VIDAS SECAS, OU A VIDA SEM ÁGUA

Sobradinho

No último mês de junho, escrevi uma série de postagens onde tratei dos grandes problemas ambientais enfrentados pelo nosso bom e velho rio São Francisco. Dentro desta série, destaco algumas postagens onde falei especificamente da construção da Barragem de Sobradinho e de todos os problemas que foram gerados para os moradores da área que foi alagada – algumas organizações calculam que mais de 70 mil pessoas tiveram de ser removidas. Estas postagens sobre Sobradinho se tornaram as mais acessadas deste blog nos últimos meses. 

Naquele mês de junho, o nível da represa de Sobradinho estava um pouco abaixo de 15% e os especialistas já falavam que aquele era o seu pior momento. Poucos dias depois, a CHESF – Companhia Hidrelétrica do rio São Francisco foi obrigada a reduzir a vazão da hidrelétrica para 650 m³/s, a menor de sua história, numa medida para evitar que a represa entrasse no chamado “volume morto”. A mesma medida foi estendida para a Hidrelétrica de Xingó, já na região do Baixo Rio São Francisco. Com a redução da vazão do rio São Francisco, os problemas de intrusão de água salgada (também chamada de “língua salina”) através da foz no Oceano Atlântico só fizeram aumentar e diversas cidades da região passaram a enfrentar dificuldades ainda maiores para o abastecimento das suas populações. A cidade de Piaçabuçu em Alagoas, para citar um exemplo, vive uma verdadeira epidemia de casos de hipertensão arterial na população devido ao fornecimento de água pelas redes públicas de abastecimento com altos níveis de sal. 

Os problemas não pararam por aí – no início deste mês de outubro, o reservatório de Sobradinho caiu para um volume útil de apenas 5% de sua capacidade total (vide foto) e a CHESF está operando com apenas duas das seis turbinas instaladas na hidrelétrica. Como as chuvas estão muito fracas na região das cabeceiras do rio São Francisco, os especialistas já estão trabalhando com a possibilidade de Sobradinho atingir o “volume morto” no final de outubro. A ANA – Agência Nacional de Águas, já autorizou uma nova diminuição da vazão da barragem, como forma de retardar os acontecimentos. O caso de Sobradinho está muito longe de ser um caso isolado – no Estado de Goiás, Serra da Mesa, a maior represa em capacidade de armazenamento do Brasil, está com apenas 8% de sua capacidade total. Diversas outras barragens de usinas hidrelétricas estão com baixos níveis de armazenamento e a ANEEL – Agência Nacional de Energia Elétrica, autorizou o aumento da bandeira tarifária para Vermelha Patamar 2 a partir do mês de novembro, o que vai significar a cobrança extra de R$ 5,00 para cada 100 kwh (quilowatt hora) consumido. 

No Estado do Rio Grande do Norte, 90% dos 167 municípios estão em situação de emergência; na Bahia, mais da metade dos municípios enfrentam o mesmo problema – são 227 municípios sofrendo com a seca, o que está afetando a vida de 5 milhões de baianos. Em Pernambuco, a situação também é grave: 7 em cada 10 municípios está sofrendo com a seca prolongada. 

Secas na Região Nordeste não são novidades para quem mora no semiárido –  a região está sujeita a ciclos de seca em intervalos regulares. Em intervalos maiores, acontecem secas generalizadas e de efeitos devastadores. Exemplos dessa anomalia climática aconteceram em 1915 no Ceará e em toda a região do semiárido em 1877 e 1932, as duas maiores crises até hoje registradas. Normalmente as secas, mesmo as mais extensas, ficam limitadas ao período de um ano, mas não é raro que esse desequilíbrio alcance um período maior, dois anos e até três, como aconteceu em 1877 e em 1932. Essa estiagem atual já entrou no seu sexto ano, o que é um recorde. 

Mas os eventos de falta de chuva e de secas não estão limitados apenas ao semiárido nordestino: entre 2014 e 2015, uma forte estiagem se abateu sobre o Estado de São Paulo e Sul de Minas Gerais – quem não se lembra do Sistema Cantareira entrando no “volume morto” e ameaçando o abastecimento de toda a população da Região Metropolitana de São Paulo. Depois foram intensificadas as estiagens no Espírito Santo, Goiás, Distrito Federal e região do Triângulo Mineiro. Também existem problemas de seca em regiões de Mato Grosso e Mato Grosso do Sul, que estão atrasando o plantio de várias culturas, especialmente a soja. Em Goiás e no Triângulo Mineiro, a seca poderá provocar uma forte quebra na safra do milho deste ano. 

No Distrito Federal, a seca prolongada forçou a adoção de um inédito sistema de racionamento de água já no final de 2016. No último dia 20 de outubro, a Adasa – Agência Reguladora de Águas do Distrito Federal liberou uma portaria em que autoriza a Caesb – Companhia de Saneamento do Distrito Federal a ampliar de 24 para 48 horas o racionamento de água em todas as cidades atendidas, tendo em vista que as chuvas não chegaram e os reservatórios não param de secar. A seca na região também está afetando as áreas de preservação natural – um forte incêndio no Parque Nacional da Chapada dos Veadeiros, que fica a pouco mais de 260 km de Brasília, consumiu mais de 68 mil hectares de mata nativa do Cerrado até ser controlado poucos dias atrás. 

Os problemas com a seca não se limitam apenas às fronteiras brasileiras – nos Estados Unidos, a forte seca no Estado da Califórnia, o mais populoso do país, está sendo seguido por intensos incêndios florestais que já destruíram mais de 1.500 residências, forçando mais de 20 mil pessoas a sair de suas casas e provocaram a morte de, pelo menos, 10 de pessoas – existem relatos de mais de 100 pessoas desaparecidas. Em regiões do Centro e Norte de Portugal e na região da Galícia, na Espanha, a forte seca resultou em inúmeros incêndios florestais, que deixaram um rastro de destruição e cerca de 40 mortos. Alguns meses atrás, regiões do sul da Espanha, da França, da Itália e dos Balcãs também sofreram com fortes incêndios florestais – o ponto em comum: as regiões passaram por períodos de forte estiagem. Se você começar a pesquisar, vai perceber que eventos semelhantes estão ocorrendo com uma frequência anormal em diferentes partes do mundo – a frequência das chuvas diminuiu muito em algumas regiões do planeta, o que está facilitando a ocorrência de incêndios florestais. 

Durante muito tempo, aqui neste blog, falamos bastantes dos problemas ligados ao abastecimento e tratamento da água, geração e tratamento de esgotos, águas pluviais e também da poluição dos rios, represas, lagos e de uma infinidade de outros corpos d’água. Vamos inverter o rumo das nossas postagens e passaremos a falar um pouco dos problemas associados à falta de água, um mal que está afetando cada vez mais gente a cada ano que passa e em lugares cada vez mais inusitados. 

Até o nosso próximo post

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