ILHA DO BANANAL PODERÁ DESAPARECER 

A Ilha do Bananal, localizada na divisa dos Estados de Tocantins e de Mato Grosso, é considerada a maior ilha fluvial do mundo. Com cerca de 20 mil km², essa ilha se encontra entre os rios Araguaia e Javaés. É classificada como reserva ambiental brasileira desde 1959, e como Reserva da Biosfera pela UNESCO – Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura, desde 1993.

Por mais incrível que possa parecer, essa ilha está desaparecendo! 

Afirmar que uma ilha do tamanho do Estado de Sergipe poderá desaparecer é algo que soa meio forte. Na verdade, é o território da ilha que em breve poderá deixar de ser cercado de águas por todos os lados, a classificação básica de qualquer ilha. 

No caso da Ilha do Bananal, o problema está no rio Javaés, um braço do rio Araguaia que vem perdendo caudais ao longo dos anos. O problema, na verdade, tem sua origem no rio Formoso, um afluente do rio Javaés que vem tendo suas águas cada vez mais exploradas pelos produtores agrícolas de Mato Grosso. 

A bacia hidrográfica do rio Formoso é tomada por grandes e médias propriedades rurais onde há uma forte utilização da água para irrigação de plantações. As principais culturas da região são o arroz e a soja, além de milho, feijão e melancias. 

De acordo com o IAC – Instituto de Atenção das Cidades, uma instituição formada por pesquisadores da UFT – Universidade Federal do Tocantins, a bacia hidrográfica do rio Formoso ocupa uma área de 22 mil km² e onde existem mais de 100 bombas hidráulicas instaladas pelos produtores rurais.  

De acordo com os pesquisadores, cada uma dessas bombas retira um volume de água entre 1,2 mil e 2 mil litros de água por segundo, uma captação equivalente ao consumo total da cidade de Palmas, capital do Tocantins. Com essa redução drástica da vazão, sobra muito pouca água para ser despejada na calha do rio Javaés. 

Sem os caudais do rio Formoso, a calha do rio Javaés vem ficando cada vez mais assoreada e com menos água. Com isso, o território do Bananal está deixando de ser uma ilha e está se integrando cada vez mais ao território do Mato Grosso. 

Do ponto de vista ambiental, ilhas costumam criar ambientes isolados onde diversas espécies de plantas e animais acabam evoluindo de maneira independente e desenvolvem características genéticas diferenciadas das espécies originais. 

Com o fim desse isolamento e com o acesso cada vez mais facilitado, espécies “continentais” acabam avançando e ocupando os antigos nichos ecológicos que antes estavam isolados. Isso acaba reduzindo a biodiversidade de espécies. 

Entre as espécies animais que tem seu refúgio na Ilha do Bananal podemos citar a onça-pintada (Panthera onca), o tamanduá-bandeira (Myrmecophaga tridactyla), o pato-corredor (Neochen jubata), o tatu-canastra (Priodontes maximus), o cervo-do-pantanal (Blastocerus dichotomus) e também o pica-pau-do-parnaíba (Celeus obrieni), uma espécie que ficou mais de 80 anos sem ser avistada. 

Na flora, a Ilha combina espécies do Cerrado e da Floresta Amazônica, o que forma um bioma com características únicas no mundo. Desde 1993, a Ilha do Bananal integra a lista de zonas úmidas de relevância internacional, classificada, assim, como um Sítio Ramsar, um tratado intergovernamental firmado em 1971. 

Do ponto de vista humano, essa integração territorial também acaba facilitando o acesso, o que, mais cedo ou mais tarde, vai levar à degradação ambiental. É importante citar que diversas comunidades indígenas ocupam o território da Ilha do Bananal há séculos – o “fim da ilha” poderá criar profundos impactos nessas comunidades. 

Depois de “feito o estrago”, autoridades de órgãos ambientais e da ANA – Agência Nacional de Águas, entre muitos outros, passaram a correr contra o tempo e estão buscando formas de regulamentar e disciplinar o uso das águas do rio Formoso. Entre as propostas estudadas está a cobrança pelo uso da água, uma medida que forçaria os produtores rurais a racionalizarem o uso desse insumo. 

Enquanto não se chega a uma solução, a Ilha do Bananal vai perdendo seu status de maior ilha fluvial do mundo e tendo a sua rica e exclusiva biodiversidade cada vez mais ameaçada… 

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