 150 km da foz. O Nilo, o maior rio do mundo (é cerca de 300 km mais longo que o Amazonas), tem um caudal médio 60 vezes menor que o do nosso grande rio. 

Esse grandioso rio, ao contrário do que talvez possa parecer, nasce em pequenas fontes no alto da Cordilheira do Andes no Peru. A água dessas nascentes surge a partir do gotejamento de geleiras no alto das montanhas, que derretem vagorosamente ao longo do ano. Ainda não existe um consenso científico sobre qual é a nascente mais longínqua do rio Amazonas – a certeza que temos é que dezenas de pequenos fios de água vão se juntando e formando pequenos córregos, que por sua vez se transformam em pequenos rios, que mais tarde se transformarão nos grandes afluentes do rio Amazonas. 

Entre os inúmeros afluentes do rio Amazonas, destacam-se os rios: Napo, Javari, Jandaiatuba, Putumayo (chamado Içá no Brasil), Jutaí, Juruá, Japurá, Tefé, Coari, Piorini, Purus, Negro, Madeira, Manacapuru, Uatumã, Nhamundá, Trombetas, Tapajós, Curuá, Maicuru, Uruará, Paru, Xingu e Jari. Se você consultar as postagens do blog, vai ver que já falamos de alguns desses rios (sublinhados), mas ainda há muitos outros para se falar. 

As águas da Bacia Amazônica são as veias que alimentam a vida na Floresta Amazônica, o maior sistema florestal equatorial do mundo (a maior floresta do mundo, ao contrário do que muitos afirmam em relação à Amazônia, é a Taiga, as florestas boreais do Norte do Planeta). A área ocupada pela Floresta Amazônica é de aproximadamente 5,4 milhões de km², ocupando terras na Bolívia, Peru, Equador, Colômbia, Venezuela, Suriname, Guiana e Guiana Francesa – mais de 60% da Floresta se encontra no Brasil. Calcula-se que mais de 1/3 de todas as espécies do mundo vivam na Amazônia – somente em espécies de peixes, já se conhecem mais de 2.100 espécies diferentes e, a cada dia, se descobrem novas espécies. 

A largura média do rio Amazonas se situa entre 6 e 8 km – no período das chuvas, essa largura pode chegar a casa dos 50 km em alguns trechos, com uma profundidade média entre 20 e 50 metros. Isso significa que, com as devidas cautelas de navegação por causa dos bancos de areia, um navio superpetroleiro ou um grande navio de cruzeiro podem navegar tranquilamente nas águas do rio-mar. Com a mesma cautela na navegação e a depender da época do ano, cargueiros de grande porte podem entrar na calha do rio Amazonas e atingir portos fluviais na Colômbia, Peru e Equador – nenhum outro rio do mundo se aproxima tanto de um mar como o rio Amazonas. 

Todo esse “mundo” de águas doces, porém, não está a salvo de secas grandiosas como aquelas registradas em tempos recentes como 1963, 2005 e 2010, quando rios caudalosos acabaram transformados em filetes d’água. O fluxo de massas de vapor em direção da região Amazônica está no centro da manutenção das chuvas periódicas que alimentam os rios e regulam o clima da região. A velocidade em que mudanças climáticas globais vêm sendo observadas, particularmente em função do Aquecimento Global, poderão afetar drasticamente os volumes de chuvas que chegam anualmente na Amazônia, com consequências imprevisíveis para a flora, a fauna e o clima regional. E um grande exemplo de mudança climática é o Deserto do Saara

Até cerca de 8 ou 10 mil anos atrás, todo o Norte da África era mais úmido e com temperaturas mais baixas que as atuais. Existiam densas florestas e as áreas mais secas eram cobertas por vegetação de Savana. Todos os grandes rebanhos de animais que você  pode ver nos documentários sobre o continente, como zebras, girafas, elefantes, rinocerontes e gnus, entre outros, habitavam a região. O famoso rio Nilo, que atualmente segue rumo Norte até desaguar no Mar Mediterrâneo, naqueles tempos atravessava todo o Norte da África e tinha a sua foz no Oceano Atlântico.

Foi então que o nosso planeta sofreu uma leve alteração no seu eixo de rotação, que foi suficiente para alterar a incidência solar no Norte da África e provocar uma alteração climática nos regimes de umidade e temperatura. Alguns cientistas afirmam que essa mudança ocorreu a menos tempo, há cerca de 5 mil anos atrás, mas com as mesmas consequências – as florestas retrocederam lentamente até desaparecer e as áreas de Savana se ampliaram. E o verdejante Norte da África se transformou no grande Deserto do Saara que vemos hoje. 

Esperemos todos que mudanças climáticas deste porte não atinjam a Amazônia tão cedo. 

A INCRÍVEL EXPEDIÇÃO DE PEDRO TEIXEIRA RUMO ÀS NASCENTES DO RIO AMAZONAS

Forte do Presépio

A incapacidade dos espanhóis em conquistar e colonizar esta parte tão importante e, por que não dizer, tão traumática de seus domínios, a Amazônia, permitiu que outros conquistadores o invadissem. Ingleses, irlandeses, flamengos e franceses montaram diversas fortificações e postos de comércio na região da foz do Rio Amazonas, no Arquipélago do Marajó, ocultando-se entre uma infinidade de canais entre as centenas de ilhas e ilhotas. Ao Portugal, que na época estava sob domínio da Espanha (de 1580 a 1640) foi solicitada a defesa da região da foz do rio Amazonas e assim proteger a região da nação “amiga” e co-irmã dos invasores. Em janeiro de 1616, um grupo de militares da colônia portuguesa fundou na baía de Guajará um forte, batizado com o nome de Presépio (vide foto). A vila que surgiu ao seu redor seria chamada de Belém. De acordo com o relato do historiador Capistrano de Abreu em seu livro Capítulos de História Colonial

“Trazia Alexandre de Moura instruções para expulsar os franceses do Pará e ir até o Amazonas. Como no Pará não existisse estabelecimento francês e o Amazonas estivesse desocupado, mandou em seu lugar Francisco Caldeira de Castelo Branco com cento e cinquenta homens, dez peças de artilharia e três embarcações… 

A 35 léguas do mar, na margem direita do Pará, Francisco Caldeira de Castelo Branco fundou a fortaleza, e chamou-a Presepe (o nome oficial da construção é Forte do Castelo do Senhor Santo Cristo do Presépio de Belém)

Estava dado o primeiro passo para a ocupação do Amazonas.” 

A presença de forças militares portuguesas na região reduziu gradativamente o acesso de outras nações aos grandes rios e as fortificações dos invasores foram destruídas uma após outra. No começo da década de 1630, os portugueses podiam afirmar que haviam libertado o baixo Amazonas da influência dos rivais estrangeiros. Todo este esforço militar, permitiu aos portugueses um completo mapeamento de extensas áreas no baixo Amazonas. Esse foi o primeiro passo para sua definitiva conquista. 

Em 1637, uma grande expedição portuguesa partiu de Belém, rumo às nascentes do grande rio, com o objetivo de explorar e mapear toda a região. Compunha-se de 47 canoas, com cerca de 1.200 índios e negros, além de 70 soldados portugueses. No comando desta expedição estava o capitão Pedro Teixeira, o terceiro personagem dessa saga de conquista da Amazônia. Depois de quase um ano da partida, lutando contra a força da correnteza do rio, índios e toda a sorte de dificuldades, o pequeno exército surpreendeu os espanhóis quando entrou na cidade de Quito, no Vice-Reino do Peru (atualmente, capital do Equador). Duas expedições espanholas fracassaram na conquista e nos objetivos ao descer o rio Amazonas e, agora, um grupo de rivais portugueses consegue vencer o caminho contra a correnteza – era uma situação de completo constrangimento.

Houve muita ponderação do Governador local sobre o que fazer com estes portugueses. Finalmente, o Governador entendeu que a nova rota de ligação ao Oceano Atlântico não era adequada aos interesses espanhóis para o transporte das riquezas conquistadas – a rota através do Panamá era mais curta e muito mais segura. Ao liberar Pedro Teixeira e seus homens para o retorno a Belém, a única exigência feita foi à presença de cartógrafos espanhóis na frota, o que prontamente foi aceito. Finalmente, depois de mais de dois anos de sua partida, a expedição chegou a Belém no dia 12 de dezembro de 1639. Capistrano de Abreu comentou: 

“Pedro Teixeira, incumbido desta missão, partiu a 17 de outubro águas a riba do rio-mar, em 15 de agosto de 1638 alcançou o Paiamino, afluente do Napo, e seguiu para Quito. Depois de receber as ordens do vice-rei do Peru, regressou e chegou ao Pará em 12 de dezembro do ano seguinte. Já de volta, a 16 de março de 1639, na barra do Aguarico, tomou posse em nome da coroa de Portugal das terras que para o Oriente se estendiam até beira- mar. Bento Maciel, então Governador do Estado, recompensou estes e outros serviços durante mais de quatro lustros prestados por seu companheiro de armas, concedendo-lhe por três vidas a encomendação de trezentos casais de índios.” 

Os cartógrafos espanhóis chegaram a concluir um atlas: Nuevo Descobrimiento del Gran Rio de las Amazonas, publicado em 1641, exatamente um ano depois de Portugal e Espanha terem se separado. Infelizmente, para os espanhóis, era tarde demais: o Amazonas passou definitivamente para o controle de Portugal; a língua predominante na grande bacia hidrográfica passaria a ser o português e o tempo se encarregaria de legalizar a posse, primeiro para os Lusos, depois para os brasileiros. 

Eu tenho certeza quase que absoluta que a maioria dos leitores, nunca tinha ouvido falar dessa história, nem jamais suspeitou que nós devêssemos quase metade da atual extensão territorial do Brasil ao português Pedro Teixeira. Eu confesso que só tomei contato com essa saga durante as pesquisas que fiz no início da redação de um dos meus livros e depois, em visita a Belém do Pará, encontrei referências interessantes sobre esse grande explorador e militar. Vivendo e aprendendo. 

Como eu sempre comento em meus textos, tenho uma predileção pelas narrativas das expedições espanholas, que contam as aventuras dos hidalgos. Caso você tenha lido as duas postagens anteriores, onde falei das expedições de Francisco de Orellana de Pedro de Ursúa (que foi assassinado e a expedição passou ao comando do sanguinário Lope de Aguirre), há uma loucura explícita, uma insanidade em cada ato destes homens na busca das riquezas. Não demonstram o menor interesse pela conquista ou o reconhecimento dos territórios, muito menos pelas gentes que neles viviam. Analisando a expedição de Pedro Teixeira você percebe claramente o pragmatismo do português – na pior condição possível, ele e seus homens subiram o rio Amazonas, lutando contra a correnteza de um dos mais poderosos rios do mundo.

É evidente que eles não tinham um mapa da bacia Amazônica e conforme avançavam, eles precisavam entrar em cada um dos rios tributários para fazer um levantamento cartográfico. Ao atingirem o sopé dos Andes, os portugueses tiveram que localizar nativos e interrogá-los sobre os espanhóis e descobrir o melhor caminho para a cidade de Quito, aonde chegaram sem o convite dos espanhóis. Foi uma expedição de conquista e não uma aventura de conquistador como no caso dos espanhóis – porém, com o mesmo grau de loucura, só que era uma loucura implícita. 

Os espanhóis ficaram com o ouro inca; os portugueses e, depois, nós brasileiros, ficamos com a maior parte da bacia Amazônica – no longo prazo, nós brasileiros saímos ganhando, e de goleada! – Algo, talvez, como um 7 x 1 contra a Espanha. 

Esses aspectos históricos da conquista da Região Amazônica é um tópico importante que não costuma fazer parte dos estudos de história do Brasil nas escolas. Foi graças a todos os esforços desses primeiros exploradores, mais positivos para os portugueses do que para os espanhóis, que mais de 60% da área da Amazônia ficou com o Brasil.

O AMAZONAS ESPANHOL DE PEDRO DE URSÚA E LOPE DE AGUIRRE

Marañon de las Amazonas

Na postagem anterior apresentamos a primeira grande expedição espanhola que atravessou a Floresta Amazônica desde a Cordilheira dos Andes até a foz do rio Amazonas no Oceano Atlântico. Sob o comando de Gonzalo Pizarro e de Francisco de Orellana, partiram de Lima em 1541 mais de duzentos espanhóis, quatro mil índios, milhares de cavalos e suprimentos para meses de viagem. O objetivo era encontrar a lendária cidade de ouro dos indígenas – El Dorado. Dezenove meses depois, já em 1543, a expedição estava reduzida a 26 sobreviventes maltrapilhos e esfomeados, que conseguiram chegar ao Oceano Atlântico sem encontrar nem uma pepita de ouro. 

Uma segunda expedição espanhola, comandada por Pedro de Ursúa (1525-1561), partiu de Lima em fevereiro de 1559, ainda sonhando encontrar o El Dorado. Esta expedição enfrentou os mesmos problemas da anterior, mas ela fracassou justamente por reveses de outra natureza: traição e assassinato. 

Pedro de Ursúa não se parecia em nada com os brutais conquistadores da época. Era considerado gentil, educado, honrado, perfeito cavalheiro, possuidor de gentileza e caráter, adorado por todos, além de ser jovem. Mas, por outro lado, não tinha a capacidade de ver e entender o verdadeiro caráter das pessoas. Essa falha foi fatal para ele. Sua tropa era formada por homens rudes, mercenários de toda sorte, onde a ganância era a principal marca. Entre esses homens, um se destacava com todas as piores qualidades: Lope de Aguirre

Aguirre, que era basco, recebeu o apelido de “el lobo”. Os conquistadores espanhóis não depositavam muita confiança nos bascos, grupo que sempre se comportou a parte em relação aos demais grupos formadores da Espanha e parecia não se esforçar muito para todas “las glorias de España”. A língua basca é totalmente incompreensível aos ouvidos castelhanos – um antigo provérbio espanhol dizia: “Quando Deus quis castigar o Demônio, condenou-o a estudar basco durante sete anos.” Porém, a necessidade de homens e armas para levar “al fin y al cabo” a conquista da América, fazia com que os espanhóis fizessem vista grossa aos tipos de caráter dos mais duvidosos. 

A ficha corrida de Lope de Aguirre faria inveja a qualquer meliante de carreira, frequentador das páginas dos jornais e dos programas policiais: primeiro emprego – ladrão de túmulos; foi condenado diversas vezes por fraude; mercenário, lutou em muitas das batalhas pela conquista dos novos territórios; tomou várias cidades a força; foi condenado diversas vezes por crimes de toda ordem. Em uma destas condenações, levou cem chibatadas nas costas; sobre os ferimentos foi colocado sal – Aguirre ficou aleijado para sempre e jurou a todos que se vingaria. Em outra expedição contra índios, acabou também aleijado de uma das mãos. Era um tipo de pessoa que não se deveria ter por perto, mesmo num tempo tão duro como foi o início da conquista das Américas e da Amazônia. 

Uma expedição com um líder fraco e com homens tão terríveis, não poderia obter maiores êxitos. Ao longo de vários meses, motins de toda ordem levaram a uma sucessão de assassinatos, inclusive o de Pedro de Ursúa, morto na noite de ano novo de 1561. Mas do que a fome, os ataques de índios e toda a sorte de problemas que a floresta fosse capaz de produzir, o maior risco para este punhado de aventureiros espanhóis eram os próprios espanhóis – “a expedição não foi de geografia, mas de carnificina”, registrou um cronista da época. A aventura, agora comandada por Aguirre, terminou pouco mais de dois anos depois, com a expedição chegando primeiro ao Atlântico e depois até a Isla Margarida, na Venezuela. Há dúvidas históricas com relação ao ponto de chegada, se foi na foz do rio Amazonas ou do rio Orenoco, na Venezuela (há uma ligação natural entre as duas bacias hidrográficas – o canal de Casiquiare, que liga o rio Negro ao rio Orenoco); durante muito tempo os rios Amazonas e Negro foram chamados de Marañón. Uma pesquisa histórica detalhada do estudioso peruano Emiliano Jos, publicada em 1923 (e que, bem por acaso, eu tenho uma cópia), confirmou que a expedição seguiu até a foz do rio Amazonas: 

En consecuencia, terminaremos afirmando de acuerdo com todos los cronistas del viaje, y com todos los documentos a él referentes, y com el jefe de la expedición, y em contra de todos los fantaseadores sobre su trayectoria, que los “marañones” alcanzaron el mar por la boca del Amazonas”. 

Segundo as informações disponíveis, tanto a expedição de Francisco de Orellana quanto aquela de Lope de Aguirre, fizeram a descida dos rios da bacia Amazônica utilizando um tipo de embarcação espanhola conhecida como bergantim. Normalmente, esse tipo de embarcação se assemelhava a uma galé, porém em tamanho menor, com dois mastros e linhas de remos nas laterais. Essas expedições sempre contavam com carpinteiros com experiência em construção naval e com ferramentas, permitindo que se construíssem as embarcações com matéria prima da região quando se fizesse necessário. Segundo os registros das duas expedições que sobreviveram ao tempo, as embarcações foram construídas com o madeiramento das laterais mais elevados que o normal para proteger os ocupantes das flechas e ataques de índios hostis nas margens dos rios.  

Estimativas de peso das embarcações com carga e homens vão de 20 a 30 toneladas. Imaginar uma embarcação desse porte saindo do curso do rio Amazonas, onde navegava a favor da correnteza, e tomando o curso do rio Negro, subindo na força dos remos contra a correnteza em direção ao território da Venezuela é uma história mais difícil de aceitar como verdadeira do que a lenda do El Dorado

Sempre que encontravam uma oportunidade, esses homens atracavam as embarcações e se lançavam de assalto a aldeias indígenas menores, que encontravam em abundância ao longo das margens dos rios, buscando assim conseguir alimentos e suprimentos para sua sobrevivência. Foi durante esses embates com os índios que se batizou a região como Amazonas, quando os indígenas de cabelo comprido faziam lembrar as lendárias guerreiras amazonas da antiga mitologia grega, muito conhecida pelos espanhóis. As crônicas das expedições também falam das sereias encontradas nos rios, que de lenda não tinham nada: eram os peixes-boi amazônicos que, curiosos, emergiam ao lado das embarcações para conferir toda aquela movimentação em seus domínios aquáticos. 

Homens ignorantes, gananciosos, famintos e apavorados – fantasia e realidade se confundindo. Estavam preocupados apenas com a sobrevivência e sem qualquer motivação para sonhos de conquista desse território. 

Lope de Aguirre e seus homens, que sonhavam retornar ao Peru para conquistá-lo, participaram de levantes na Isla Margarida e depois no território da Nova Granada (Venezuela). As forças rebeldes acabaram subjugadas; Aguirre foi morto em combate; seu corpo foi recuperado pelos soldados coloniais, levado para a capital, esquartejado e os pedaços pendurados em locais diferentes para servir de exemplo (essa era uma prática comum – você deve lembrar que o mesmo foi feito com Tiradentes aqui no Brasil).  Nos mapas espanhóis, produzidos após a expedição de Pedro de Ursúa e Lope de Aguirre, o rio Amazonas passou a ser chamado de Marañón – em espanhol, a palavra traição é “maraña” e “marañón” significa traidor. Mesmo depois da incorporação de grande parte da Amazônia ao território do Brasil, um dos principais afluentes do rio Amazonas manteve o nome Marañon

Depois dessas duas expedições desastrosas através da grande Floresta Amazônica, com o custo de milhares de vidas e de muito dinheiro, as autoridades espanholas desistiram em definitivo de qualquer esforço de colonização da região. Foi a partir dessa decisão que surgiu um personagem que conquistaria a Amazônia para Portugal: Pedro Teixeira. 

Falaremos dele e de sua gloriosa expedição na próxima postagem

O AMAZONAS ESPANHOL DE FRANCISCO DE ORELLANA

El Dorado

Na última postagem, apresentamos uma descrição ultra mega compacta da formação da Cordilheira dos Andes, um evento geológico altamente complexo, que foi o principal responsável pela formação da grande bacia do rio Amazonas. Posteriormente, mudanças climáticas globais tornaram possível a formação da Floresta Amazônica. Milhões de anos após essa gênese equatorial, populações humanas começaram a chegar e a estabelecer assentamentos nas margens dos rios, nos altiplanos e nas montanhas andinas, em áreas isoladas das florestas e em planícies junto aos oceanos. Vamos enfocar a partir desta postagem num período histórico bem mais recente, que se deu a partir da chegada dos europeus ao continente Americano – a organização social e política regional que temos hoje na região é a herança mais evidente desse período. 

As primeiras expedições espanholas ao Novo Mundo, a partir de 1492, levaram os grandes navios direto para a região do Caribe, onde ilha após ilha, o mapa das novas terras foi sendo desenhado. Hispaniola, Cuba, Jamaica, pequenas e grandes Antilhas, até o desembarque no continente em terras da América Central. Já em 1513, Vasco Nuñes de Balboa (1475-1519) descobriu que através de um caminho terrestre não muito extenso no Panamá, se chegava ao Oceano Pacífico. Será nas cercanias deste caminho, quatro séculos mais tarde, que será construído o magnífico Canal do Panamá. Esse caminho era infinitamente mais curto que a longa rota para o Oceano Pacífico que seria encontrada por Fernão de Magalhães em 1520, atravessando o estreito que leva seu nome no extremo sul do continente. Mas a conquista do México e de todos os tesouros do império asteca por Fernando Cortês em 1520, desviou a atenção dos conquistadores desta descoberta. 

Ao longo dos anos posteriores, os espanhóis navegaram a partir do Panamá rumo ao sul do Pacífico, ampliando paulatinamente seus domínios. Foi através desta passagem pelo Panamá que partiu, em 1533, a expedição de Francisco Pizarro (1476-1541), o grande conquistador do Império Inca – 150 homens que, com muita traição e esperteza, realizaram uma das maiores proezas militares de todos os tempos. Os tesouros de Atahualpa foram tomados pelos espanhóis e Pizarro se transformou no Vice-Rei do Peru. A colonização espanhola nesta parte da Amazônia se concentrou neste pequeno trecho da costa do Oceano Pacífico. 

No Oceano Atlântico, as correntes e os ventos alísios trouxeram Cabral e sua frota de 13 navios diretamente para a faixa Leste do Brasil, interrompendo por 12 dias sua expedição para Calicute, na Índia. Ao partirem, o Anticiclone do Atlântico Sul empurrou suas caravelas diretamente para o extremo Sul da África de onde puderam seguir para o Oriente na direção do subcontinente indiano. O navio da frota que recebeu ordens para retornar a Portugal com as notícias sobre a descoberta (a famosa carta de Pêro Vaz de Caminha seguiu neste navio) fez exatamente este percurso até o largo da costa africana, virando a seguir para o Norte, acompanhando a corrente de Benguela e depois as correntes e ventos do Anticiclone dos Açores até chegar em Portugal. 

A concentração de colonizadores espanhóis no Caribe e costas do Oceano Pacífico, e de portugueses na faixa Leste do Brasil, foi extremamente benéfica para a região Amazônica, que ficou isolada, literalmente, por séculos. Talvez, se as condições de navegação fossem melhores, a Amazônia já teria sucumbido há mais tempo ao machado e ao fogo dos colonizadores, a exemplo da maior parte Mata Atlântica. Outro fator determinante a favor da Amazônia foi a grande concentração de florestas e de selvagens. Homens brancos ocidentais do início da Idade Moderna se julgavam muito acima da natureza – e podendo ficar longe dela, melhor; para o gosto desses homens já havia suficientes índios e matas nas faixas costeiras do Leste português e ouro e prata no Oeste espanhol – para que arrumar mais problema. Enquanto nada mais estimulante ou novas riquezas surgissem, esses colonizadores continuariam onde já haviam se estabelecido. 

Legalmente, o Amazonas era espanhol – o Tratado de Tordesillas assinado entre Portugal e Espanha indicava claramente sua localização na faixa de terras a Oeste daquela linha imaginária que dividiu o Novo Mundo. Pela falta de recursos técnicos na época para a localização geográfica precisa do Meridiano de Tordesillas, diferentes cartógrafos, portugueses e espanhóis, fizeram as suas projeções nos mapas – em todas essas projeções do Meridiano, a Amazônia sempre ficava no lado espanhol.  

A primeira expedição espanhola que se dispôs a se aventurar pela região Amazônica foi organizada por Francisco de Orellana (1490 – c. 1550). Orellana era espanhol de Trujillo, terra natal da família Pizarro, importante sobrenome na história da conquista da América, clã familiar ao qual ele próprio pertencia. Veio para a América com dezesseis anos. Sua ligação com os Pizarro foi muito importante – muitos destes ocupavam posições chave nos governos locais, especialmente no Panamá. 

Acompanhando o grande conquistador Francisco Pizarro, o jovem Francisco de Orellana, participou dos ataques a Lima, Trujillo e Cuzco. O jovem hidalgo conquistou muita honra e ouro, é claro – nobres espanhóis, na época, vinham para o Novo Mundo para conquistar riquezas. Numa destas batalhas, Francisco de Orellana perdeu um olho, que foi atingido por uma flecha indígena. 

Por volta de 1540, ocioso e dono de muitas posses, Francisco de Orellana ouviu falar de uma expedição que estava sendo organizada por Gonzalo, irmão caçula da família Pizarro. Esta expedição se dirigiria para o coração da Floresta Amazônica, do outro lado da Cordilheira dos Andes. Circulava entre os espanhóis o testemunho de vários índios, onde se descrevia a mítica história de um rei local, que nunca usava roupas: ele se vestia unicamente com ouro em pó. Todas as manhãs ele tinha seu corpo untado com óleo e recoberto com ouro em pó; ele tomava banho todas às noites em um lago para ‘limpar seu corpo’. Essa é a origem da lenda do El Dorado (vide imagem), que aparece em muitos registros da época. Veja um deles: 

“cierto rey que sin vestido 

em balsas iba por uma piscina a hacer oblación según 

el vido ungido todo bien de trementina 

y encima cuantidad de oro molido desde los bajos  

pies hasta la frente como rayo del sol resplandeciente.” 

Os espanhóis encontraram tantas riquezas na América e se deparam com tamanha grandiosidade nos impérios Asteca e Maia, que a ideia de um lago com fundo coberto de ouro em pó dos banhos desse rei fazia sentido e deve ter sido a mais encantadora das histórias do Peru. 

Histórias sobre o El Dorado já circulavam em todos os territórios espanhóis no Novo Mundo há alguns anos e muitos fidalgos tinham planos de encontrá-lo. Em 1529, Diego de Ordáz, militar que participou da conquista do México junto com Fernando Cortês e que realizou expedições exploratórias no Panamá e na Colômbia, solicitou o direito de explorar as terras míticas, que imaginava encontrar-se dentro dos atuais territórios da Colômbia e Venezuela. Sua expedição descobriu e explorou o rio Orenoco, mas não conseguiu encontrar o lendário El Dorado. Morreu em 1532 no naufrágio de sua nau quando a expedição iniciava o retorno para a Espanha. 

A expedição de Gonzalo Pizarro foi montada com tudo o que fosse necessário para conquistar o El Dorado: mais de duzentos espanhóis, quatro mil índios, milhares de cavalos e suprimentos para meses de viagem. Partiram de Lima em 1541 e, depois de alguns penosos meses de viagem, por entre pântanos, selvas e rios, a grande expedição se limitava a um punhado de homens famintos e desesperados. As doenças, a fome e a hostilidade das tribos indígenas da floresta (que não guardavam semelhança alguma com os civilizados Incas das montanhas e altiplanos dos Andes) destruíram o sonho espanhol. Orellana e Pizarro se desentendem.  

Francisco de Orellana e um pequeno grupo resolvem continuar seguindo os rios da região numa pequena flotilha de canoas, em direção ao Oceano Atlântico, que imaginavam não estar tão distante. Pizarro decidiu voltar para o Peru. Os dois grupos conseguiram atingir seus objetivos: Pizarro retornou a Quito com um grupo de cem homens esfarrapados e atormentados pela fome; Orellana atingiu o Oceano Atlântico depois de nove meses de penosa viagem correnteza abaixo; sua expedição estava reduzida a um grupo com vinte e seis homens. A grande expedição em busca do El Dorado durou dezenove meses, custou milhares de vidas e não encontrou nenhum ouro. 

Francisco de Orellana ainda conseguiu voltar para a Espanha e tudo fez para conseguir montar uma nova expedição para voltar a explorar o Rio Amazonas, cujo mérito ele e seu grupo tiveram de percorrer pela primeira vez desde próximo da nascente, nos Andes, até a foz no Oceano Atlântico; o alto custo, tanto material quanto em vidas humanas, enterrou momentaneamente o interesse espanhol pela região. 

Anos depois dessa trágica expedição, os espanhóis organizariam uma nova empreitada em busca das riquezas do El Dorado. Essa grandiosa expedição sairia de Lima em 1559, tendo no comando um nobre espanhol – Pedro de Ursúa, e passaria para a história como um sinônimo de traição, que em espanhol é chamada de maraña. Foi justamente essa traição a inspiração para o batismo de um dos principais afluentes do trecho inicial do rio Amazonas – o Marañón. 

Esse será o tema da nossa próxima postagem

A FORMAÇÃO DA CORDILHEIRA DOS ANDES E O SURGIMENTO DA BACIA AMAZÔNICA

Cordilheira dos Andes

Na última postagem falamos rapidamente do isolamento criado pela Cordilheira dos Andes, que divide vários países da América do Sul, literalmente, ao meio. Essa divisão dos territórios é mais evidente nos países que estão contidos na grande área ocupada pela Floresta Amazônica: Bolívia, Equador, Peru e Colômbia. A Venezuela, que também tem áreas dentro da Floresta Amazônica e da Cordilheira dos Andes, não sofre deste problema. Vamos falar um pouco sobre isso hoje. 

A Cordilheira dos Andes é uma das mais extensas cadeias montanhosas do mundo, se estendendo por quase 8 mil km desde a Terra do Fogo, no extremo Sul do continente, até o Norte da Colômbia, acompanhando toda a costa ocidental da América do Sul. A altitude média das montanhas é de 3.500 metros acima do nível do mar, com alguns picos chegando próximo dos 7 mil metros, como no caso do Aconcágua, na Argentina, que tem uma altitude de 6.962 metros. A largura média da Cordilheira é de 240 km, com alguns pontos na Bolívia e no Peru com largura de 600 km.

Atravessar a Cordilheira dos Andes de um lado até o outro nunca foi tarefa das mais fáceis desde de os tempos imemoriais; mesmo nos dias atuais, quando dispomos de uma avançada tecnologia para a construção de rodovias, ferrovias e de veículos automotores, são relativamente poucos os trechos que permitem a travessia da Cordilheira dos Andes. Essa dificuldade, conforme comentamos anteriormente, divide os povos destes países – comunidades que vivem na Amazônia Peruana ou Colombiana, por exemplo, estão mais próximas de comunidades brasileiras da Floresta Amazônica do que dos seus conterrâneos nos altiplanos andinos ou nas cidades ao longo da costa do Oceano Pacífico.

A elevação das montanhas que formam a Cordilheira dos Andes foi a principal responsável pela formação dos rios da grande bacia Amazônica e, posteriormente, pela formação da própria Floresta Amazônica. Para entendermos as forças envolvidas na formação de uma cadeia montanhosa tão extensa, precisamos falar rapidamente da fragmentação do antigo supercontinente de Gondwana

Sem entrarmos em maiores detalhes, a América do Sul, a África, a Índia, a ilha de Madagascar, a Austrália, a Antártida, a Nova Zelândia, a Nova Guiné e a Nova Caledônia formavam, em um passado distante, um único supercontinente conhecido como Gondwana. Há cerca de 160 milhões, o movimento das placas tectônicas, também conhecido como Tectônica Global, começou um processo de fragmentação e movimentação das partes deste supercontinente, formando a configuração atual dos continentes do nosso Planeta Terra.

O nosso continente, a América do Sul, é formado por uma grande placa tectônica conhecida como Placa Sul-Americana. Para que você entenda o que é uma placa tectônica, peço que imagine uma grande jangada flutuando sobre a água – uma placa tectônica tem um comportamento similar a esta jangada, porém, trata-se de um gigantesco bloco de rocha flutuando sobre o magma, uma camada de rochas derretidas, com temperaturas acima do 1.500 °C, que envolve o núcleo do Planeta. Toda a superfície do Planeta é formada por placas tectônicas – são 15 placas principais e 40 sub-placas menores (as famosas Ilhas Malvinas estão sobre uma sub-placa). Quando teve início o processo de fragmentação e separação de Gondwana, a Placa Sul-americana começou a se separar lentamente da Placa Africana – a velocidade desta separação é de, aproximadamente, 3 cm a cada ano

O avanço da Placa Sul-Americana rumo ao Leste não aconteceu livremente – conforme a América do Sul foi sendo empurrada pelas forças geológicas que a separaram da África, o grande bloco continental foi de encontro às placas tectônicas que estão do outro lado – a Placa de Nazca e a Placa do Pacífico. E foi justamente o choque desses blocos de rochas o que originou a Cordilheira dos Andes. A Placa Sul-Americana avançou sobre as bordas das Placas de Nazca e do Pacífico, o que provocou a elevação dos terrenos e a formação das montanhas dos Andes. Estudos geológicos indicam que esse evento teve início a cerca de 40 milhões de anos e o soerguimento dos terrenos foi concluído em “apenas” 4 milhões de anos. 

E o que tudo isso tem a ver com os rios da bacia Amazônica? 

Antes do “nascimento” da Cordilheira dos Andes, toda a região norte da América do Sul era uma extensa planície. Em alguns trechos, as águas do Oceano Atlântico (que era bem menor do que nos dias atuais) invadiam as terras e avançavam pelo continente. Os rios que haviam se formado até então corriam no sentido Leste. Conforme os terrenos da região onde encontramos atualmente a Cordilheira dos Andes começaram a ser soerguidos, ou seja, foram sendo elevados pelo choque entre as Placas tectônicas, houve primeiro uma interrupção no fluxo das águas para o Leste e um lento e gradual refluxo no sentido Oeste. 

O choque das Placas tectônicas, além de elevar os terrenos, também acabou provocando uma intensa atividade vulcânica ao longo de toda a costa Oeste da América do Sul, região que até hoje se encontra dentro do chamado Círculo de Fogo do Oceano Pacífico. A erupção contínua dos vulcões e a liberação sistemática de lava, rochas e materiais piroclásticos, contribuiu fortemente para a formação das grandes montanhas Andinas – muitos desses vulcões estão ativos até os nossos dias. 

Alguns dos principais rios formadores da bacia Amazônica com nascentes nos Andes, surgiram junto com a formação da grande cadeia montanhosa. Muitas das nascentes desses rios têm origem no degelo das neves e geleiras que se formam nas grandes altitudes. Estima-se que o rio Amazonas, ou curso original daquele que seria este rio, se formou a aproximadamente 16 milhões de anos. Esse rio corria na direção Oeste, desaguando nas águas de um grande lago, que se formou numa depressão no centro da região onde encontramos a Floresta Amazônica. Foram necessários 6 milhões de anos para que as águas desse lago lentamente começassem a fluir no sentido Oeste, quando a grande calha do rio Amazonas foi se consolidando e lentamente se transformando no ponto central de drenagem de toda a bacia hidrográfica. Entre 6 e 10 milhões de anos atrás, a formação geológica da Cordilheira dos Andes se estabilizou e, desde então, vem mantendo as mesmas características geológicas. 

Sem a formação da Cordilheira dos Andes e das mudanças nos cursos dos rios para o Oeste por ela provocados, toda a região Norte da América do Sul não teria passado de um gigantesco brejo de águas doces, invadidos periodicamente pelas águas do Oceano Atlântico. Não teríamos a maior parte da vida vegetal e animal que se desenvolveu na região – a própria Floresta Amazônica talvez não existisse (pelo menos como a conhecemos hoje). 

As características físicas e climáticas da bacia Amazônica acabaram resultando, em eras bem mais recentes, num processo de colonização por tribos indígenas que se adaptaram ao meio ambiente local. Esses povos passaram a basear seu estilo de vida, de alimentação, de colheita extrativista e produção agrícola, religioso e familiar no ciclo das águas e nos ritmos da Floresta Amazônica. Outros povos, que se instalaram nas regiões das montanhas e nos altiplanos andinos, desenvolveram culturas e modos de vidas completamente diferentes.  

Com o processo de colonização das Américas, quando povos da Europa e da África passaram a migrar para nossas terras, aqueles que se dirigiram para a região Amazônica acabaram por absorver os costumes e as tradições dos indígenas da Floresta. Mesmo divididos pelas fronteiras artificiais entre os diferentes países, todos os habitantes da bacia Amazônica têm estilos de vida e hábitos muito próximos.  

Das bordas da Cordilheira dos Andes até as costas do Oceano Atlântico, a vida na Floresta Amazônica é praticamente a mesma – e os preciosos rios estão no centro de tudo. 

JULIO ARAÑA, O REI DO RIO PUTUMAYO

Rio Putumayo

O rio Putumayo, que no trecho final dentro do território brasileiro recebe o nome de rio Içá, é um dos grandes afluentes formadores do rio Solimões. O Putumayo nasce nos contrafortes orientais da Cordilheira dos Andes, numa região conhecida como Nudo de Los Pastos, na Colômbia. O rio tem aproximadamente 1.800 km de extensão (algumas fontes falam de 1.650 km) e ao longo do seu curso ele faz a divisa entre a Colômbia e o Equador, e depois entre a Colômbia e o Peru. Os principais rios formadores do Putumayo são GuamúezSan Miguel, e Igara Paraná. O nome Putumayo é de origem quechua, uma importante língua indígena andina, e significa algo como “rio das vasilhas”, numa referência a uma fruta de casca dura, que os indígenas usavam para fazer vasilhas, algo semelhante às nossas cabaças. 

O rio Putumayo é navegável em praticamente toda a sua extensão, sendo uma importante via de transportes e comunicação para as populações das regiões Amazônicas do Equador, Peru e Colômbia, além de permitir a comunicação por via fluvial com a Amazônia brasileira. A Cordilheira dos Andes, uma imponente cadeia montanhosa que se estende por toda a face oeste da América do Sul desde a Terra do Fogo até o Norte da Colômbia, é um divisor natural entre as populações que vivem na costa do Oceano Pacífico e aquelas que vivem a Leste da Cordilheira – no nosso caso, as populações da Floresta Amazônica. Para essas regiões ao Leste da Cordilheira dos Andes, a navegação pelos rios da bacia Amazônica é uma importante atividade social e econômica, pois lhes permite uma saída para o Oceano Atlântico, em condições muito superiores às saídas existentes para o Oceano Pacífico em seus respectivos países. 

É praticamente impossível falarmos de regiões da Floresta Amazônica nos países vizinhos sem entrarmos novamente no Ciclo da Borracha. Conforme comentamos inúmeras vezes em postagens anteriores, a seringueira, cujo nome científico é Hevea brasiliensis, é uma árvore nativa da Amazônia e, não custa lembrar, a grande Floresta se distribui entre Brasil, Bolívia, Peru, Equador, Colômbia, Venezuela, Suriname, Guiana e Guiana Francesa. Como mais de 60% da Floresta Amazônica se encontra em território brasileiro, nosso país teve todas as condições naturais para se tornar o maior produtor mundial de látex; porém, nossos vizinhos também partilharam, em maior ou menor grau, das riquezas e das tragédias sociais geradas pela exploração, processamento e exportação do látex. No caso da região do rio Putumayo, é impossível falar desses problemas sem lembrar de um personagem sui generis: Julio Araña. 

Julio César Araña del Águilamuito provavelmente, é um ilustre desconhecido para a maioria dos leitores – porém, nos áureos tempos do Ciclo da Borracha, o empreendedor e depois político peruano comandou um gigantesco império gomífero com uma área do tamanho da Bélgica. Em 1907, para que todos tenham uma ideia do tamanho de seu patrimônio, Julio Araña registrou sua empresa em Londres, a Companhia Peruana da Amazônia, onde declarou um patrimônio de 1 milhão de libras esterlinas. A empresa tinha a sua sede em Iquitos, no Peru, e diversas associações com empresas da Europa

Com o passar dos anos, Julio Araña foi estendendo os seus domínios para toda a região da bacia hidrográfica do rio Putumayo, incorporando seringais na Colômbia e no Equador. Uma das alcunhas “conquistadas” por Julio Araña ao longo dos anos foi a de “el rey del Putomayo” – ele foi, provavelmente, o maior produtor individual de látex da Amazônia. Por questões de “civilidade”, Araña enviou sua esposa e filhos para viver no Sul da França, onde professores ingleses poderiam proporcionar uma “melhor” educação para os seus herdeiros. 

Uma característica da exploração do látex em terras brasileiras, fato que teve enormes repercussões após a publicação dos relatos de Euclides da Cunha durante a Comissão Mista Brasileiro-Peruana de Reconhecimento do Alto Purus, realizada entre 1904 e 1905, foram as observações acerca do regime de semi escravidão imposto aos trabalhadores pelos seringalistas. No caso do Império de Julio Araña, a exploração do látex era feita por indígenas escravizados – a famosa foto que ilustra esta postagem, publicada por um jornal em 1913, mostra alguns dos seus “trabalhadores” indígenas acorrentados. As péssimas condições de vida nos seringais e as jornadas de trabalho extenuantes para se conseguir atingir as cotas de produção de látex custaram, segundo algumas fontes, a vida de 30 mil indígenas (é possível que o número de mortos tenha sido bem maior). Segundo alguns cálculos feitos por historiadores, isso significa que, para cada jogo de quatro pneus fabricado a partir do látex produzido nos seringais de Julio Arana, um indígena morreu

Jornais do Peru, da Colômbia e do Equador começaram a receber inúmeras denúncias sobre a tortura e a morte de trabalhadores, estupro sistemático de mulheres indígenas nos seringais e das condições de vida absolutamente insuportáveis nos centros de produção de Julio Araña. Reportagens investigativas se multiplicaram, acompanhadas de editoriais cheios de denúncias e com provas irrefutáveis de tudo o que acontecia dentro do Império de Julio Araña. “Inexplicavelmente”, nenhuma denúncia contra ele ou contra as suas empresas jamais conseguia prosperar dentro no Peru. 

Foi somente no final de 1912, depois de intensa pressão internacional, que o Congresso peruano decidiu instalar um Comitê Parlamentar para investir a procedência das acusações contra Julio ArañaEsse comitê teve duração de seis meses – Julio Araña negou ter conhecimento de qualquer uma das acusações e colocou a culpa de eventuais ocorrências em seus funcionários, afirmando inclusive que esses agiram por conta própria, sem que ele fosse consultado. De acordo com declarações registradas, Julio Araña alegou que suas empresas “estavam ajudando a civilizar regiões do interior da Floresta Amazônica”. Por “falta de provas”, o Governo do Peru não processou o empreendedor. O Governo britânico tentou abrir processos judiciais internacionais contra Julio Araña, inclusive pressionando o Brasil e os Estados Unidos a colaborar nas causas – com o início da Primeira Guerra Mundial em 1914, o assunto acabou sendo deixado de lado. As empresas de Julio Araña mantiveram as suas operações até 1920. 

Julio Araña conseguiu se manter impunemente no mundo dos negócios até 1932, quando conflitos armados entre a Colômbia e o Peru pela disputa de fronteiras fez com que ele perdesse a maior parte de suas terras, indo à falência. O destino, porém, sorriu mais uma vez para Julio Araña – com o prestígio dos tempos de Rei do Putumayo e de sua enorme popularidade, conseguiu se eleger como senador, vivendo tranquilamente com a “imunidade parlamentar” até sua confortável morte aos 88 anos, em 1952. Qualquer semelhança com políticos brasileiros na atualidade não é mera coincidência – tratam-se de estruturas políticas e econômicas criadas em toda a América Latina para proteger e favorecer as classes ricas e poderosas.

Assim como ocorreu em regiões seringalistas na Amazônia brasileira, as antigas terras e populações produtoras de látex no Peru, Equador e Colômbia ao longo das margens do rio Putumayo, nada receberam na partilha do quinhão de riquezas criadas pelo Ciclo da Borracha. São regiões extremamente pobres e carentes de recursos, sem infraestrutura e com serviços de saúde e educação dos mais rudimentares. Suas maiores riquezas são as matas e os seus rios. 

É um quadro social e econômico que se repete com uma grande frequência por todos os confins da Amazônia – a única coisa que muda é o idioma usado pelas populações…