UM PARADIGMA HISTÓRICO: A EXPLORAÇÃO DO LÁTEX E A PRESERVAÇÃO DA FLORESTA AMAZÔNICA

Queimadas na Amazônia

Ao longo de uma extensa lista de postagens, onde temos tratado da importância da navegação fluvial nos rios da região Amazônica, falamos de forma recorrente do Ciclo da Borracha na região (1870-1913), sempre relembrando a cruel exploração do trabalho dos seringueiros, forçados a uma vida muito próxima da escravidão. Existe, porém, uma “terrível” ironia histórica nesse ciclo econômico: a exploração, processamento e exportação do látex, que chegou a representar o equivalente a 25% de todas as exportações brasileiras, se desenrolou ao longo de quase meio século, com um nível de destruição da Floresta Amazônica muito próximo de ZERO

Todos os chamados Ciclos Econômicos vividos por nosso país, desde os tempos da Colônia, foram construídos em cima das “cinzas” de algum dos nossos ecossistemas – essa é uma linha de pesquisa com a qual trabalho há muito tempo. Vejam os exemplos: 

Ciclo do Açúcar: A primeira grande atividade econômica realizada em larga escala em nossas terras nos séculos XVI e XVII e que resultou na destruição de, praticamente, todo o trecho da Mata Atlântica na Região Nordeste do Brasil. As matas foram queimadas implacavelmente para a formação dos campos agricultáveis – os imensos coqueirais que encontramos atualmente ao longo de toda a orla do litoral do Nordeste são testemunhas vivas daqueles tempos: o coco é uma planta trazida do Sudeste Asiático, que encontrou um ambiente próspero para “colonização” nas terras devastadas pelos canaviais; 

Ciclo da Carne e do Couro: Os criadores de bois e suas boiadas foram expulsos das terras do litoral pelos poderosos Senhores das Casas Grandes – os esfomeados bois avançavam contra os doces e suculentos brotos de cana, comprometendo a produção do mais valioso produto do período – o açúcar. Nas terras do semiárido, pobres em campos e pastagens para a alimentação das boiadas, os criadores passaram a realizar queimadas nas áreas da caatinga, aumentando artificialmente as áreas de campo. Esta técnica primitiva permitiu a prosperidade artificial da atividade por longas décadas, porém gerando consequências altamente negativas para os sertões, que se tornaram cada vez mais áridos e com menor disponibilidade de água; 

Ciclo do Ouro: Em 1693, bandeirantes paulistas encontraram reservas consideráveis de ouro na Serra do Sabarabuçu, uma região que passou a ser chamada de Geraes, mais tarde – Minas Gerais. As notícias das descobertas auríferas cruzaram a Colônia, atraindo rapidamente imensos contingentes de aventureiros, que largando tudo o que tinham nas terras do litoral, especialmente na região açucareira do Nordeste, se embrenharam nos sertões em busca do cobiçado ouro. Um dos primeiros impactos dessa nova atividade econômica foi o despovoamento do litoral, que perdeu metade da sua população em um curto espaço de tempo – a produção do açúcar entrou em declínio rápido, entre outros fatores, por causa da falta de mão-de-obra. A busca alucinante pelo ouro levou, primeiro, a uma derrubada sistemática das matas ciliares, de galeria e das veredas, onde os mineradores escavavam os barrancos em busca dos veios minerais; depois foi iniciada a derrubada das matas para o fornecimento de lenha para as forjas e para a abertura de campos para agricultura e pecuária; 

Ciclo do Café: As reservas auríferas da Região das Minas Gerais se esgotaram no final do século XVIII, levando muita gente à ruína. Enquanto muitos tentavam refazer suas vidas nos sertões das Geraes, um produto agrícola muito conhecido e apreciado nas fazendas brasileiras começava a ganhar adeptos na Europa e nos Estados Unidos, criando um novo e monumental mercado exportador para o Brasil – o café. Originário do Leste da África, o café se espalhou e se adaptou muito rapidamente ao clima do Brasil. A planta se desenvolvia bem em áreas mais altas e de solos de grande fertilidade – as serras do Espírito Santo e do Norte Fluminense rapidamente se mostraram adequadas para o cultivo do café e importantes trechos ainda preservados da Mata Atlântica passaram a ser derrubados e queimados para o plantio da Coffea.  

As plantações rapidamente atingiram as cercanias da nova Capital da Colônia – o Rio de Janeiro: a região onde encontramos hoje a Floresta da Tijuca, na época abrigava imensos cafezais. O Vale do Rio Paraíba foi o caminho seguido pelos cafezais para entrar na Província de São Paulo. Sendo uma planta arbustiva de médio porte, os cafeeiros rapidamente esgotavam os solos desnudos das antigas áreas florestais da Mata Atlântica, que eram abandonadas e trocadas por novas terras recém desmatadas – esse avanço furioso dos cafezais, sistematicamente, foi dizimando as matas do Sudeste e, mais uma vez, foi deixando um rastro de “terras arrasadas”. 

O ciclo econômico que estamos vivendo em nossos dias, o do Brasil exportador de soja e de outras commodities, está seguindo com esse modelo de destruição sistemática de biomas e liberação de áreas para agricultura e pecuária. Podemos incluir nesta lista a destruição das áreas do Cerrado, que a partir da década de 1960, viu sucumbir grandes áreas nos Estados de São Paulo, Paraná, Minas Gerais, Bahia, Maranhão, Piauí, Tocantins, Goiás, Mato Grosso e Mato Grosso do Sul. Calcula-se que, aproximadamente, 50% da vegetação original do Cerrado sucumbiu diante do avanço das fronteiras agrícolas – em troca desta destruição, o Brasil se transformou em uma das maiores potencias do agronegócio do mundo. 

No Ciclo da Borracha, conforme já descrito, a exploração em larga escala do látex trouxe riqueza e prosperidade econômica para muita gente, sem que a Floresta Amazônica tivesse de ser derrubada e queimada – aliás, passados mais de cem anos desde a derrocada da indústria gomífera na Amazônia, são os avanços da soja e das boiadas os principais “motores” da destruição de áreas da floresta. O grande problema do Ciclo da Borracha foi o total esquecimento da área Social – dentro da moderna visão da Sustentabilidade, o Crescimento Econômico Sustentável é aquele que consegue compatibilizar o Crescimento Econômico, com o Desenvolvimento Social e a Preservação Ambiental – os aspectos Econômico, Social e Ambiental formam o famoso Tripé da Sustentabilidade. Na Amazônia da Borracha, o aspecto Social deixou muito a desejar… 

A história econômica e ambiental do Brasil nos últimos quinhentos anos deixou muito clara a opção do país pelo desenvolvimento econômico a qualquer custo – o meio ambiente, como sempre, é quem paga a maior parte da fatura (vide foto). Se você, caro leitor, avaliar como andam os “estoques” de biomas do Brasil, vai perceber rapidamente que nos restaram apenas, ainda em boas condições, os biomas Pantanal e Amazônia – se destruirmos estes biomas para saciar o apetite do mercado internacional por soja, milho, carnes, suco de laranja, alumínio e minério de ferro, não vai sobrar muita coisa para a nossa gente e também para as futuras gerações. 

E sempre que escrevo falando da importância do desenvolvimento das Hidrovias nos rios da Amazônia, me preocupo em ver esse modal de transportes sendo utilizado como ferramenta para a transformação da Floresta Amazônica em campos agricultáveis e em pastos. O Ciclo da Borracha já provou que é possível gerar muita riqueza na Amazônia sem precisar destruir a Floresta. 

 Ainda voltaremos a esse assunto.

 

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