O AMAZONAS ESPANHOL DE PEDRO DE URSÚA E LOPE DE AGUIRRE

Marañon de las Amazonas

Na postagem anterior apresentamos a primeira grande expedição espanhola que atravessou a Floresta Amazônica desde a Cordilheira dos Andes até a foz do rio Amazonas no Oceano Atlântico. Sob o comando de Gonzalo Pizarro e de Francisco de Orellana, partiram de Lima em 1541 mais de duzentos espanhóis, quatro mil índios, milhares de cavalos e suprimentos para meses de viagem. O objetivo era encontrar a lendária cidade de ouro dos indígenas – El Dorado. Dezenove meses depois, já em 1543, a expedição estava reduzida a 26 sobreviventes maltrapilhos e esfomeados, que conseguiram chegar ao Oceano Atlântico sem encontrar nem uma pepita de ouro. 

Uma segunda expedição espanhola, comandada por Pedro de Ursúa (1525-1561), partiu de Lima em fevereiro de 1559, ainda sonhando encontrar o El Dorado. Esta expedição enfrentou os mesmos problemas da anterior, mas ela fracassou justamente por reveses de outra natureza: traição e assassinato. 

Pedro de Ursúa não se parecia em nada com os brutais conquistadores da época. Era considerado gentil, educado, honrado, perfeito cavalheiro, possuidor de gentileza e caráter, adorado por todos, além de ser jovem. Mas, por outro lado, não tinha a capacidade de ver e entender o verdadeiro caráter das pessoas. Essa falha foi fatal para ele. Sua tropa era formada por homens rudes, mercenários de toda sorte, onde a ganância era a principal marca. Entre esses homens, um se destacava com todas as piores qualidades: Lope de Aguirre

Aguirre, que era basco, recebeu o apelido de “el lobo”. Os conquistadores espanhóis não depositavam muita confiança nos bascos, grupo que sempre se comportou a parte em relação aos demais grupos formadores da Espanha e parecia não se esforçar muito para todas “las glorias de España”. A língua basca é totalmente incompreensível aos ouvidos castelhanos – um antigo provérbio espanhol dizia: “Quando Deus quis castigar o Demônio, condenou-o a estudar basco durante sete anos.” Porém, a necessidade de homens e armas para levar “al fin y al cabo” a conquista da América, fazia com que os espanhóis fizessem vista grossa aos tipos de caráter dos mais duvidosos. 

A ficha corrida de Lope de Aguirre faria inveja a qualquer meliante de carreira, frequentador das páginas dos jornais e dos programas policiais: primeiro emprego – ladrão de túmulos; foi condenado diversas vezes por fraude; mercenário, lutou em muitas das batalhas pela conquista dos novos territórios; tomou várias cidades a força; foi condenado diversas vezes por crimes de toda ordem. Em uma destas condenações, levou cem chibatadas nas costas; sobre os ferimentos foi colocado sal – Aguirre ficou aleijado para sempre e jurou a todos que se vingaria. Em outra expedição contra índios, acabou também aleijado de uma das mãos. Era um tipo de pessoa que não se deveria ter por perto, mesmo num tempo tão duro como foi o início da conquista das Américas e da Amazônia. 

Uma expedição com um líder fraco e com homens tão terríveis, não poderia obter maiores êxitos. Ao longo de vários meses, motins de toda ordem levaram a uma sucessão de assassinatos, inclusive o de Pedro de Ursúa, morto na noite de ano novo de 1561. Mas do que a fome, os ataques de índios e toda a sorte de problemas que a floresta fosse capaz de produzir, o maior risco para este punhado de aventureiros espanhóis eram os próprios espanhóis – “a expedição não foi de geografia, mas de carnificina”, registrou um cronista da época. A aventura, agora comandada por Aguirre, terminou pouco mais de dois anos depois, com a expedição chegando primeiro ao Atlântico e depois até a Isla Margarida, na Venezuela. Há dúvidas históricas com relação ao ponto de chegada, se foi na foz do rio Amazonas ou do rio Orenoco, na Venezuela (há uma ligação natural entre as duas bacias hidrográficas – o canal de Casiquiare, que liga o rio Negro ao rio Orenoco); durante muito tempo os rios Amazonas e Negro foram chamados de Marañón. Uma pesquisa histórica detalhada do estudioso peruano Emiliano Jos, publicada em 1923 (e que, bem por acaso, eu tenho uma cópia), confirmou que a expedição seguiu até a foz do rio Amazonas: 

En consecuencia, terminaremos afirmando de acuerdo com todos los cronistas del viaje, y com todos los documentos a él referentes, y com el jefe de la expedición, y em contra de todos los fantaseadores sobre su trayectoria, que los “marañones” alcanzaron el mar por la boca del Amazonas”. 

Segundo as informações disponíveis, tanto a expedição de Francisco de Orellana quanto aquela de Lope de Aguirre, fizeram a descida dos rios da bacia Amazônica utilizando um tipo de embarcação espanhola conhecida como bergantim. Normalmente, esse tipo de embarcação se assemelhava a uma galé, porém em tamanho menor, com dois mastros e linhas de remos nas laterais. Essas expedições sempre contavam com carpinteiros com experiência em construção naval e com ferramentas, permitindo que se construíssem as embarcações com matéria prima da região quando se fizesse necessário. Segundo os registros das duas expedições que sobreviveram ao tempo, as embarcações foram construídas com o madeiramento das laterais mais elevados que o normal para proteger os ocupantes das flechas e ataques de índios hostis nas margens dos rios.  

Estimativas de peso das embarcações com carga e homens vão de 20 a 30 toneladas. Imaginar uma embarcação desse porte saindo do curso do rio Amazonas, onde navegava a favor da correnteza, e tomando o curso do rio Negro, subindo na força dos remos contra a correnteza em direção ao território da Venezuela é uma história mais difícil de aceitar como verdadeira do que a lenda do El Dorado

Sempre que encontravam uma oportunidade, esses homens atracavam as embarcações e se lançavam de assalto a aldeias indígenas menores, que encontravam em abundância ao longo das margens dos rios, buscando assim conseguir alimentos e suprimentos para sua sobrevivência. Foi durante esses embates com os índios que se batizou a região como Amazonas, quando os indígenas de cabelo comprido faziam lembrar as lendárias guerreiras amazonas da antiga mitologia grega, muito conhecida pelos espanhóis. As crônicas das expedições também falam das sereias encontradas nos rios, que de lenda não tinham nada: eram os peixes-boi amazônicos que, curiosos, emergiam ao lado das embarcações para conferir toda aquela movimentação em seus domínios aquáticos. 

Homens ignorantes, gananciosos, famintos e apavorados – fantasia e realidade se confundindo. Estavam preocupados apenas com a sobrevivência e sem qualquer motivação para sonhos de conquista desse território. 

Lope de Aguirre e seus homens, que sonhavam retornar ao Peru para conquistá-lo, participaram de levantes na Isla Margarida e depois no território da Nova Granada (Venezuela). As forças rebeldes acabaram subjugadas; Aguirre foi morto em combate; seu corpo foi recuperado pelos soldados coloniais, levado para a capital, esquartejado e os pedaços pendurados em locais diferentes para servir de exemplo (essa era uma prática comum – você deve lembrar que o mesmo foi feito com Tiradentes aqui no Brasil).  Nos mapas espanhóis, produzidos após a expedição de Pedro de Ursúa e Lope de Aguirre, o rio Amazonas passou a ser chamado de Marañón – em espanhol, a palavra traição é “maraña” e “marañón” significa traidor. Mesmo depois da incorporação de grande parte da Amazônia ao território do Brasil, um dos principais afluentes do rio Amazonas manteve o nome Marañon

Depois dessas duas expedições desastrosas através da grande Floresta Amazônica, com o custo de milhares de vidas e de muito dinheiro, as autoridades espanholas desistiram em definitivo de qualquer esforço de colonização da região. Foi a partir dessa decisão que surgiu um personagem que conquistaria a Amazônia para Portugal: Pedro Teixeira. 

Falaremos dele e de sua gloriosa expedição na próxima postagem

Para saber mais sobre a Amazônia e sua história: A NOSSA AMAZÔNIA

O AMAZONAS ESPANHOL DE FRANCISCO DE ORELLANA

El Dorado

Na última postagem, apresentamos uma descrição ultra mega compacta da formação da Cordilheira dos Andes, um evento geológico altamente complexo, que foi o principal responsável pela formação da grande bacia do rio Amazonas. Posteriormente, mudanças climáticas globais tornaram possível a formação da Floresta Amazônica. Milhões de anos após essa gênese equatorial, populações humanas começaram a chegar e a estabelecer assentamentos nas margens dos rios, nos altiplanos e nas montanhas andinas, em áreas isoladas das florestas e em planícies junto aos oceanos. Vamos enfocar a partir desta postagem num período histórico bem mais recente, que se deu a partir da chegada dos europeus ao continente Americano – a organização social e política regional que temos hoje na região é a herança mais evidente desse período. 

As primeiras expedições espanholas ao Novo Mundo, a partir de 1492, levaram os grandes navios direto para a região do Caribe, onde ilha após ilha, o mapa das novas terras foi sendo desenhado. Hispaniola, Cuba, Jamaica, pequenas e grandes Antilhas, até o desembarque no continente em terras da América Central. Já em 1513, Vasco Nuñes de Balboa (1475-1519) descobriu que através de um caminho terrestre não muito extenso no Panamá, se chegava ao Oceano Pacífico. Será nas cercanias deste caminho, quatro séculos mais tarde, que será construído o magnífico Canal do Panamá. Esse caminho era infinitamente mais curto que a longa rota para o Oceano Pacífico que seria encontrada por Fernão de Magalhães em 1520, atravessando o estreito que leva seu nome no extremo sul do continente. Mas a conquista do México e de todos os tesouros do império asteca por Fernando Cortês em 1520, desviou a atenção dos conquistadores desta descoberta. 

Ao longo dos anos posteriores, os espanhóis navegaram a partir do Panamá rumo ao sul do Pacífico, ampliando paulatinamente seus domínios. Foi através desta passagem pelo Panamá que partiu, em 1533, a expedição de Francisco Pizarro (1476-1541), o grande conquistador do Império Inca – 150 homens que, com muita traição e esperteza, realizaram uma das maiores proezas militares de todos os tempos. Os tesouros de Atahualpa foram tomados pelos espanhóis e Pizarro se transformou no Vice-Rei do Peru. A colonização espanhola nesta parte da Amazônia se concentrou neste pequeno trecho da costa do Oceano Pacífico. 

No Oceano Atlântico, as correntes e os ventos alísios trouxeram Cabral e sua frota de 13 navios diretamente para a faixa Leste do Brasil, interrompendo por 12 dias sua expedição para Calicute, na Índia. Ao partirem, o Anticiclone do Atlântico Sul empurrou suas caravelas diretamente para o extremo Sul da África de onde puderam seguir para o Oriente na direção do subcontinente indiano. O navio da frota que recebeu ordens para retornar a Portugal com as notícias sobre a descoberta (a famosa carta de Pêro Vaz de Caminha seguiu neste navio) fez exatamente este percurso até o largo da costa africana, virando a seguir para o Norte, acompanhando a corrente de Benguela e depois as correntes e ventos do Anticiclone dos Açores até chegar em Portugal. 

A concentração de colonizadores espanhóis no Caribe e costas do Oceano Pacífico, e de portugueses na faixa Leste do Brasil, foi extremamente benéfica para a região Amazônica, que ficou isolada, literalmente, por séculos. Talvez, se as condições de navegação fossem melhores, a Amazônia já teria sucumbido há mais tempo ao machado e ao fogo dos colonizadores, a exemplo da maior parte Mata Atlântica. Outro fator determinante a favor da Amazônia foi a grande concentração de florestas e de selvagens. Homens brancos ocidentais do início da Idade Moderna se julgavam muito acima da natureza – e podendo ficar longe dela, melhor; para o gosto desses homens já havia suficientes índios e matas nas faixas costeiras do Leste português e ouro e prata no Oeste espanhol – para que arrumar mais problema. Enquanto nada mais estimulante ou novas riquezas surgissem, esses colonizadores continuariam onde já haviam se estabelecido. 

Legalmente, o Amazonas era espanhol – o Tratado de Tordesillas assinado entre Portugal e Espanha indicava claramente sua localização na faixa de terras a Oeste daquela linha imaginária que dividiu o Novo Mundo. Pela falta de recursos técnicos na época para a localização geográfica precisa do Meridiano de Tordesillas, diferentes cartógrafos, portugueses e espanhóis, fizeram as suas projeções nos mapas – em todas essas projeções do Meridiano, a Amazônia sempre ficava no lado espanhol.  

A primeira expedição espanhola que se dispôs a se aventurar pela região Amazônica foi organizada por Francisco de Orellana (1490 – c. 1550). Orellana era espanhol de Trujillo, terra natal da família Pizarro, importante sobrenome na história da conquista da América, clã familiar ao qual ele próprio pertencia. Veio para a América com dezesseis anos. Sua ligação com os Pizarro foi muito importante – muitos destes ocupavam posições chave nos governos locais, especialmente no Panamá. 

Acompanhando o grande conquistador Francisco Pizarro, o jovem Francisco de Orellana, participou dos ataques a Lima, Trujillo e Cuzco. O jovem hidalgo conquistou muita honra e ouro, é claro – nobres espanhóis, na época, vinham para o Novo Mundo para conquistar riquezas. Numa destas batalhas, Francisco de Orellana perdeu um olho, que foi atingido por uma flecha indígena. 

Por volta de 1540, ocioso e dono de muitas posses, Francisco de Orellana ouviu falar de uma expedição que estava sendo organizada por Gonzalo, irmão caçula da família Pizarro. Esta expedição se dirigiria para o coração da Floresta Amazônica, do outro lado da Cordilheira dos Andes. Circulava entre os espanhóis o testemunho de vários índios, onde se descrevia a mítica história de um rei local, que nunca usava roupas: ele se vestia unicamente com ouro em pó. Todas as manhãs ele tinha seu corpo untado com óleo e recoberto com ouro em pó; ele tomava banho todas às noites em um lago para ‘limpar seu corpo’. Essa é a origem da lenda do El Dorado (vide imagem), que aparece em muitos registros da época. Veja um deles: 

“cierto rey que sin vestido 

em balsas iba por uma piscina a hacer oblación según 

el vido ungido todo bien de trementina 

y encima cuantidad de oro molido desde los bajos  

pies hasta la frente como rayo del sol resplandeciente.” 

Os espanhóis encontraram tantas riquezas na América e se deparam com tamanha grandiosidade nos impérios Asteca e Maia, que a ideia de um lago com fundo coberto de ouro em pó dos banhos desse rei fazia sentido e deve ter sido a mais encantadora das histórias do Peru. 

Histórias sobre o El Dorado já circulavam em todos os territórios espanhóis no Novo Mundo há alguns anos e muitos fidalgos tinham planos de encontrá-lo. Em 1529, Diego de Ordáz, militar que participou da conquista do México junto com Fernando Cortês e que realizou expedições exploratórias no Panamá e na Colômbia, solicitou o direito de explorar as terras míticas, que imaginava encontrar-se dentro dos atuais territórios da Colômbia e Venezuela. Sua expedição descobriu e explorou o rio Orenoco, mas não conseguiu encontrar o lendário El Dorado. Morreu em 1532 no naufrágio de sua nau quando a expedição iniciava o retorno para a Espanha. 

A expedição de Gonzalo Pizarro foi montada com tudo o que fosse necessário para conquistar o El Dorado: mais de duzentos espanhóis, quatro mil índios, milhares de cavalos e suprimentos para meses de viagem. Partiram de Lima em 1541 e, depois de alguns penosos meses de viagem, por entre pântanos, selvas e rios, a grande expedição se limitava a um punhado de homens famintos e desesperados. As doenças, a fome e a hostilidade das tribos indígenas da floresta (que não guardavam semelhança alguma com os civilizados Incas das montanhas e altiplanos dos Andes) destruíram o sonho espanhol. Orellana e Pizarro se desentendem.  

Francisco de Orellana e um pequeno grupo resolvem continuar seguindo os rios da região numa pequena flotilha de canoas, em direção ao Oceano Atlântico, que imaginavam não estar tão distante. Pizarro decidiu voltar para o Peru. Os dois grupos conseguiram atingir seus objetivos: Pizarro retornou a Quito com um grupo de cem homens esfarrapados e atormentados pela fome; Orellana atingiu o Oceano Atlântico depois de nove meses de penosa viagem correnteza abaixo; sua expedição estava reduzida a um grupo com vinte e seis homens. A grande expedição em busca do El Dorado durou dezenove meses, custou milhares de vidas e não encontrou nenhum ouro. 

Francisco de Orellana ainda conseguiu voltar para a Espanha e tudo fez para conseguir montar uma nova expedição para voltar a explorar o Rio Amazonas, cujo mérito ele e seu grupo tiveram de percorrer pela primeira vez desde próximo da nascente, nos Andes, até a foz no Oceano Atlântico; o alto custo, tanto material quanto em vidas humanas, enterrou momentaneamente o interesse espanhol pela região. 

Anos depois dessa trágica expedição, os espanhóis organizariam uma nova empreitada em busca das riquezas do El Dorado. Essa grandiosa expedição sairia de Lima em 1559, tendo no comando um nobre espanhol – Pedro de Ursúa, e passaria para a história como um sinônimo de traição, que em espanhol é chamada de maraña. Foi justamente essa traição a inspiração para o batismo de um dos principais afluentes do trecho inicial do rio Amazonas – o Marañón. 

Esse será o tema da nossa próxima postagem

A FORMAÇÃO DA CORDILHEIRA DOS ANDES E O SURGIMENTO DA BACIA AMAZÔNICA

Cordilheira dos Andes

Na última postagem falamos rapidamente do isolamento criado pela Cordilheira dos Andes, que divide vários países da América do Sul, literalmente, ao meio. Essa divisão dos territórios é mais evidente nos países que estão contidos na grande área ocupada pela Floresta Amazônica: Bolívia, Equador, Peru e Colômbia. A Venezuela, que também tem áreas dentro da Floresta Amazônica e da Cordilheira dos Andes, não sofre deste problema. Vamos falar um pouco sobre isso hoje. 

A Cordilheira dos Andes é uma das mais extensas cadeias montanhosas do mundo, se estendendo por quase 8 mil km desde a Terra do Fogo, no extremo Sul do continente, até o Norte da Colômbia, acompanhando toda a costa ocidental da América do Sul. A altitude média das montanhas é de 3.500 metros acima do nível do mar, com alguns picos chegando próximo dos 7 mil metros, como no caso do Aconcágua, na Argentina, que tem uma altitude de 6.962 metros. A largura média da Cordilheira é de 240 km, com alguns pontos na Bolívia e no Peru com largura de 600 km.

Atravessar a Cordilheira dos Andes de um lado até o outro nunca foi tarefa das mais fáceis desde de os tempos imemoriais. Mesmo nos dias atuais, quando dispomos de uma avançada tecnologia para a construção de rodovias, ferrovias e de veículos automotores, são relativamente poucos os trechos que permitem a travessia da Cordilheira dos Andes. Essa dificuldade, conforme comentamos anteriormente, divide os povos destes países – comunidades que vivem na Amazônia Peruana ou Colombiana, por exemplo, estão mais próximas de comunidades brasileiras da Floresta Amazônica do que dos seus conterrâneos nos altiplanos andinos ou nas cidades ao longo da costa do Oceano Pacífico.

A elevação das montanhas que formam a Cordilheira dos Andes foi a principal responsável pela formação dos rios da grande bacia Amazônica e, posteriormente, pela formação da própria Floresta Amazônica. Para entendermos as forças envolvidas na formação de uma cadeia montanhosa tão extensa, precisamos falar rapidamente da fragmentação do antigo supercontinente de Gondwana

Sem entrarmos em maiores detalhes, a América do Sul, a África, a Índia, a ilha de Madagascar, a Austrália, a Antártida, a Nova Zelândia, a Nova Guiné e a Nova Caledônia, entre outras ilhas menores, formavam, em um passado distante, um único supercontinente conhecido como Gondwana. Há cerca de 160 milhões, o movimento das placas tectônicas, também conhecido como Tectônica Global, começou um processo de fragmentação e movimentação das partes deste supercontinente, formando a configuração atual dos continentes do nosso Planeta Terra.

O nosso continente, a América do Sul, é formado por uma grande placa tectônica conhecida como Placa Sul-Americana. Para que você entenda o que é uma placa tectônica peço que imagine uma grande jangada flutuando sobre a água – uma placa tectônica tem um comportamento similar a esta jangada, porém, trata-se de um gigantesco bloco de rocha flutuando sobre o magma, uma camada de rochas derretidas, com temperaturas acima do 1.500° C, que envolve o núcleo do Planeta.

Toda a superfície do Planeta é formada por placas tectônicas – são 15 placas principais e 40 sub-placas menores (as famosas Ilhas Malvinas estão sobre uma sub-placa). Quando teve início o processo de fragmentação e separação de Gondwana, a Placa Sul-americana começou a se separar lentamente da Placa Africana – a velocidade desta separação é de, aproximadamente, 3 cm a cada ano

O avanço da Placa Sul-Americana rumo ao Oeste não aconteceu livremente – conforme a América do Sul foi sendo empurrada pelas forças geológicas que a separaram da África, o grande bloco continental foi de encontro às placas tectônicas que estão do outro lado – a Placa de Nazca e a Placa do Pacífico. E foi justamente o choque desses blocos de rochas o que originou a Cordilheira dos Andes. A Placa Sul-Americana avançou sobre as bordas das Placas de Nazca e do Pacífico, o que provocou a elevação dos terrenos e a formação das montanhas dos Andes. Estudos geológicos indicam que esse evento teve início há cerca de 40 milhões de anos e o soerguimento dos terrenos foi concluído em “apenas” 4 milhões de anos. 

E o que tudo isso tem a ver com os rios da bacia Amazônica? 

Antes do “nascimento” da Cordilheira dos Andes, toda a região norte da América do Sul era uma extensa planície. Em alguns trechos, as águas do Oceano Atlântico (que era bem menor do que nos dias atuais) invadiam as terras e avançavam pelo continente. Os rios que haviam se formado até então corriam no sentido Oeste. Conforme os terrenos da região onde encontramos atualmente a Cordilheira dos Andes começaram a ser soerguidos, ou seja, foram sendo elevados pelo choque entre as Placas tectônicas, houve primeiro uma interrupção no fluxo das águas para o Oeste e um lento e gradual refluxo no sentido Leste. 

O choque das Placas tectônicas, além de elevar os terrenos, também acabou provocando uma intensa atividade vulcânica ao longo de toda a costa Oeste da América do Sul, região que até hoje se encontra dentro do chamado Círculo de Fogo do Oceano Pacífico. A erupção contínua dos vulcões e a liberação sistemática de lava, rochas e materiais piroclásticos, contribuiu fortemente para a formação das grandes montanhas Andinas – muitos desses vulcões estão ativos até os nossos dias. 

Alguns dos principais rios formadores da bacia Amazônica com nascentes nos Andes, surgiram junto com a formação da grande cadeia montanhosa. Muitas das nascentes desses rios têm origem no degelo das neves e geleiras que se formam nas grandes altitudes. Estima-se que o rio Amazonas, ou curso original daquele que seria este rio, se formou há aproximadamente 16 milhões de anos. Esse rio corria inicialmente na direção de um grande lago que se formou numa depressão no centro da região onde encontramos a Floresta Amazônica.

Foram necessários 6 milhões de anos para que as águas desse lago lentamente começassem a fluir na direção do Oceano Atlântico, quando a grande calha do rio Amazonas foi se consolidando e lentamente se transformando no ponto central de drenagem de toda a bacia hidrográfica. Entre 6 e 10 milhões de anos atrás, a formação geológica da Cordilheira dos Andes se estabilizou e, desde então, vem mantendo as mesmas características geológicas. 

Sem a formação da Cordilheira dos Andes e das mudanças nos cursos dos rios para o Leste por ela provocados, toda a região Norte da América do Sul não teria passado de um gigantesco brejo de águas doces, invadidos periodicamente pelas águas do Oceano Atlântico. Não teríamos a maior parte da vida vegetal e animal que se desenvolveu na região – a própria Floresta Amazônica talvez não existisse (pelo menos como a conhecemos hoje). 

As características físicas e climáticas da bacia Amazônica acabaram resultando, em eras bem mais recentes, num processo de colonização por tribos indígenas que se adaptaram ao meio ambiente local. Esses povos passaram a basear seu estilo de vida, de alimentação, de colheita extrativista e produção agrícola, religioso e familiar no ciclo das águas e nos ritmos da Floresta Amazônica. Outros povos, que se instalaram nas regiões das montanhas e nos altiplanos andinos, desenvolveram culturas e modos de vidas completamente diferentes.  

Com o processo de colonização das Américas, quando povos da Europa e da África passaram a migrar para nossas terras, aqueles que se dirigiram para a região Amazônica acabaram por absorver os costumes e as tradições dos indígenas da Floresta. Mesmo divididos pelas fronteiras artificiais entre os diferentes países, todos os habitantes da bacia Amazônica têm estilos de vida e hábitos muito próximos.  

Das bordas da Cordilheira dos Andes até as costas do Oceano Atlântico, a vida na Floresta Amazônica é praticamente a mesma – e os preciosos rios estão no centro de tudo. 

JULIO ARAÑA, O REI DO RIO PUTUMAYO

Rio Putumayo

O rio Putumayo, que no trecho final dentro do território brasileiro recebe o nome de rio Içá, é um dos grandes afluentes formadores do rio Solimões. O Putumayo nasce nos contrafortes orientais da Cordilheira dos Andes, numa região conhecida como Nudo de Los Pastos, na Colômbia. O rio tem aproximadamente 1.800 km de extensão (algumas fontes falam de 1.650 km) e ao longo do seu curso ele faz a divisa entre a Colômbia e o Equador, e depois entre a Colômbia e o Peru. Os principais rios formadores do Putumayo são GuamúezSan Miguel, e Igara Paraná. O nome Putumayo é de origem quechua, uma importante língua indígena andina, e significa algo como “rio das vasilhas”, numa referência a uma fruta de casca dura, que os indígenas usavam para fazer vasilhas, algo semelhante às nossas cabaças. 

O rio Putumayo é navegável em praticamente toda a sua extensão, sendo uma importante via de transportes e comunicação para as populações das regiões Amazônicas do Equador, Peru e Colômbia, além de permitir a comunicação por via fluvial com a Amazônia brasileira. A Cordilheira dos Andes, uma imponente cadeia montanhosa que se estende por toda a face oeste da América do Sul desde a Terra do Fogo até o Norte da Colômbia, é um divisor natural entre as populações que vivem na costa do Oceano Pacífico e aquelas que vivem a Leste da Cordilheira – no nosso caso, as populações da Floresta Amazônica. Para essas regiões ao Leste da Cordilheira dos Andes, a navegação pelos rios da bacia Amazônica é uma importante atividade social e econômica, pois lhes permite uma saída para o Oceano Atlântico, em condições muito superiores às saídas existentes para o Oceano Pacífico em seus respectivos países. 

É praticamente impossível falarmos de regiões da Floresta Amazônica nos países vizinhos sem entrarmos novamente no Ciclo da Borracha. Conforme comentamos inúmeras vezes em postagens anteriores, a seringueira, cujo nome científico é Hevea brasiliensis, é uma árvore nativa da Amazônia e, não custa lembrar, a grande Floresta se distribui entre Brasil, Bolívia, Peru, Equador, Colômbia, Venezuela, Suriname, Guiana e Guiana Francesa. Como mais de 60% da Floresta Amazônica se encontra em território brasileiro, nosso país teve todas as condições naturais para se tornar o maior produtor mundial de látex; porém, nossos vizinhos também partilharam, em maior ou menor grau, das riquezas e das tragédias sociais geradas pela exploração, processamento e exportação do látex. No caso da região do rio Putumayo, é impossível falar desses problemas sem lembrar de um personagem sui generis: Julio Araña. 

Julio César Araña del Águilamuito provavelmente, é um ilustre desconhecido para a maioria dos leitores – porém, nos áureos tempos do Ciclo da Borracha, o empreendedor e depois político peruano comandou um gigantesco império gomífero com uma área do tamanho da Bélgica. Em 1907, para que todos tenham uma ideia do tamanho de seu patrimônio, Julio Araña registrou sua empresa em Londres, a Companhia Peruana da Amazônia, onde declarou um patrimônio de 1 milhão de libras esterlinas. A empresa tinha a sua sede em Iquitos, no Peru, e diversas associações com empresas da Europa

Com o passar dos anos, Julio Araña foi estendendo os seus domínios para toda a região da bacia hidrográfica do rio Putumayo, incorporando seringais na Colômbia e no Equador. Uma das alcunhas “conquistadas” por Julio Araña ao longo dos anos foi a de “el rey del Putomayo” – ele foi, provavelmente, o maior produtor individual de látex da Amazônia. Por questões de “civilidade”, Araña enviou sua esposa e filhos para viver no Sul da França, onde professores ingleses poderiam proporcionar uma “melhor” educação para os seus herdeiros. 

Uma característica da exploração do látex em terras brasileiras, fato que teve enormes repercussões após a publicação dos relatos de Euclides da Cunha durante a Comissão Mista Brasileiro-Peruana de Reconhecimento do Alto Purus, realizada entre 1904 e 1905, foram as observações acerca do regime de semi escravidão imposto aos trabalhadores pelos seringalistas. No caso do Império de Julio Araña, a exploração do látex era feita por indígenas escravizados – a famosa foto que ilustra esta postagem, publicada por um jornal em 1913, mostra alguns dos seus “trabalhadores” indígenas acorrentados. As péssimas condições de vida nos seringais e as jornadas de trabalho extenuantes para se conseguir atingir as cotas de produção de látex custaram, segundo algumas fontes, a vida de 30 mil indígenas (é possível que o número de mortos tenha sido bem maior). Segundo alguns cálculos feitos por historiadores, isso significa que, para cada jogo de quatro pneus fabricado a partir do látex produzido nos seringais de Julio Arana, um indígena morreu

Jornais do Peru, da Colômbia e do Equador começaram a receber inúmeras denúncias sobre a tortura e a morte de trabalhadores, estupro sistemático de mulheres indígenas nos seringais e das condições de vida absolutamente insuportáveis nos centros de produção de Julio Araña. Reportagens investigativas se multiplicaram, acompanhadas de editoriais cheios de denúncias e com provas irrefutáveis de tudo o que acontecia dentro do Império de Julio Araña. “Inexplicavelmente”, nenhuma denúncia contra ele ou contra as suas empresas jamais conseguia prosperar dentro no Peru. 

Foi somente no final de 1912, depois de intensa pressão internacional, que o Congresso peruano decidiu instalar um Comitê Parlamentar para investir a procedência das acusações contra Julio ArañaEsse comitê teve duração de seis meses – Julio Araña negou ter conhecimento de qualquer uma das acusações e colocou a culpa de eventuais ocorrências em seus funcionários, afirmando inclusive que esses agiram por conta própria, sem que ele fosse consultado. De acordo com declarações registradas, Julio Araña alegou que suas empresas “estavam ajudando a civilizar regiões do interior da Floresta Amazônica”. Por “falta de provas”, o Governo do Peru não processou o empreendedor. O Governo britânico tentou abrir processos judiciais internacionais contra Julio Araña, inclusive pressionando o Brasil e os Estados Unidos a colaborar nas causas – com o início da Primeira Guerra Mundial em 1914, o assunto acabou sendo deixado de lado. As empresas de Julio Araña mantiveram as suas operações até 1920. 

Julio Araña conseguiu se manter impunemente no mundo dos negócios até 1932, quando conflitos armados entre a Colômbia e o Peru pela disputa de fronteiras fez com que ele perdesse a maior parte de suas terras, indo à falência. O destino, porém, sorriu mais uma vez para Julio Araña – com o prestígio dos tempos de Rei do Putumayo e de sua enorme popularidade, conseguiu se eleger como senador, vivendo tranquilamente com a “imunidade parlamentar” até sua confortável morte aos 88 anos, em 1952. Qualquer semelhança com políticos brasileiros na atualidade não é mera coincidência – tratam-se de estruturas políticas e econômicas criadas em toda a América Latina para proteger e favorecer as classes ricas e poderosas.

Assim como ocorreu em regiões seringalistas na Amazônia brasileira, as antigas terras e populações produtoras de látex no Peru, Equador e Colômbia ao longo das margens do rio Putumayo, nada receberam na partilha do quinhão de riquezas criadas pelo Ciclo da Borracha. São regiões extremamente pobres e carentes de recursos, sem infraestrutura e com serviços de saúde e educação dos mais rudimentares. Suas maiores riquezas são as matas e os seus rios. 

É um quadro social e econômico que se repete com uma grande frequência por todos os confins da Amazônia – a única coisa que muda é o idioma usado pelas populações…  

 

A POLÊMICA CONSTRUÇÃO DA USINA HIDRELÉTRICA DE BELO MONTE

Usina Hidrelétrica de Belo Monte

O rio Xingu nasce no Estado de Mato Grosso, entre as Serras do Roncador e Formosa, percorrendo uma extensão de quase 2 mil km até desaguar no rio Amazonas, no Pará. Os principais formadores do Xingu são os rios Ferro, Batovi e Culuene. O rio Xingu ganhou notoriedade nacional após a Expedição Roncador-Xingu, iniciada em 1943, e que, entre outras grandes realizações, culminou com a criação do Parque Indígena do Xingu em 1961. Aliás, foram justamente as notícias sobre o Parque Indígena, tanto as boas quanto as más, que mantiveram o rio Xingu em evidência durante décadas. Nos últimos anos, infelizmente, temos assistido a uma avalanche de más notícias vindas do rio Xingu, a maioria referente aos problemas sociais e ambientais criados após a construção da Usina Hidrelétrica de Belo Monte. 

A construção de usinas hidrelétricas no rio Xingu é um projeto antigo, que vem sendo gestado desde a época dos Governos Militares (1964-1985). Naqueles tempos difíceis, o mundo estava completamente polarizado, com as forças do chamado Mundo Livre, liderado pelos Estados Unidos, em “luta constante” contra as forças do Comunismo, sob o comando da Rússia – que seria, dentro da retórica ideológica da época, uma espécie de “Lado Negro da Força”. Um dos mantras repetidos pelos militares brasileiros no período dizia que “forças estrangeiras queriam internacionalizar a Amazônia” – logo, para se evitar que isso acontecesse, era imperativo que o Brasil “ocupasse a Amazônia”. 

Essa conversa pode até parecer um capítulo da “Teoria da Conspiração”, mas na verdade, quando se analisa as ações dos Governos Militares, se tem a nítida impressão que algo estava mesmo acontecendo. Entre as grandes obras realizadas e/ou idealizadas no período encontramos a construção da Rodovia Transamazônica, a criação de diversos projetos de mineração como o de Carajás, no Pará, a construção de grandes usinas hidrelétricas nos rios da Amazônia, onde Tucuruí é o caso mais expressivo, além dos inúmeros projetos de distribuição de terras para agricultores sem-terra de outras regiões do país. Eu era garoto na época, mas lembro claramente do ufanismo nacionalista a cada nova mega obra anunciada ou concluída. 

No caso do Xingu, os planejadores do Governo Militar haviam criado o Projeto Kararaô, onde se planejava a construção de uma série de usinas hidrelétricas ao longo da calha do rio. Uma característica daqueles tempos duros era o chamado desenvolvimento a qualquer custo – sem a existência de leis ambientais ou de uma oposição forte no Congresso, o Governo fazia o que queria – uma autoridade “estrelada” passava o dedo em um mapa indicando o trajeto de uma nova rodovia e dizia: – Faça-se! Ninguém questionava a ordem e rapidamente máquinas e homens eram colocados a derrubar matas, mover morros, construir pontes e a expulsar qualquer um que estivesse no traçado a ser seguido por esta rodovia (fosse ele branco, índio ou quilombola). No caso do Projeto Kararaô, o fato de existirem áreas indígenas na região, era um “mero detalhe”. 

Felizmente, o Projeto Kararaô acabou engavetado e ficou esquecido por uns bons anos. Se tivesse sido realizado na época, teriam sido construídas 6 usinas hidrelétricas no Rio Xingu, o que teria provocado o alagamento de cerca de 20 mil km² e atingido áreas de 12 terras indígenas – dezenas de milhares de pessoas teriam sido expulsas de suas casas e propriedades rurais. Porém, o que os Governos Militares não fizeram acabou sendo implementado em parte por um governo civil em 2011, dentro do escopo do chamado PAC – Programa de Aceleração do Crescimento. A ideia de se construir uma usina hidrelétrica no rio Xingu foi tirada do papel e colocada em prática, agora com o nome de Usina Hidrelétrica de Belo Monte, no Estado do Pará. 

O projeto da Usina de Belo Monte é derivado de um remodelamento do Projeto Kararaô feito em 1994 pelo antigo Departamento Nacional de Águas e Energia Elétrica (que foi sucedido pela ANEEL – Agência Nacional de Energia Elétrica), projeto esse apresentado à Eletronorte. Após a criação e implantação de leis e políticas de proteção ao meio ambiente, foi necessário fazer uma série de ajustes nos planos iniciais, de forma a se reduzir os impactos ambientais e, assim, conquistar a simpatia de ambientalistas e investidores, particularmente os internacionais. A área que seria ocupada pelo lago da hidrelétrica, para citar um exemplo das mudanças, foi reduzida de 1.225 km² para “apenas” 500 km², mudança que evitaria a inundação de algumas áreas indígenas. 

Em 1996, a Eletrobrás pede autorização à ANEEL para iniciar os estudos técnicos complementares para verificar a viabilidade do aproveitamento energético das águas do rio Xingu em Belo Monte. Foi a partir da liberação desses estudos que teve início um confronto entre lideranças indígenas e ambientalistas contra autoridades do setor energético, onde cada um dos grupos procurava apresentar o seu lado da história. Não tardou para o impasse chegar ao MPF – Ministério Público Federal, ao Congresso Nacional e, depois ao STF – Supremo Tribunal Federal. Por decisão da Justiça, o licenciamento ambiental de Belo Monte teria de ter uma autorização do Congresso Nacional e ficar condicionado ao diálogo com as comunidades locais e as tribos indígenas da região. 

Em 2005, mesmo sem terem sido cumpridas as determinações do STF, um Decreto Legislativo foi aprovado no Congresso Federal, autorizando a construção da Usina Hidrelétrica de Belo Monte. Uma semana depois, um outro Decreto foi aprovado no Senado Federal, também autorizando o prosseguimento dos estudos da Hidrelétrica. Apesar de inúmeras irregularidades no processo de Estudos de Impacto ao Meio Ambiente e de protestos, nacionais e internacionais, de todo o tipo, o IBAMA – Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e Recursos Naturais Renováveis, liberou a LP – Licença Prévia, autorizando o início das obras da Usina Hidrelétrica de Belo Monte. Em 2011, após a realização de um “leilão”, o Consórcio Norte Energia venceu a disputa e iniciou a construção da Hidrelétrica, que entraria em operação comercial com a primeira turbina geradora já em 2016. 

De acordo com as projeções das autoridades do setor elétrico, quando a Usina Hidrelétrica de Belo Monte estiver em operação plena (atualmente, apenas metade das suas 24 turbinas estão em operação), a potência instalada será de mais de 11 mil megawatts, o que a colocaria na terceira posição entre as grandes hidrelétricas mundiais, ficando atrás de Três Gargantas, na China, e de Itaipu, usina binacional localizada na região Sul, na divisa do Brasil com o Paraguai. 

Esses números grandiosos escondem uma triste realidade – a construção de Belo Monte provocou o alagamento de uma área equivalente a 18 mil km², o suficiente para encobrir doze vezes a área total da cidade de São Paulo. Inúmeros estudos ambientais independentes mostram que os impactos ambientais foram subestimados e que inúmeras espécies de plantas, peixes e outros animais correm sérios riscos, além de todo o sistema hidrológico da região ter sido comprometido, impactando na vida de milhares de ribeirinhos que dependem da navegação e transporte de cargas através das águas do rio Xingu

Mas o lado realmente “negro” da construção de Belo Monte vem sendo desvendado paulatinamente pelas investigações que estão sendo feitas pela Justiça Federal – a realização das obras de construção da Usina foi direcionada para um grupo específico de empreiteiras, com o objetivo explícito de pagar contrapartidas financeiras em função do apoio eleitoral a políticos de alguns partidos. Muita sujeira já veio à tona e muito mais coisas ainda vão aparecer. 

Quanto ao rio Xingu e aos povos que vivem ao longo de suas margens, eles que arquem com as consequências sozinhos… 

Aparentemente, é assim que pensam muitas das nossas “otoridades”. 

A EXPEDIÇÃO RONCADOR-XINGU E AS DESCOBERTAS NO SUL DA AMAZÔNIA

Expedição Roncador Xingu

O Xingu é o último dos grandes rios da margem direita do rio Amazonas e, na sequência das postagens que estamos publicando sobre a navegação hidroviária na grande bacia Amazônica, ele seria o próximo da lista. Entretanto, a história da conquista do Xingu é tão rica e complexa, que exige que se fale um pouco dela antes de nos atermos especificamente ao rio e as suas águas. Vamos lá: 

Ao longo de mais de quatro séculos de história, a maior parte da população brasileira habitou em áreas litorâneas com “vista para o mar” ou, para sermos mais precisos, ao longo de uma faixa costeira com talvez 500 km de largura. Uma das poucas grandes cidades que fugia a esta regra é Manaus, que está distante cerca de 1.300 km do Oceano Atlântico, mas que tem à sua frente uma imensidão de águas doces muito parecidas com um mar. Cidades localizadas em pontos mais distantes da costa como Cuiabá e a Goiás Velho, sempre sofreram com o isolamento e com as dificuldades de comunicação com o resto do país. 

As coisas só começariam a mudar a partir do final do século XIX, quando o Exército Brasileiro passou a desenvolver trabalhos para a instalação de linhas telegráficas e a construir estradas nos confins dos sertões. Um dos nomes de maior destaque desse período foi o militar e sertanista Candido Rondon (1865-1958), que a partir de 1892 começou a trabalhar nas regiões de Goiás, Mato Grosso e Território do Guaporé, mais tarde batizado como Estado de Rondônia em sua homenagem. Os trabalhos pioneiros de Rondon e de sua equipe ajudaram a abrir muitos dos caminhos para o interior do país, um trabalho monumental, mas que deixou muitos vazios desses sertões ainda a serem descobertos – o Sul da Amazônia era um destes “vazios”. 

Em 1943, já no Governo de Getúlio Vargas, foi criada uma expedição que desbravaria uma parte importante dos sertões da região Norte e que abriria as primeiras portas para o contato com inúmeras tribos indígenas isoladas e desconhecidas da Amazônia – falamos da Expedição Roncador-Xingu (a foto mostra um dos grupos de expedicionários), um marco na antropologia e na etnografia brasileira até hoje. A expedição foi gestada num momento onde se vivia a política da “Marcha para o Oeste“, quando o Governo Federal passou a criar incentivos para a migração de colonos e trabalhadores rurais rumo às terras desabitadas do interior do Brasil. E olhem que não estamos falando de nada tão distante assim – a região Oeste do Estado de São Paulo, muito pouco habitada na época, era um dos destinos desta ocupação pioneira. 

O nome escolhido para chefiar a expedição foi o do Coronel Flaviano de Mattos Vanique, um militar de carreira do tipo “linha dura”, que recrutou um grupo com cerca de quarenta sertanistas do Mato Grosso. O perfil ideal para a escolha destes sertanistas era “quanto mais analfabeto, melhor”. Dentro da mentalidade do Coronel Flaviano, analfabetos trabalhavam mais e não perdiam tempo fazendo questionamentos. Esse “perfil” de expedicionário sem educação formal criou uma série de problemas para alguns irmãos paulistas, oriundos da classe média alta e com um alto nível educacional: Orlando, Cláudio e Leonardo Villas-Bôas. 

Bem vestidos, barbeados e demonstrando modos refinados, os irmãos Villas-Bôas foram prontamente descartados pelo Coronel Flaviano quando tentaram ingressar na Expedição Roncador-Xingu. Obcecados com a ideia de explorar uma das regiões mais distantes e isoladas do Brasil, os Villas-Bôas não desistiram: passados alguns meses da dispensa, eles se reapresentaram barbudos, malvestidos, envergonhados e mostrando um comportamento típico dos matutos dos sertões – foi assim que conseguiram entrar para a tão sonhada Expedição. 

Trabalhando inicialmente em atividades braçais, que iam desde os trabalhos em hortas e de construção, os Villas-Bôas rapidamente foram ganhando a confiança dos líderes da Expedição e passaram a ocupar postos cada vez mais importantes dentro do grupo. Em 1949, já sob o comando de Orlando Villas-Bôas, o mais velho dos irmãos, a Expedição atingiu o Alto rio Xingu e faz contato com dezessete tribos isoladas da região. Percebendo rapidamente os problemas e as consequências que o choque cultural que seria criado após o encontro entre os “brancos” (a cor tem um significado diferente aqui, o de “civilizado”) e indígenas, Orlando Villas-Bôas propõe uma mudança drástica nos objetivos da Expedição: ao invés de criar núcleos de povoamento para colonos e agricultores, ele decide desenvolver trabalhos para a manutenção da integridade dos territórios e da cultura indígena nas terras do Alto rio Xingu. 

As ideias e os trabalhos dos irmãos Villas-Bôas repercutiram fortemente nos meios acadêmicos e políticos do Brasil ao longo dos anos. Em 1961, no Governo do Presidente Jânio Quadros, com apoio do antropólogo Darcy Ribeiro, que trabalhava na época para o Serviço de Proteção ao Índio, foi criado o Parque Nacional Indígena do Xingu, nome mudado depois para Parque Indígena do Xingu. O Parque foi a primeira área indígena homologada pelo Governo Federal. O Marechal Cândido Mariano da Silva Rondon, falecido em 1958, foi um dos maiores apoiadores, apesar de ter algumas divergências, do projeto dos irmãos Villas-Bôas para a criação da área indígena do Xingu. Aqui é importante comentar que Rondon era de origem indígena e que foi o mais importante estudioso e registrador das etnias indígenas do Brasil no início do século XX. Esse seu trabalho foi fundamental para a criação do Serviço de Proteção aos Índios em 1910.

A criação do Parque Indígena do Xingu visava tanto a preservação das comunidades e culturas dos povos indígenas, quanto a preservação ambiental de uma extensa área da Amazônia. Localizado no Norte do Estado do Mato Grosso, o Parque é formado por uma área de 27 mil km², numa região de transição entre o Cerrado e a Floresta Amazônica. O rio Xingu, o principal curso d’água que atravessa a área, acabou dando nome ao Parque Indígena. Além do Xingu, o Parque conta com inúmeros dos seus afluentes: Kulene, Tanguro, Kurisevo, Ronuro, Suiá, Miçu, Maritsauá, Auiá Miçu, Uaiá Miçu e Jarina

Apesar do status de Área de Preservação, o Parque Indígena do Xingu sofreu inúmeras invasões predatórias de fazendeiros, garimpeiros, pescadores e grileiros ao longo dos anos, e até hoje continua sendo um alvo da cobiça do agronegócio – muita gente acha um verdadeiro desperdício ver uma área tão grande e tão rica ocupada por uma população de pouco mais de 6 mil índios de 16 etnias diferentes. Se você tiver a curiosidade de visualizar o Parque Indígena do Xingu através de algum programa de fotografias via satélite, vai perceber que a área é uma espécie de ilha verde cercada de plantações por todos os lados. 

A agressão mais recente sofrida pelas terras indígenas na região do Parque Indígena do Xingu foi resultado do enchimento do lago da Usina Hidrelétrica de Belo Monte, no Pará, que alagou parte dos territórios. Vamos falar deste e de outros problemas na nossa próxima postagem. 

E para encerrar: após mais de 24 anos de trabalho, grande parte sob o comando dos irmãos Villas-Bôas, a Expedição Roncador–Xingu resultou na criação de mais de 40 cidades e 16 campos de pouso em regiões longínquas do Brasil, além é claro da criação do Parque Indígena do Xingu

NAVEGANDO PELOS RIOS TAPAJÓS, TELES PIRES E JURUENA

Alter do Chão

O rio Tapajós nasce no Norte do Estado do Mato Grosso e se forma a partir da confluência dos rios Juruena e Teles Pires (que recebe o nome de São Manuel em alguns mapas antigos). Com um percurso total de pouco mais de 800 km de extensão, o rio Tapajós pode ser definido como um “anão” Amazônico. A natureza, porém, foi generosa com o Tapajós e para compensar a sua pequena (em termos Amazônicos) extensão, colocou nas proximidades de sua foz aquela que é considerada a praia fluvial mais bonita do mundo: Alter do Chão (vide foto). 

Alter do Chão é uma vila de pescadores, que é chamada por todos que a visitam de o “Caribe da Amazônia“. Com praias de areias finas e águas claras e quentes, é, de longe, a maior atração turística de Santarém, uma importante cidade do Estado do Pará as margens do rio Amazonas, distante cerca de 30 km. A melhor época para se visitar este cenário tropical paradisíaco é entre os meses de agosto e dezembro, quando o nível do rio diminui e os bancos de areia e as praias ficam à vista, mostrando todo o esplendor das margens do rio Tapajós. Um outro cenário que não pode ficar fora do roteiro dos turistas é o encontro das águas cristalinas do rio Tapajós com as águas barrentas do rio Amazonas. Aqui vale uma informação adicional – o Tapajós é o único afluente do rio Amazonas com águas totalmente cristalinas. 

O rio Tapajós é navegável desde a foz no rio Amazonas até a região de São Luís do Tapajós, numa extensão total de 280 km. Desde trecho a montante, o rio se apresenta com corredeiras, afloramentos rochosos e cachoeiras, obstáculos naturais para o avanço da navegação e que só poderão ser superados com obras de infraestrutura. 

É bastante provável que você, neste momento, esteja mais interessado em saber mais sobre as praias de Alter do Chão e muito pouco preocupado com a navegação pelo rio Tapajós. Entretanto, para milhares de produtores de soja do Estado de Mato Grosso, a ampliação das possibilidades de navegação no rio, especialmente para o transporte de cargas, é fundamental. Vários rios importantes de Mato Grosso correm na direção do rio Tapajós e poderão, num futuro próximo, se transformar em importantes hidrovias para o escoamento da produção agrícola, especialmente da soja. Destacam-se nessa lista os rios Teles Pires, que em mapas mais antigos aparece com o nome de São Manoel, e Juruena. 

O rio Teles Pires tem aproximadamente 1.400 km de extensão, com nascentes na Serra de Paranatinga, no Centro-Sul do Estado de Mato Grosso. O rio corre rumo ao Norte, ladeado por imensas plantações de soja, milho e algodão, além de extensas áreas de pastagens, até se juntar como o rio Juruena para formar o rio Tapajós. A navegação é possível em alguns trechos intercalados, porém, a existência de inúmeros obstáculos naturais impedem uma integração com o rio Tapajós. 

Existem planos para a construção de uma série de usinas hidrelétricas ao longo do rio Teles Pires que, uma vez concluídas, permitirão a navegação integrada com o rio Tapajós, formando uma importante hidrovia. Uma destas usinas hidrelétricas, a de São Manuel, já está em construção; em fase de estudos e de projeto temos as Usinas Hidrelétricas Magessi, Sinop, Colíder, Teles Pires e Foz do Apiacás. Conforme já comentamos em postagem anterior, o licenciamento e a construção de barragens de usinas hidrelétricas, especialmente na região da Amazônia, é extremamente complexo e problemático, envolvendo problemas que vão desde o bloqueio da migração dos peixes de piracema até o alagamento de terras dentro de reservas indígenas. É preciso encontrar um difícil ponto de equilíbrio entre os ganhos econômicos e o conforto gerado em nossas casas pelo uso da energia elétrica com os graves impactos sociais e ambientais criados com a formação das represas. 

As nascentes do rio Juruena ficam no Oeste do Mato Grosso, na Serra dos Parecis, no lado oposto às nascentes do rio Guaporé, sobre o qual falamos algumas postagens atrás. O rio, cheio de curvas e meandros em seu alto curso, percorre uma distância total de mais de 1.200 km, recebendo contribuições de inúmeros tributários e se transformando em um curso d’água caudaloso. 

Estimativas de entidades ruralistas de Mato Grosso, estimam que o rio Juruena tem potencial para o transporte de mais de 38 milhões de toneladas de soja e 31 milhões de toneladas de milho; no rio Teles Pires, o potencial para o transporte de cargas é ainda maior: o volume de soja pode superar o total de 53 milhões de toneladas e o de milho 43 milhões de toneladas. De acordo com as entidades ruralistas, a criação de uma infraestrutura hidroviária completa nos rios Teles Pires, Juruena e Tapajós, possibilitaria o escoamento de parte considerável da produção de grãos do Mato Grosso através dos portos de Santarém e Vila do Conde, com uma redução de 50% no custo do frete. Serão necessários muitos estudos técnicos e inúmeros relatórios de impactos ao meio ambiente até que isso se torne uma realidade. 

O trecho do baixo rio Tapajós tem uma extensão de aproximadamente 320 km, indo desde a cachoeira de São Luís, até a foz no rio Amazonas. No trecho final, com aproximadamente 100 km, o rio Tapajós se abre, formando um grande estuário, onde a distância entre as margens pode atingir 20 km. Esta região possui inúmeras ilhas cobertas por densa vegetação. Conforme vai se aproximando de sua foz, o rio Tapajós vai formando um canal afunilado, que atinge uma largura de aproximadamente 1,1 km nas proximidades de Santarém – a turbulência gerada pelas águas neste trecho pode formar ondas de até 40 centímetros. 

No trecho que já conta com transporte de cargas no rio Tapajós, estão autorizadas as operações com comboios de barcaças com até 210 metros de comprimento e 32 metros de largura, além de 3 metros de calado. O volume total de cargas nesses comboios é de 900 toneladas. Nos trechos navegáveis isolados do rio Teles Pires, os comboios de cargas são um pouco menores, com até 210 metros de comprimento e 21 metros de largura, além de um calado de 3 metros. O porto da cidade de Itaituba, no Sudoeste do Pará, é o ponto de embarque dos carregamentos de grãos vindos de regiões do interior paraense e de Mato Grosso. As Rodovias BR-320, a famosa Rodovia Transamazônica, e a BR-163, mais conhecida como Cuiabá-Santarém, são as principais ligações rodoviárias com o Porto de Itaituba. 

As primeiras povoações às margens do rio Tapajós datam de meados do século XVII, quando os portugueses buscavam garantir a hegemonia na região, que pertencia à Coroa de Espanha pelo Tratado de Tordesillas. Mas foi apenas a partir de meados do século XIX, durante o Ciclo da Borracha, que as margens do Tapajós ganharam uma importância regional, conforme já tratamos em outras postagens. Em décadas mais recentes, as margens do rio Tapajós viraram notícia recorrente nos meios de comunicação devido aos garimpos ilegais de ouro e aos desmatamentos nas áreas mais próximas da Rodovia Transamazônica, eixo de transportes criado ainda nos tempos do Regime Militar e que trouxe centenas de milhares de migrantes para o Pará, sob a promessa de terras e de uma nova vida – “uma terra sem homens, para homens sem-terra”, dizia um dos slogans da época. 

Entre corte de árvores, queimadas, avanço da agricultura e da pecuária, invasão de terras indígenas, conflitos agrários entre fazendeiros e posseiros, entre problemas, esperemos que a futura estruturação da Hidrovia Tapajós/Teles Pires/Juruena traga boas novas para a região. 

UM PARADIGMA HISTÓRICO: A EXPLORAÇÃO DO LÁTEX E A PRESERVAÇÃO DA FLORESTA AMAZÔNICA

Queimadas na Amazônia

Ao longo de uma extensa lista de postagens, onde temos tratado da importância da navegação fluvial nos rios da região Amazônica, falamos de forma recorrente do Ciclo da Borracha na região (1870-1913), sempre relembrando a cruel exploração do trabalho dos seringueiros, forçados a uma vida muito próxima da escravidão. Existe, porém, uma “terrível” ironia histórica nesse ciclo econômico: a exploração, processamento e exportação do látex, que chegou a representar o equivalente a 25% de todas as exportações brasileiras, se desenrolou ao longo de quase meio século, com um nível de destruição da Floresta Amazônica muito próximo de ZERO

Todos os chamados Ciclos Econômicos vividos por nosso país, desde os tempos da Colônia, foram construídos em cima das “cinzas” de algum dos nossos ecossistemas – essa é uma linha de pesquisa com a qual trabalho há muito tempo. Vejam os exemplos: 

Ciclo do Açúcar: A primeira grande atividade econômica realizada em larga escala em nossas terras nos séculos XVI e XVII e que resultou na destruição de, praticamente, todo o trecho da Mata Atlântica na Região Nordeste do Brasil. As matas foram queimadas implacavelmente para a formação dos campos agricultáveis – os imensos coqueirais que encontramos atualmente ao longo de toda a orla do litoral do Nordeste são testemunhas vivas daqueles tempos: o coco é uma planta trazida do Sudeste Asiático, que encontrou um ambiente próspero para “colonização” nas terras devastadas pelos canaviais; 

Ciclo da Carne e do Couro: Os criadores de bois e suas boiadas foram expulsos das terras do litoral pelos poderosos Senhores das Casas Grandes – os esfomeados bois avançavam contra os doces e suculentos brotos de cana, comprometendo a produção do mais valioso produto do período – o açúcar. Nas terras do semiárido, pobres em campos e pastagens para a alimentação das boiadas, os criadores passaram a realizar queimadas nas áreas da caatinga, aumentando artificialmente as áreas de campo. Esta técnica primitiva permitiu a prosperidade artificial da atividade por longas décadas, porém gerando consequências altamente negativas para os sertões, que se tornaram cada vez mais áridos e com menor disponibilidade de água; 

Ciclo do Ouro: Em 1693, bandeirantes paulistas encontraram reservas consideráveis de ouro na Serra do Sabarabuçu, uma região que passou a ser chamada de Geraes, mais tarde – Minas Gerais. As notícias das descobertas auríferas cruzaram a Colônia, atraindo rapidamente imensos contingentes de aventureiros, que largando tudo o que tinham nas terras do litoral, especialmente na região açucareira do Nordeste, se embrenharam nos sertões em busca do cobiçado ouro. Um dos primeiros impactos dessa nova atividade econômica foi o despovoamento do litoral, que perdeu metade da sua população em um curto espaço de tempo – a produção do açúcar entrou em declínio rápido, entre outros fatores, por causa da falta de mão-de-obra. A busca alucinante pelo ouro levou, primeiro, a uma derrubada sistemática das matas ciliares, de galeria e das veredas, onde os mineradores escavavam os barrancos em busca dos veios minerais; depois foi iniciada a derrubada das matas para o fornecimento de lenha para as forjas e para a abertura de campos para agricultura e pecuária; 

Ciclo do Café: As reservas auríferas da Região das Minas Gerais se esgotaram no final do século XVIII, levando muita gente à ruína. Enquanto muitos tentavam refazer suas vidas nos sertões das Geraes, um produto agrícola muito conhecido e apreciado nas fazendas brasileiras começava a ganhar adeptos na Europa e nos Estados Unidos, criando um novo e monumental mercado exportador para o Brasil – o café. Originário do Leste da África, o café se espalhou e se adaptou muito rapidamente ao clima do Brasil. A planta se desenvolvia bem em áreas mais altas e de solos de grande fertilidade – as serras do Espírito Santo e do Norte Fluminense rapidamente se mostraram adequadas para o cultivo do café e importantes trechos ainda preservados da Mata Atlântica passaram a ser derrubados e queimados para o plantio da Coffea.  

As plantações rapidamente atingiram as cercanias da nova Capital da Colônia – o Rio de Janeiro: a região onde encontramos hoje a Floresta da Tijuca, na época abrigava imensos cafezais. O Vale do Rio Paraíba foi o caminho seguido pelos cafezais para entrar na Província de São Paulo. Sendo uma planta arbustiva de médio porte, os cafeeiros rapidamente esgotavam os solos desnudos das antigas áreas florestais da Mata Atlântica, que eram abandonadas e trocadas por novas terras recém desmatadas – esse avanço furioso dos cafezais, sistematicamente, foi dizimando as matas do Sudeste e, mais uma vez, foi deixando um rastro de “terras arrasadas”. 

O ciclo econômico que estamos vivendo em nossos dias, o do Brasil exportador de soja e de outras commodities, está seguindo com esse modelo de destruição sistemática de biomas e liberação de áreas para agricultura e pecuária. Podemos incluir nesta lista a destruição das áreas do Cerrado, que a partir da década de 1960, viu sucumbir grandes áreas nos Estados de São Paulo, Paraná, Minas Gerais, Bahia, Maranhão, Piauí, Tocantins, Goiás, Mato Grosso e Mato Grosso do Sul. Calcula-se que, aproximadamente, 50% da vegetação original do Cerrado sucumbiu diante do avanço das fronteiras agrícolas – em troca desta destruição, o Brasil se transformou em uma das maiores potencias do agronegócio do mundo. 

No Ciclo da Borracha, conforme já descrito, a exploração em larga escala do látex trouxe riqueza e prosperidade econômica para muita gente, sem que a Floresta Amazônica tivesse de ser derrubada e queimada – aliás, passados mais de cem anos desde a derrocada da indústria gomífera na Amazônia, são os avanços da soja e das boiadas os principais “motores” da destruição de áreas da floresta. O grande problema do Ciclo da Borracha foi o total esquecimento da área Social – dentro da moderna visão da Sustentabilidade, o Crescimento Econômico Sustentável é aquele que consegue compatibilizar o Crescimento Econômico, com o Desenvolvimento Social e a Preservação Ambiental – os aspectos Econômico, Social e Ambiental formam o famoso Tripé da Sustentabilidade. Na Amazônia da Borracha, o aspecto Social deixou muito a desejar… 

A história econômica e ambiental do Brasil nos últimos quinhentos anos deixou muito clara a opção do país pelo desenvolvimento econômico a qualquer custo – o meio ambiente, como sempre, é quem paga a maior parte da fatura (vide foto). Se você, caro leitor, avaliar como andam os “estoques” de biomas do Brasil, vai perceber rapidamente que nos restaram apenas, ainda em boas condições, os biomas Pantanal e Amazônia – se destruirmos estes biomas para saciar o apetite do mercado internacional por soja, milho, carnes, suco de laranja, alumínio e minério de ferro, não vai sobrar muita coisa para a nossa gente e também para as futuras gerações. 

E sempre que escrevo falando da importância do desenvolvimento das Hidrovias nos rios da Amazônia, me preocupo em ver esse modal de transportes sendo utilizado como ferramenta para a transformação da Floresta Amazônica em campos agricultáveis e em pastos. O Ciclo da Borracha já provou que é possível gerar muita riqueza na Amazônia sem precisar destruir a Floresta. 

 Ainda voltaremos a esse assunto.

 

RIO JURUÁ: DO OUTRO LADO DO ACRE

Rio Juruá

Finalizando as postagens sobre a navegação por hidrovias na Região Sudoeste da Amazônia, precisamos falar do Juruá, um outro grande desconhecido entre os inúmeros rios da grande bacia hidrográfica do Rio Amazonas. E olhem que quando uso o termo “grande desconhecido” ao falar do Juruá, estou falando de um rio com quase 3,3 mil km de extensão, com nascentes no Cerro das Mercês, no Peru, e foz no rio Solimões. Além de atravessar diversas províncias no país vizinho, o rio Juruá atravessa quatro municípios no Estado do Acre e mais sete no Amazonas

A navegação no rio Juruá não é das mais fáceis – ele é considerado o rio mais sinuoso da Amazônia e navegar por suas águas exige muita atenção dos comandantes das embarcações – bastam alguns minutos de desatenção e corre-se o risco de uma aproximação perigosa das “barrancas” do rio. Entre as cidades mais importantes atravessadas pelo rio destacam-se Cruzeiro do Sul, no Estado do Acre, com uma população próxima dos 80 mil habitantes, e Carauari e Eirunepé, ambas no Estado do Amazonas, com, respectivamente, 21 e 26 mil habitantes. Na maior parte do Brasil, cidades deste porte seriam consideradas pequenas – no meio da Floresta Amazônica, onde os rios são a principal via de comunicação e transportes de pessoas e de cargas, podemos considera-los aglomerados populacionais de bom tamanho. 

O formato do Estado do Acre, para quem já teve a curiosidade de consultar num atlas geográfico, tem o formato de um arco de caça antigo. Na metade mais ao sul deste arco, encontramos a capital do Estado, Rio Branco, e outras importantes cidades como Xapuri, Manoel Urbano, Sena Madureira, Assis Brasil, Brasileia e Porto Acre. Essa é a região mais densamente povoada do Estado e foi colonizada a partir da navegação pelo rio Purus e de afluentes como o rio Acre. A metade mais ao Norte do Estado é bem menos povoada e sempre foi interligada ao restante da Amazônia através da navegação pelo rio Juruá. 

A história da navegação no rio Juruá também está associada à exploração do látex a partir das últimas décadas do século XIX, porém desenvolvida de uma forma isolada do resto do território do Acre. Para que se tenha uma ideia do isolamento da região, a distância entre a cidade de Cruzeiro do Sul e Rio Branco é de aproximadamente 632 km, bem maior do que o trajeto entre as duas maiores cidades brasileiras – São Paulo e Belo Horizonte. O isolamento é tal que a nascente do rio Moa, na divisa com o Peru e considerado o ponto mais extremo do país na direção Oeste, fica a pouco mais de 150 km de Cruzeiro do Sul.  

Falando-se em termos Amazônicos, onde tudo é superlativo, essa distância pode até não parecer tão grande nos dias atuais, época em que dispomos de carros, ônibus e aviões. Até poucas décadas atrás, eram poucas as opções de ligação por terra entre as duas regiões do Estado do Acre – na região do vale do rio Juruá dentro do Estado da Amazônia, até hoje não há rodovias. A via fluvial continua sendo uma das principais alternativas de comunicação e transportes. Já houve época em que, para ir de um extremo do território até o outro, era preciso descer o rio Juruá até atingir o Solimões; depois, descer algumas centenas de quilômetros rio abaixo e entrar no rio Purus, subindo em direção ao Sul, até atingir a foz do rio Acre, a partir de onde era possível atingir as cidades mais importantes do território, inclusive a capital, Rio Branco. Sempre foi fácil continuar descendo o rio Solimões e chegar até a cidade de Manaus. 

O trecho navegável mais importante do rio Juruá fica entre a cidade de Cruzeiro do Sul e a foz no rio Solimões, que tem uma extensão total de mais de 2.450 km; entre a cidade de Eirunepé e a foz do Juruá, a distância navegável é de aproximadamente 1.650 km. No período das chuvas, com a alta do nível do rio, é possível seguir a navegação até a região de Taumaturgo de Azevedo, cerca de 330 km a montante de Cruzeiro do Sul. O rio Juruá, assim como outros rios da bacia Amazônica, pode ter grandes cheias: há um ano atrás, ele atingiu a profundidade recorde de 14,2 metros. Porém, devido aos bancos de areia, as profundidades mínimas em alguns trechos podem atingir 2 metros na época das chuvas, caindo para 1 metro no período da seca. Essas baixas profundidades limitam o calado das embarcações utilizadas no rio. 

Os comboios de carga que atendem a região de Cruzeiro do Sul são formados por barcaças com capacidade para até 1 mil toneladas; na época da seca, por razões de segurança, a carga fica limitada a 300 toneladas por barcaça. Pela intensa sinuosidade e falta de sinalização, a navegação noturna não é recomendada, o que faz com que o tempo de viagem de um comboio de carga pelo rio Juruá chegue a 14 dias. Outro seríssimo problema para a navegação no rio Juruá é a falta de terminais de carga e portos adequados para o atendimento das inúmeras comunidades ribeirinhas ao longo das margens.  

O embarque de pessoas e de cargas é feito na base do improviso, onde tábuas são estendidas entre as margens e as barcaças e “regatões”, e as pessoas são obrigadas a realizar verdadeiros malabarismos. Em várias ocasiões, eu tive a chance de acompanhar o embarque e o desembarque de cargas nesses portos improvisados – homens com fenomenal força física, equilibrando sacas de cereais e caixas de madeira na cabeça, enquanto sobem e descem trilhas em barrancos com mais de 10 metros de desnível. Em dias chuvosos, que são frequentes na Amazônia, além do perfeito equilíbrio, é preciso também fazer “mágica” para não cair. E as quedas, quando ocorrem, são simplesmente espetaculares…

A região Amazônica cobre uma área superior a 40% do território do Brasil, com uma população de apenas 25 milhões de habitantes espalhados por toda essa imensidão. Se você consultar um atlas geográfico, vai encontrar duas grandes cidades na região, Manaus e Belém, além de algumas centenas de cidades pequenas e médias espalhadas por todos os cantos. O que os mapas não costumam mostrar são as milhares de pequenas comunidade rurais espalhadas ao longos das margens dos inúmeros rios da bacia hidrográfica, muitas delas formadas por umas poucas dezenas de pessoas, normalmente com relações familiares entre elas. Esses pequenos núcleos habitacionais, em grande parte, foram formados ainda nos tempos do Ciclo da Borracha.  

Para essas pessoas simples destas comunidades das beiradas e dos barrancos (vide foto), a vida depende da navegação pelos rios da Amazônia, indo desde o escoamento das pequenas safras locais até o transporte de doentes para povoamentos com melhor infraestrutura. Sem contar com saneamento básico, luz elétrica e comodidades modernas das mais simples como cozinhar num fogão a gás, a vida destas comunidades é regulada pelos altos e baixos dos níveis dos rios. A perspectiva de estruturação de Hidrovias nos principais rios da Bacia Amazônica, muito além de atender as demandas de transporte de grandes volumes de cargas, tem um outro lado extremamente importante, que é o de atender com qualidade e regularidade essas pequenas comunidades espalhadas por todos os cantos da grande floresta. 

O vale do rio Juruá e suas populações ribeirinhas são exemplos do isolamento, naquele que é um dos lados mais distantes da Floresta Amazônica brasileira, rente as bordas da divisa com o Peru. As cidades e comunidades ribeirinhas da região precisam e merecem uma melhor infraestrutura de transportes, coisa que a eventual implantação de uma Hidrovia no rio Juruá poderá, com toda a certeza, proporcionar. 

Pelo menos é o todos nós esperamos…

ACRE: DOS SOLDADOS DA BORRACHA À HIDROVIA DO RIO PURUS

Balsa Gás em Rio Branco

Há cerca de vinte e cinco anos atrás, quando eu trabalhava na área de engenharia de produtos de uma empresa multinacional de telecomunicações, um amigo de trabalho, advogado da empresa, viajou até o Acre para finalizar algumas cláusulas de um contrato de fornecimento de equipamentos para o Governo daquele Estado. Entre as diversas conversas que manteve com as autoridades locais, esse amigo acabou fazendo uma certa amizade como Secretário Estadual de Educação. Numa conversa com esse Secretário, esse amigo recebeu um convite para assumir a reitoria de uma universidade local. Visivelmente interessado, ele começou a fazer perguntas sobre a vida no Estado, particularmente preocupado com a assistência médica, pois àquela altura ele tinha uma esposa e duas filhas muito pequenas. O Secretário informou que no Estado haviam dois excelentes hospitais – Varig e Vasp (as duas maiores empresas aéreas naqueles anos); ou seja, em caso de doença grave, o melhor rumo a se tomar era o do aeroporto de Rio Branco. Meu amigo, é claro, não aceitou a proposta de trabalho. 

Lembrei dessa antiga e verídica história para falar dos problemas de isolamento do Estado do Acre, que aliás já melhoraram bastante nesses últimos anos. Como já comentei em postagens anteriores, o Acre é o mais novo entre todos os Estados brasileiros, sendo originalmente um território da Bolívia, comprado pelo Governo brasileiro em 1903 a fim de se resolver os problemas relativos a uma verdadeira invasão de seringueiros brasileiros na época. 

O Acre tem uma área de 150 mil km², praticamente a mesma área do Ceará, Estado de origem de uma parte considerável dos seringueiros nordestinos recrutados a partir da década de 1870 para trabalhar na Floresta Amazônica. Com o final do chamado Ciclo da Borracha, esses seringueiros nordestinos acabaram abandonados à sua própria sorte e são os ancestrais de parte considerável da população acreana atual, que conta com pouco mais de 800 mil habitantes em todo o Estado (11 vezes menor que atual população do Ceará). 

Essa incrível e dramática epopeia desses seringueiros, por mais inacreditável que possa parecer, teve um segundo capítulo muito parecido ao longo da Segunda Guerra Mundial (1939-1945). Quem acompanhou as últimas postagens, vai se lembrar que a principal causa da decadência da exploração do látex na região da Floresta Amazônica foi o crescimento da produção dos seringais do Sudeste Asiático, plantados a partir de sementes da Hevea brasiliensis contrabandeadas por ingleses. Com o avanço de tropas do Império Japonês sobre territórios britânicos com o desenrolar da Grande Guerra, o fornecimento de látex para o esforço de guerra dos Países Aliados ficou comprometido. Mais uma vez, as seringueiras da Amazônia seriam “convocadas” para suprir o mercado mundial. 

O Governo brasileiro de então, criou um programa chamado “Os Soldados da Borracha“, que consistia na convocação de homens para o trabalho de coleta e processamento de látex nas selvas, algo bastante parecido com a convocação feita por seringalistas três gerações antes. Esses “Soldados” receberam inúmeras promessas de compensações por esse “patriótico” trabalho – calcula-se que cerca de 55 mil “Soldados da Borracha”, em sua maioria nordestinos, foram recrutados pelo Governo Federal e enviados para os confins da Amazônia a partir de 1942. O Território do Acre recebeu um grande contingente destes “Soldados”

Ao final da Grande Guerra, quando as fontes de produção de látex no Sudeste Asiático voltaram ao controle dos ingleses, os serviços dos “Soldados da Borracha” não se faziam mais necessários – assim como aconteceu décadas antes, as promessas não foram cumpridas e esses soldados foram largados à própria sorte no meio das matas. Quando morei em Rondônia, entre 2009 e 2010, conheci vários filhos e netos destes “Soldados da Borracha” e ouvi muitas histórias familiares sobre os dramas vividos nessa época. 

A isolada, esquecida e pouco valorizada população do Acre só passou a ter uma integração maior com o restante do Brasil a partir da abertura do trecho final da Rodovia Federal BR-364, que a partir da década de 1960 passou a ligar a cidade de Porto Velho, capital de Rondônia, a Rio Branco e outras cidades do Estado. O grande rio Purus, que ao lado de uma rede de rios locais como o Acre, sempre foram as artérias de transporte e comunicação do Território, passaria agora a partilhar cargas e pessoas com as rodovias. 

Infelizmente, o fim do isolamento do Acre é relativo – a travessia de caminhões, ônibus e automóveis pelo rio Madeira no trecho final da Rodovia ainda é feita através de balsas, operação que é suspensa nas épocas das grandes cheias do rio. Aliás, um extenso trecho da Rodovia BR-164 fica debaixo d’água durante esses períodos de cheia. Nesses períodos, a população passa a conviver com a falta de alimentos, produtos de consumo, gás de cozinha (a foto mostra uma balsa que passou a ser usada para o transporte deste produto pelo rio Purus) e combustíveis, além de não conseguir escoar a produção local. Um exemplo de produto acreano é a mandioca, cultura que responde por mais de 60% da produção agrícola do Estado – uma vez colhida, a mandioca tem uma determinada duração antes de começar a estragar. Outro ponto crítico é a geração de energia elétrica, que no Estado é produzida na maior parte em usinas termelétricas, que dependem de combustíveis vindos de outras regiões. 

É dentro desse contexto social e econômico que a implantação de uma Hidrovia no rio Purus vem a ser fundamental para o Acre. O rio Purus oferece excelentes condições naturais para navegação na maior parte do ano – nos últimos anos, porém, vem apresentando secas bem acima da média, o que só reforça a manutenção de uma alternativa de transportes por rodovia. Além da imperativa existência de um bom e confiável curso d’água, a criação de uma Hidrovia exige investimentos em portos e terminais de armazenamento, instalação de dispositivos de sinalização para uma navegação segura, inclusive noturna, além de investimentos em modais de transporte complementares – no Acre, estamos falando em rodovias pavimentadas. 

A dragagem de trechos assoreados e a manutenção de um canal de navegação também são fundamentais. Vários trechos do rio Purus e de importante rios da rede de afluentes no território do Acre, costumam apresentar profundidades inferiores a 2 metros em períodos de forte seca, exigindo cuidados na criação e manutenção de um canal de navegação com profundidade adequada para o tráfego de comboios de barcaças de carga. 

Estudos mostram que a estrutura fundiária do Acre é formada em sua imensa maioria por pequenas propriedades rurais onde se produz arroz, milho, feijão, mandioca e melancia. Uma parcela correspondente a 12% das propriedades rurais trabalha com culturas perenes como banana, café, pupunha, laranja, mamão, guaraná, tangerina, maracujá, abacate, entre outras espécies de frutas. A pecuária conta com mais de 2 milhões de cabeças de gado, divididos sua maior parte em rebanhos com menos de 100 cabeças por propriedade. A indústria no Estado está dando seus primeiros passos, com destaque para as áreas de processamento de alimentos e beneficiamento de madeiras. Observem que os produtos locais são todos de baixo valor agregado, dependendo muito de baixos custos de frete para serem competitivos em outras regiões – é justamente aqui que uma Hidrovia bem estruturada no rio Purus mostraria seu valor. 

Além do importante Purus, o Acre possui um outro rio que atende a outra metade do Estado e que também merece ser considerado para implantação de uma Hidrovia bem estruturada – falamos do rio Juruá, sobre o qual trataremos na próxima postagem.