MUDANÇAS CLIMÁTICAS PODERÃO ELEVAR AS TEMPERATURAS DO ORIENTE MÉDIO E DO MEDITERRÂNEO ORIENTAL EM 5° C

As chamadas Eras Glaciais, Glaciações ou Eras do Gelo são períodos marcados por uma redução natural das temperaturas em todo o planeta. Essas eras são marcadas por um grande avanço das camadas de gelo das áreas polares. A última dessas eras teve início há cerca de 21 mil anos e terminou há aproximadamente 11,5 mil anos. Esse evento mudou radicalmente o clima de muitas regiões.

Uma dessas regiões foi o Sul do Mar Mediterrâneo, englobando todo o Norte da África e o Oriente Médio, região de nosso planeta que apresentava um clima bem diferente ao final dessa última Era Glacial. Essa região apresentava temperaturas bem mais amenas que as atuais, sendo coberta com grandes extensões de florestas. 

Esse era o caso do Saara, atualmente o maior deserto do mundo com área total de 9,5 milhões de km2. Essa região era coberta por florestas e áreas de savanas, onde corriam grandes e caudalosos rios. Toda a grande fauna e diversificada fauna africana – de elefantes a hipopótamos, de macacos a girafas, habitava essa região. 

Entre 5 e 8 mil anos atrás, nosso planeta sofreu uma leve alteração no seu eixo de rotação, o que foi suficiente para alterar a incidência solar no Norte da África e no Oriente Médio. As florestas foram retrocedendo lentamente e as áreas de savana e de estepes foram crescendo. As áreas semiáridas e desérticas também foram aumentando gradativamente. 

Um exemplo literário que nos dá uma ideia do que foram essas mudanças climáticas no Oriente Médio pode ser encontrado na Epopeia de Gilgamesh, uma das mais antigas sagas escritas da humanidade. A saga conta a história do mítico rei deus Gilgamesh da cidade de Uruk, no Sul da Mesopotâmia, que era dois terços deus e um terço humano. Esse rei teria vivido por volta do ano 2.650 a.C. 

A fim de destruir o feroz gigante Humbada que vivia na floresta de cedros e ameaçava seu povo, Gilgamesh e seu servo Enkidu se armaram com pesados e potentes machados, além de espadas afiadas. Eles se dirigiram então para essa floresta, que pela narrativa não ficava muito longe de Uruk. Essa floresta se estendia por “dez mil léguas em todos os sentidos”. 

É difícil saber até onde o antigo poema utiliza paisagens reais ou não, mas as áreas cobertas com florestas de cedros na região estão restritas atualmente a algumas áreas montanhosas no Líbano, na Síria e na Turquia. Com um clima mais amenos no passado, não seria difícil que essas árvores tivessem uma área de ocorrência que chegasse até a Mesopotâmia – atual Iraque, região que atualmente, está coberta por estepes, terrenos semiáridos e desertos. 

O clima do Oriente Médio, que já mudou bastante nos últimos milhares de anos, poderá ficar ainda mais complicado. Estudos feitos pelo Instituto Max Planck de Química e do Centro de Pesquisa do Clima e Atmosfera do Instituto Chipre sugerem que o Oriente Médio e o Mediterrâneo Oriental poderão sofrer um aumento de temperaturas de 5° C ou mais até o final do século

De acordo com o relatório dos pesquisadores, essa região está passando por um aumento de temperaturas quase duas vezes mais rápido que a média global. As mudanças no clima dos países da região poderão ser devastadoras para seus milhões de habitantes. É possível afirmar que mudanças climáticas dessa magnitude poderão deixar grande parte da região inabitável.

Esse aumento das temperaturas provocará uma redução no volume de chuvas – que em grande parte do Oriente Médio já não é lá essas coisas. Isso afetará fortemente a segurança hídrica e alimentar das populações. Existe ainda uma série de problemas que serão desencadeados pelo aumento do nível do mar e alagamento de regiões costeiras. 

Um dos maiores riscos que poderá ser desencadeado pelo avanço do nível do mar é a salinização dos solos férteis de muitos vales e também a infiltração da água marinha nos aquíferos costeiros, reservas de água doce que hoje são fundamentais para o abastecimento de inúmeras cidades. 

Um relatório completo com os dados desse estudo está sendo preparado para uma apresentação na COP27 – Conferência das Nações Unidas sobre Mudanças Climáticas. O encontro acontecerá em novembro no Egito. 

Só para exemplificar como as atuais condições climáticas do Oriente Médio já são complicadas nos dias de hoje, vou citar o exemplo de Israel. Quase 2/3 do território do país é formado por regiões semiáridas e desérticas. Metade da área restante é formada por solos rochosos. 

O maior e mais importante rio de Israel é o lendário Jordão. Esse rio tem 190 km de extensão, com nascentes no Monte Hermon no Norte de Israel. Os principais afluentes são os rios Hasbani ou Snir, com nascentes no Líbano, e Dan e Banias, rios com nascentes em território israelense; a foz do rio Jordão fica no Mar Morto ao Sul. Apesar de toda a sua fama, o rio Jordão poderia ser comparado a um riachão brasileiro – sua profundidade máxima é de 5,5 metros e a maior largura 18 metros. 

As chuvas no país são escassas e mal distribuídas. No Norte de Israel a precipitação média anual é de 70 mm e nas áreas desérticas do Sul cai para meros 5 mm anuais.  Para efeito de comparação, a precipitação média no nosso Semiárido Nordestino está entre 200 mm e 400 mm. Literalmente, é preciso fazer milagres para conseguir sobreviver nessas condições climáticas – e olhem que o clima de Israel não é um dos piores do Oriente Médio. 

Agora, tentem imaginar um lugar com condições climáticas tão complicadas ficando ainda pior. É justamente esse o futuro não muito distante do Mediterrâneo Oriental e do Oriente Médio. Populações e governos da região vão precisar correr muito para se preparar para esses novos e complicados tempos.

2 Comments

  1. […] As fortes ondas de calor e as secas que vem se tornando cada vez mais frequentes na Europa, tem parte significativa de sua origem nesse “crescimento” do Deserto do Saara. Também já citamos em postagem aqui do blog a preocupação de muitos cientistas em relação ao aumento dessa influência climática no Mar Mediterrâneo Oriental e no Oriente Médio.  […]

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