AS CHUVAS TORRENCIAIS NO ESTADO DO RIO DE JANEIRO

O Estado do Rio de Janeiro foi castigado por fortes chuvas nos últimos dias. Além da Região Metropolitana, foram atingidas as regiões da Baixada Fluminense, Serrana e, particularmente, o Litoral Sul. 

As cidades mais afetadas pelas chuvas foram o Rio de Janeiro, Duque de Caxias, Nova Iguaçu, Belford Roxo, Mesquita, Magé, Petrópolis, Teresópolis e Nova Friburgo. Angra dos Reis e Paraty, municípios do Litoral Sul que fazem parte da chamada Costa Verde, foram os mais fortemente atingidos. 

As cidades brasileiras, conforme já tratamos em inúmeras postagens aqui do blog, não estão preparadas para conviver com fortes chuvas. Existem algumas exceções, é claro, mas esse fato é praticamente uma regra geral. Além da falta de infraestrutura, os chamados sistemas de drenagem de águas pluviais, o problema é sempre agravado pela ocupação irregular de encostas de morros e margens de rios e córregos

Na Região Serrana do Rio de Janeiro, em cidades como Petrópolis, Teresópolis e Nova Friburgo, tragédias de escorregamentos de encostas em episódios de chuva forte são comuns, com centenas de casas destruídas e com inúmeros mortos e feridos. 

No quesito infraestrutura, as cidades costumam pecar muito no dimensionamento da drenagem de grandes volumes de águas pluviais. Os sistemas que realizam este tipo de trabalho começam com as sarjetas e o meio-fio das ruas, seguindo para os bueiros, caixas de passagem e tubulações. Grande parte dos bairros das cidades ou não tem esses dispositivos ou, quando existem, foram feitos com grande índice de improvisos. 

Nesse último episódio de fortes chuvas em terras fluminenses, a cidade de Angra dos Reis foi a mais fortemente castigada. De acordo com informações da Prefeitura, o volume acumulado de chuvas, que começaram a cair na sexta-feira dia 4, foi de impressionantes 324 mm nas primeiras 24 horas e de 357 mm em 48 horas. 

Para quem não conhece esse sistema de medição, falamos aqui da quantidade de águas de chuva que atinge uma área de 1 m² durante um certo período. Imagine uma caixa com arestas de 1 m (altura, largura e profundidade). Quando falamos de uma chuva com 324 mm, falamos que o volume de água acumulado nessa caixa atingiu uma altura de 324 mm, ou seja, 324 litros de água para cada metro quadrado da região. 

Em 2010, época em que trabalhei nas obras do sistema de coleta e tratamento de esgotos da cidade de Porto Velho em Rondônia, acompanhei estarrecido a chuva mais forte que já vi na minha vida. De acordo com a medição de um pluviômetro instalado no nosso canteiro de obras, foram mais de 145 mm de chuva forte e contínua ao longo de 6 horas. Em alguns momentos, a vibração da chuva no telhado do escritório nos dava a impressão de que um desmoronamento seria iminente. 

O volume dessa chuva que atingiu Angra dos Reis entre a última sexta-feira e o sábado foi bem mais que o dobro da chuva que vivi na Amazônia. Esse volume de água caindo sobre uma cidade em um espaço de tempo tão curto já teria um potencial de destruição fabuloso, mesmo que a cidade tivesse um sistema de controle de águas pluviais exemplar. 

Normalmente, episódios de chuva forte em nossas cidades apresentam volumes máximos da ordem de 50 mm. Quando circulamos pelas ruas e avenidas nesses momentos costumamos enxergar grandes enxurradas descendo pelas calhas das sarjetas, encontramos pontos de alagamento aqui e ali, e observamos também canais de drenagem e outros corpos d’água tendo seus volumes e níveis aumentando dramaticamente. 

Na minha cidade – São Paulo, que nem de longe está preparada para uma convivência com chuvas mais fortes, uma chuva dessas tem potencial para provocar um verdadeiro caos. São alagamentos nas áreas mais baixas, destelhamento e até desmoronamento de casas em áreas críticas, muito lixo espalhado por rua e avenidas, além de engarrafamentos monstruosos. 

Angra dos Reis e Paraty, cidades que são famosas pelo seu grande potencial turístico, com belos pontos históricos e fabulosas mansões ao longo da faixa costeira, também são famosas por bairros precários ocupando encostas de morros e com total falta de infraestrutura. Foram justamente esses bairros os mais atingidos pelas fortes chuvas. 

De acordo com informações da Defesa Civil Estadual, mais de 50 mil pessoas da região litorânea foram impactadas pelas fortíssimas chuvas. Desmoronamentos de casas e encostas de morros deixaram 17 mortos até o momento – 10 em Angra dos Reis e 7 em Paraty, deixando um rastro de destruição. Ruas, avenidas e canais de drenagem foram tomadas por lama e entulho, alagando rapidamente. Centenas de pessoas estão desabrigadas.

A rodovia BR 101, mais conhecida como Rio-Santos, teve 6 pontos de interdição por causa de desmoronamentos de encostas em Paraty, Angra dos Reis e Mangaratiba. Essa rodovia é um dos principais acessos às cidades atingidas, problema que complicou as operações de socorro aos afligidos pela chuva. 

Como é praxe em emergências, toda a máquina pública das cidades e do Governo estadual, além de órgãos do Governo Federal, são acionados e os mais diferentes tipos de esforços são colocados em campo para atender as vítimas. Abrigos de emergência são abertos, cestas básicas são distribuídas, programas de renda emergencial são criados, feridos recebem atendimento médico e os mortos são enterrados sob muita comoção. 

E, como sempre acontece, a vida pouco a pouco vai voltando ao normal, com as populações reconstruindo pouco a pouco as suas vidas. Governantes e autoridades, discretamente, também começam a desaparecer das áreas impactadas – todos procuram se poupar para voltar a aparecer em futuras e inevitáveis novas tragédias. 

Mais cedo ou mais tarde será necessário dar um basta nesse lamentável ciclo vicioso de uma tragédia sendo seguida por outra maior ainda. Saneamento básico e políticas habitacionais sérias precisam deixar de ser apenas planos mirabolantes em propostas de governo (que, milagrosamente, costumam se multiplicar nas campanhas eleitorais) para serem transformados em realizações públicas. 

A temporada de chuvas deste ano na região centro-sul do país está terminando, mas a próxima, inevitavelmente, vai chegar no final do ano. E como se repete ano após ano, as mesmas tragédias associadas as fortes chuvas vão voltar a acontecer, muitas vezes nos mesmos lugares. 

Hora de dar um basta em tudo isso!

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