A DESTRUIÇÃO “SILENCIOSA” DA FLORESTA DO CONGO

Quem é um pouco mais velho deverá se lembrar de alguns antigos seriados de televisão que eram “ambientados” na África. Cito de memória Tarzan, Daktari e Jim das Selvas. Nos episódios, os protagonistas ora apareciam cruzando planícies de um verde quase infinito das savanas, ora estavam embrenhados em densas florestas ou ainda escalando escarpas de montanhas. Em todos esses ambientes era surpreendente o número de animais selvagens que eles encontravam. 

Diferente das paisagens que assistíamos nesses seriados, a África apresenta uma enorme diversidade de biomas, indo de desertos de areias escaldantes como em alguns trechos do Saara e do Kalahari, florestas equatoriais densas como a do Congo, savanas até cadeias de montanhas com os cumes cobertos por grandes geleiras. Apesar de toda essa diversidade, a imagem de florestas densas com o Tarzan pendurado em cipós é uma das mais fortes em nossa lembrança. 

A exemplo do que vem ocorrendo nos quatro cantos do mundo, as florestas da África estão sendo devastadas a uma velocidade impressionante. Um dos piores casos é o de Madagascar, a grande ilha localizada ao largo do Sudeste do continente. Estimativas afirmam que algo entre 85 e 90% da cobertura florestal original de Madagascar já foi destruída por ações humanas, especialmente para a criação de campos agrícolas. 

Um dos principais produtos agrícolas de Madagascar é o arroz, que é plantado em pequenos lotes com menos de 2 hectares. Esses lotes têm sua cobertura vegetal derrubada e queimada, numa prática conhecida pelos malgaxes como “tavy”, muito parecida com a coivara praticada por indígenas e caboclos brasileiros.  

Esses lotes produzem por um período máximo de 2 anos, quando então são abandonados para um período de “descanso” entre 4 e 6 anos. Passado esse período, o lote volta a ser plantado. Esse ciclo de uso da terra dos lotes pode ser repetido de 2 a 3 vezes, quando então a terra é abandonada por absoluta falta de fertilidade e novos trechos de matas nativas serão transformados em lotes agrícolas.   

Essa forma de agricultura primitiva é encontrada por todos os cantos da África e apresenta resultados devastadores para o meio ambiente: estudos indicam que cerca de 2/3 das terras agrícolas da África estão degradadas. Falaremos sobre isso numa próxima postagem. 

Um dos lugares onde esse tipo de devastação ambiental segue com força é na Floresta do Congo, a segunda maior floresta equatorial do mundo, que só perde em tamanho para a Floresta Amazônica. A Floresta do Congo se espalha entre a República Democrática do Congo, República do Congo, Guiné Equatorial, Gabão, Camarões e República Centro-Africana. 

A Floresta do Congo ocupa uma área total de mais de 2 milhões de km², o que equivale a quase metade da área do trecho brasileiro da Floresta Amazônica. Se incluirmos na conta alguns sistemas florestais de transição como savanas e florestas secundárias, a área total dessa Floresta aumentará para 3 milhões de km². 

Especialistas afirmam que a Floresta do Congo abriga um total de 10 mil espécies de plantas, sendo que 30% são exclusivas do bioma. Também é o habitat de uma infinidade de espécies de animais da fauna carismática (espécies que representam ecossistemas) como elefantes, girafas, chimpanzés e gorilas, entre muitas outras. Espalhados nessa extensa área vive um total de 75 milhões de pessoas pertencentes a, pelo menos, 150 etnias diferentes.   

Diferentemente do que ocorre com a Floresta Amazônica, cuja “destruição” é pauta diária de líderes internacionais, artistas e famosos em geral, a Floresta do Congo está sendo destruída “silenciosamente”. De acordo com estudos de pesquisadores norte-americanos, feitos mediante a análise de imagens de satélites entre 2000 e 2014, a Floresta do Congo perdeu uma área de 165 mil km2 no período. Isso corresponde a mais de 8% de sua área total ou uma área equivalente ao Estado do Ceará. 

Cerca de 80% dessa destruição silenciosa é feita pela força dos machados de pequenos agricultores, que abrem pequenas clareiras na mata para o plantio de suas culturas de subsistência. O Gabão, onde existe uma devastação mais mecanizada para a exploração da madeira, é a exceção. 

Uma outra ameaça à floresta é o cultivo da palma da Guiné ou dendezeiro, cujo fruto é a matéria prima para a produção do óleo de dendê. Grupos ambientalistas internacionais afirmam que mais de 2,6 milhões de hectares de matas da Floresta do Congo e de sistemas florestais vizinhos já foram transformados em áreas de cultivo da palma, especialmente na República do Congo e também na Serra Leoa e na Libéria. 

Os frutos dos dendezeiros são pequenos cocos com amêndoas ricas em óleo vegetal de altíssima qualidade. Uma das principais características desse óleo é a sua alta produtividade por hectare plantado, cerca de 10 vezes maior que a da soja, 4 vezes maior que o amendoim e 2 vezes maior que a do coco. 

O óleo de palma ou azeite de dendê responde por cerca de 35% de todos os óleos de origem vegetal produzidos no mundo, gerando negócios da ordem de US$ 40 bilhões a cada ano. Trata-se de um produto versátil, que pode estar presente em cerca da metade dos produtos vendidos em um supermercado, indo de alimentos a produtos de beleza.  

Uma das aplicações mais recentes do azeite de dendê e que fez o seu consumo explodir foi seu uso como biocombustível em motores a diesel. Felizmente, muitos países – especialmente da Europa, perceberam a insustentabilidade da produção do dendê e passaram a limitar seu uso como biocombustível. 

Também precisamos incluir na conta da destruição da Floresta do Gongo a mineração descontrolada, especialmente de coltan, um mineral com grande demanda pela indústria eletroeletrônica. Cerca de 75% das reservas mundiais desse mineral ficam dentro dos domínios dessa floresta, principalmente no território da República Democrática do Congo.  

A mineração no Congo é controlada por uma infinidade de grupos militares e paramilitares, que travam uma longa guerra civil há várias décadas. Esse conflito já matou perto de 6 milhões de pessoas, sendo que aproximadamente 4 milhões dessas mortes estão ligadas a disputas pelo controle de áreas de mineração. Entre os envolvidos estão políticos e funcionários públicos, militares das forças governamentais, líderes tribais, entre muitos outros.  

E toda essa devastação da Floresta do Congo está ocorrendo diante de um silencio ou até mesmo cumplicidade da comunidade internacional, que parece só se preocupar com as queimadas na Floresta Amazônica. 

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