A “FLORESTA NUBLADA” DA COSTA RICA ESTÁ PERDENDO SUA NÉVOA 

Quando eu tinha dezessete ou dezoito anos de idade e ainda participava das atividades de um clube de escoteiros, lembro de ter participado de um acampamento na Região do Vale do Ribeira, no Sul do Estado de São Paulo. O local era uma grande fazenda com alojamentos completos em alvenaria. Para quem estava acostumado a acampar com pequenas barracas de lona no meio da mata, aquilo era um hotel 5 estrelas. 

Um detalhe dessa fazenda que nunca esqueci era um grande trecho de floresta de Mata Atlântica aparentemente intocado. O pessoal da fazenda chamava essa mata de Floresta das Begônias. Caminhando por diversas trilhas lá existentes, o visitante ficava encantado com a quantidade de begônias que encontrava. Segundo os donos do lugar, toda aquela vegetação era natural – nada foi plantado por mãos humanas. 

Agora imaginem, se, por alguma causa qualquer, essas plantas desaparecessem sem mais nem menos. Será que poderíamos continuar chamando aquela bela mata de Floresta das Begônias? 

Pois é mais ou menos isso que está acontecendo com a Floresta Nublada de Monteverde na Costa Rica. Suas matas, que até bem pouco tempo atrás, ficavam cobertas por uma densa névoa de nuvens baixas na maior parte do tempo, agora só apresentam alguma névoa de vez em quando. 

A Floresta Nublada fica na província de Puntarenas, a cerca de 140 km da capital da Costa Rica – São José. É uma reserva natural privada localizada a uma altitude de 1.400 metros acima do nível do mar e que ocupa uma área total de 14.200 hectares. Cerca de 100 espécies de mamíferos, 400 de aves e 1.200 espécies de anfíbios vivem nesse habitat. 

De acordo com informações do Centro de Pesquisa de Contaminação Ambiental da Universidade da Costa Rica, a formação do manto de nebulosidade na floresta ocorre quando a umidade do ar está acima dos 90% e as temperaturas estão entre os 14º e os 18º C. 

De acordo com os registros históricos, os dias completamente ensolarados na região da floresta mal chegavam a 30 dias por ano até alguns anos atrás. Atualmente, a média de dias ensolarados está na casa de 130 dias por ano. As temperaturas máximas estão superando os 26º C. 

De acordo com os guias mais velhos, era comum se percorrer as trilhas da mata ouvindo o gotejar da água que escorria das folhas da vegetação. O ar era fresco e as trilhas apresentavam muita umidade e a vegetação rasteira era encharcada de água. Atualmente, a mata está ficando cada vez mais quente e a vegetação seca estala sob os pés dos turistas. 

Como vem ocorrendo em diversas partes do mundo, a região de Puntarenas está ficando cada vez mais quente por causa das mudanças climáticas. Esse aumento das temperaturas está alterando completamente as características físicas da região, fazendo com que a tradicional camada de nuvens baixas diminua de ano para ano. 

Além de comprometer a famosa nebulosidade da floresta, o maior atrativo turístico do local e um charme todo especial que fascinava os visitantes, as mudanças ambientais aceleradas estão impactando a fauna e a flora local. Um exemplo é o que está acontecendo com a grossa camada de musgo verdejante que ocupava os troncos das árvores, uma característica de ambientes com altos níveis de umidade. Esse musgo está ficando cada vez mais seco. 

Entre os animais, as diversas espécies de anfíbios são as mais afetadas. Esses animais se reproduzem e vivem o ciclo inicial de suas vias dentro de ambientes aquáticos. Grande parte das espécies – especialmente as rãs, mesmo depois que passam a viver em terra dependem de uma proximidade com cursos e reservatórios de água. 

Com a elevação das temperaturas e a substancial redução da camada de névoa, antigos solos úmidos se tornaram secos e os cursos d’água tiveram uma grande redução dos seus caudais, problemas que impactam diretamente os anfíbios, além de afetar todas as demais espécies animais.  

Um exemplo desse drama é o sapo-dourado ou de Monteverde (Incilius periglenes), uma espécie nativa da região que foi considerada extinta em 2019, de acordo com a Lista Vermelha de Espécies Ameaçadas da União Internacional para a Conservação da Natureza. 

Por mais insignificante que um sapinho de uma floresta da América Central possa parecer para muita gente, qualquer espécie animal ou vegetal é um triunfo da evolução ao longo de milhares ou até mesmo milhões de anos. Essas espécies surgiram e se desenvolveram dentro de um meio ambiente único e seu desaparecimento vai causar desequilíbrios em toda a cadeia alimentar e na teia da vida local. 

Ao mesmo tempo em que o aumento das temperaturas na Floresta Nebulosa é fatal para muitas espécies da fauna e da flora locais, ele abre uma janela de oportunidades para espécies de outros biomas, que passam a migrar em massa e a ocupar nichos biológicos, o que acaba acelerando ainda mais o processo de extinção de espécies. 

Desgraçadamente, devido ao aumento das temperaturas se tratar de um fenômeno global, será virtualmente impossível conter o desaparecimento da Floresta Nebulosa de Monteverde. O que pode e deve ser feito, o mais rápido possível, será encontrar ambientes similares em outras regiões do país para tentar “transplantar” as espécies ameaçadas, numa tentativa de salvar os animais da extinção. 

Diversos outros biomas em todo o mundo ou já estão enfrentando problemas similares ou enfrentarão dentro em breve. Conforme apresentamos em uma postagem recente, os cientistas já estão percebendo que muitas espécies de insetos que vivem em regiões montanhosas estão mudando para locais mais frescos por causa das mudanças climáticas. 

Aqui é importante lembrar que nosso planeta enfrentou uma infinidade de mudanças em seu clima global e regional ao longo dos seus 4,5 bilhões de anos. Entretanto, todas essas mudanças ocorreram ao longo de grandes intervalos de tempo, o que permitiu que plantas e animais tivessem condições para se adaptar ou migrar gradualmente para outros biomas. 

O que estamos vendo atualmente, como apresentado no caso da Floresta Nebulosa de Monteverde, é que as mudanças climáticas estão ocorrendo dentro de períodos de poucos anos, o que reduz absurdamente as chances de adaptação das espécies animais e vegetais. 

Esse é o grande drama dos nossos dias e, com toda a certeza, assistiremos muitos episódios de tragédias ambientais como essa da Costa Rica ao longo de nossas vidas.

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