UMA MÁ NOTÍCIA: SURGIRAM 3 MIL NOVAS LAGOAS NO PERU

O MINAM – Ministério do Meio Ambiente do Peru, divulgou uma notícia preocupante – surgiram cerca de 3 mil novas lagoas dentro do território do país, todas formadas a partir do derretimento e acúmulo de água de geleiras no alto das montanhas dos Andes. 

Segundo o relato da Vice-ministra do órgão, Yamina Silva, muitas dessas lagoas podem se transformar em uma ameaça para as populações que vivem em terras baixas do país. Segunda a Vice-ministra, “cerca de 500 representam um possível perigo de transbordamento por causa das mudanças climáticas“. 

De acordo com informações da ANA – Autoridade Nacional de Águas, o Peru tem 2.679 geleiras de altitude, que cobrem uma área total de 2 mil km2. Ao longo dos últimos 50 anos, essas geleiras sofreram uma perda de 51% da sua superfície, especialmente devido ao aumento das temperaturas em decorrência do aquecimento global

Um exemplo dessa situação é a montanha nevada Pastouri, uma importante atração turística do Parque Nacional Huascarán, no Norte do Peru. As geleiras dessa montanha, que tem cerca de 6.768 metros de altitude, já perderam metade de sua superfície. 

O Peru possui a maior cadeia montanhosa dentro da zona tropical, concentrando 71% de todas as geleiras dessa região climática do mundo. São no total 18 cadeias de montanhas nevadas onde existiam cerca de 8 mil lagoas e lagos como Titicaca. Como efeito das mudanças climáticas, o número de lagoas aumentou em quase 30%. 

Com um território com 1,28 milhão de km2 e com uma população de 33 milhões de habitantes, o Peru faz fronteira com os Estados brasileiros do Acre e do Amazonas. O país pode ser dividido de forma simplificada em três áreas distintas: uma estreita planície costeira árida a Oeste, a Cordilheira dos Andes na faixa central e a Floresta Amazônica a Leste. 

A Cordilheira dos Andes é uma das mais extensas cadeias montanhosas do mundo, se estendendo por quase 8 mil km desde a Terra do Fogo, no extremo Sul do continente, até o Norte da Colômbia, acompanhando toda a costa ocidental da América do Sul. A altitude média das montanhas é de 3.500 metros acima do nível do mar, com alguns picos chegando próximo dos 7 mil metros, como no caso do Aconcágua, na Argentina, que tem uma altitude de 6.962 metros. A largura média da Cordilheira é de 240 km, com alguns pontos na Bolívia e no Peru com largura de 600 km. 

Essa impressionante cadeia de montanhas se formou há cerca de 40 milhões devido ao choque de enormes placas tectônicas. Conforme a Placa Sul-americana foi sendo empurrada para o Leste pelas forças geológicas que a separaram da África, o grande bloco continental foi de encontro às placas tectônicas que estão do outro lado – a Placa de Nazca e a Placa do Pacífico. Esse choque levou ao soerguimento das montanhas andinas, um processo que se desenrolou em “apenas” 4 milhões de anos. 

Antes do “nascimento” da Cordilheira dos Andes, toda a região norte da América do Sul era uma extensa planície. Em alguns trechos, as águas do Oceano Atlântico (que era bem menor do que nos dias atuais) invadiam as terras e avançavam pelo continente. Os rios que haviam se formado até então corriam no sentido Oeste. Conforme os terrenos da região onde encontramos atualmente a Cordilheira dos Andes começaram a ser soerguidos, ou seja, foram sendo elevados pelo choque entre as Placas tectônicas, houve primeiro uma interrupção no fluxo das águas para o Oeste e um lento e gradual refluxo no sentido Leste.  

O choque das Placas Tectônicas, além de elevar os terrenos, também acabou provocando uma intensa atividade vulcânica ao longo de toda a costa Oeste da América do Sul, região que até hoje se encontra dentro do chamado Círculo de Fogo do Oceano Pacífico. A erupção contínua dos vulcões e a liberação sistemática de lava, rochas e materiais piroclásticos, contribuiu fortemente para a formação das grandes montanhas Andinas – muitos desses vulcões estão ativos até os nossos dias.  

A Cordilheira dos Andes também produziu importantes mudanças no clima da Região – grandes massas de nuvens formadas no Oceano Atlântico passaram a encontrar um grande obstáculo nessas montanhas e passaram a retornar na direção da Amazônia, criando uma forte temporada de chuvas e permitindo a formação de uma grande floresta equatorial. Parte dessas massas de nuvens passou a produzir precipitações de neve e chuva no alto das montanhas, criando assim grandes glaciares ou geleiras de altitude. 

Muitos dos rios da bacia Amazônica têm suas nascentes formadas pelo degelo das neves e geleiras das montanhas andinas – o rio Amazonas é um deles. Estima-se que esse rio, ou curso original daquele que seria este rio, se formou há aproximadamente 16 milhões de anos. Esse rio corria inicialmente na direção de um grande lago que se formou numa depressão no centro da região onde encontramos a Floresta Amazônica. 

As águas de degelo das montanhas andinas também são fundamentais para a faixa costeira do Peru, especialmente para a região de serras, formações de relevo com altitudes mais baixas que a Cordilheira dos Andes. Essa região concentra grande parte da agricultura e da população do país. A imensa maioria dos rios e riachos que atravessam essa região dependem do degelo dos glaciares. 

A perda gradual de massa das geleiras Andinas e de outras cadeias de montanhas em todo é uma enorme ameaça para o abastecimento de bilhões de pessoas em todo o mundo. Vou citar um único exemplo – o rio Ganges, no Sul da Ásia. Esse rio nasce nas montanhas da Cordilheira do Himalaia e atravessa todo o Norte da Índia e Bangladesh. Cerca de 400 milhões de pessoas dependem diretamente das suas águas. 

Com o aumento das temperaturas em todo o mundo por causa dos efeitos do aquecimento global, geleiras de altitude estão perdendo grande parte de suas massas, um fenômeno que ameaça diretamente as nascentes de grande e importantes rios. O que está se passando no Peru é apenas um prelúdio do que vai acontecer com outras grandes e importantes geleiras de montanhas em todo o mundo. 

Num primeiro momento, haverá um aumento dos caudais dos rios e de lagos devido ao aumento do degelo, o que está acontecendo hoje no Peru. Num segundo momento, com o esgotamento das reservas de água congelada nas montanhas, os caudais dos rios e o nível dos lagos vai começar a diminuir. Por fim, muita gente vai perder as suas fontes de abastecimento de água. 

Entre esses dois extremos, falamos de um intervalo de 50 anos ou de duas gerações. Ou seja – nossos filhos e netos herdarão um mundo bem diferente daquele que nós conhecemos hoje… 

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