
Quem acompanha os noticiários com alguma atenção deve ter reparado que a Groenlândia, grande ilha localizada a leste da costa do Canadá, vem sendo bastante comentada nos últimos quatro meses. De um lado, ouvem-se falas de Donald Trump, Presidente dos Estados Unidos da América, afirmando que vai anexar o território; de outro lado, dinamarqueses contra-atacando e reafirmando a sua soberania sobre a ilha.
A Groenlândia possui um território com cerca de 2,1 milhões de km², sendo considerada a maior ilha do mundo. Para efeito de comparação, isso equivale a soma dos territórios dos estados do Amazonas e da Bahia. De uma forma geral, os mapas apresentam a ilha com um território imenso, maior inclusive que o Brasil. Essa é uma distorção provocada pela técnica usada na confecção desses mapas – a projeção de Mercator. Na realidade, a Groenlândia tem uma área equivalente à da Arábia Saudita.
A ilha é um território autônomo do Reino da Dinamarca, país do qual depende financeiramente, e tem uma população de 57 mil habitantes. Cerca de 80% do território da Groenlândia é recoberto por um manto de gelo. O nome da ilha é de origem nórdica e foi dado pelos antigos navegadores vikings que lá aportaram por volta do ano 900 da nossa era. Em dinamarquês, o nome da ilha é Grønland, o que significa, literalmente, “terra verde”.
Para nós que vivemos em um país tropical, é bem fácil imaginar o momento em que o vigia da expedição de Pedro Álvares Cabral, em 1500, avistou o litoral da Bahia coberto por uma densa mata verde. Esse vigia poderia até ter gritado – “terra verde à vista!”
No caso da Groenlândia, tendemos a achar que um grito desses não teria sido possível à época do seu descobrimento. Todas as imagens que nos veem à cabeça quando pensamos nesse país estão repletas de esquimós, iglus, montanhas cobertas de gelo e mares coalhados de icebergs.
Por mais incrível que possa parecer, os primeiros nórdicos que avistaram o litoral da Groenlândia viram mesmo uma terra coberta de vegetação verde e, nada mais natural que batizar o lugar como “terra verde”.
De acordo com o Landnámabók, um livro medieval que narra as sagas dos vikings escandinavos, a Groenlândia teria sido avistada pela primeira vez pelo navegador Gunnbjörn Ulfsson no início do século X. No ano 978 de nossa era, Snæbjörn galti Hólmsteinsson partiu da Islândia com um pequeno grupo de colonizadores e se estabeleceu em Gunnbjarnar Skerries, um pequeno grupo de ilhas localizadas na costa groenlandesa.
Até o início do século XV, a Groenlândia manteve uma população nórdica pequena, porém estável, com números variando entre 2 mil e 10 mil habitantes, conforme a fonte. Estudos arqueológicos encontraram evidências de cerca de 620 fazendas na região sudoeste da ilha datadas do periodo. É importante citar que os nórdicos também criaram um assentamento em L’Anse aux Meadows, localizado na ilha de Terra Nova, no extremo nordeste do Canadá. Esse assentamento teve início por volta do ano 1021 e durou poucos anos.
Então, de uma hora para outra, todos os escandinavos abandonaram a Groenlândia, que voltou a ser povoada exclusivamente pelos inuit, os indígenas originais da ilha. Existem diversas explicações para essa fuga dos escandinavos da ilha, indo desde guerras com os inuits até a ocorrência de epidemias. A explicação mais plausível, entretanto, foi uma intensa mudança climática na ilha, o que derrubou drasticamente as temperaturas e tornou o lugar inóspito para nórdicos acostumados com a vida sob frio intenso.
Os climatologistas chamam esse fenômeno de Pequena Era Glacial ou Pequena Idade do Gelo. O evento ocorreu entre os séculos XIII e XVII – muitos autores afirmam que o período teve início no século XVI e se estendeu até o início do século XIX. Existem inúmeros relatos dramáticos das consequências do frio intenso nesse período.
Islândia e Finlândia, países localizados dentro da mesma faixa de latitudes da Groenlândia, perderam, respectivamente, um terço e metade de suas populações. O rio Tâmisa, cartão postal de Londres, congelou totalmente diversas vezes no periodo. O mesmo fenômeno passou a ocorrer nos rios da cidade de Nova York – alguns cronistas afirmam que era possível ir da ilha de Manhatan até Staten Island caminhando sobre a crosta de gelo.
O periodo também foi marcado por uma forte redução na oferta de alimentos – solos congelados são difíceis de arar e, quando o plantio das sementes era feito, as baixas temperaturas não permitiam o desenvolvimento adequado das plantas. A falta de pastos também afetava fortemente a criação de animais domésticos. Foi uma fase bastante complicada para as populações de diversas regiões do mundo.
Em nossos dias, tempos de mudanças climáticas e aumento das temperaturas em diversas regiões de nosso planeta, a Groenlândia está passando por fortes transformações e, literalmente, está voltando aos tempos em que foi batizada de “terra verde” pelos navegadores nórdicos.
Estudo realizado pelo pesquisador Michael Grimes e colaboradores, publicado na prestigiada revista científica Nature no início de 2024, mostra que as áreas cobertas por vegetação na Groenlândia dobraram e as áreas úmidas, especialmente os pântanos, quadruplicaram nos últimos 30 anos. A imagem que ilustra esta postagem mostra uma ”inusitada” paisagem groenlandesa de verão dos dias atuais.
Esse “esverdeamento” está ocorrendo em áreas da ilha próximas ao litoral, onde a tradicional camada de gelo desapareceu – foram cerca de 30 mil km² de perdas na calota de gelo, uma área um pouco maior que a do nosso Estado de Alagoas. O estudo também mostrou que o número médio anual de dias com temperaturas acima dos 6º C aumentou muito, o que favorece o crescimento da vegetação.
Apesar dessas mudanças no clima e na vegetação favorecerem de alguma forma as populações locais, que poderão passar a produzir localmente toda uma variedade de alimentos que hoje precisam ser importados, as notícias não são boas para o restante do planeta.
Os grandes volumes de água doce resultante do derretimento da capa de gelo corre na direção do oceano e já está provocando problemas visíveis, especialmente no aumento do nível do mar. Segundo um estudo de pesquisadores da Universidade de Washington e que foi publicado em 2018, a AMOC – Circulação Meridional do Atlântico, na sigla em inglês, que é mais conhecida como a Corrente do Golfo do México, está desacelerando, o que é o ponto mais importante.
Essa corrente de águas quentes se forma no Mar do Caribe e segue na direção das Ilhas Britânicas, seguindo depois nas direções da Islândia, da Escandinávia e do Polo Norte. A largura dessa corrente é de aproximadamente 90 km e sua velocidade é de 2 metros/segundo, o que resulta na movimentação de 20 milhões de m³ de água por segundo.
Segundo os especialistas, somente para citar um exemplo da importância dessas águas, é essa corrente marítima que torna o clima mais ameno na Irlanda e na Grã-bretanha. Sem as águas quentes da Corrente do Golfo, a vida de irlandeses, ingleses, escoceses e galeses seria muito mais difícil devido ao clima inóspito.
Sempre costumo lembrar do filme “O dia depois de amanhã”, lançado em 2004, para frisar a importância da AMOC. No enredo, a Corrente do Golfo deixa de fluir para o Norte, o que causa o início catastrófico de uma nova Era do Gelo ou período glacial no Hemisfério Norte. Uma das razões para a paralização da corrente marítima no filme foi justamente o degelo acelerado na Groenlândia.
Os “campos verdes” da Groenlândia parecem estar enchendo os olhos de norte-americanos e tirando o sono dos dinamarqueses. Para o resto do mundo, entretanto, a coisa está para um alerta “vermelho” de perigo…
Uma última informação – o mesmo processo de “esverdeamento” está em pleno desenvolvimento em algumas regiões da Antártida. Grandes problemas ambientais a vista!
