A GUERRA NA UCRÂNIA E A CRISE ENERGÉTICA QUE SE DESCORTINA NA ALEMANHA

A invasão do território da Ucrânia por tropas da Rússia completou dois meses ontem e ainda não há sinais de uma solução da questão no curto prazo. Entre as desculpas esfarrapadas dos russos para essa intervenção está a proteção de russos étnicos em regiões separatistas no Leste do país. 

Além da destruição de propriedades, de infraestruturas e mortes de civis e militares dentro da Ucrânia, esse conflito trouxe uma série de problemas para muitos países do mundo, especialmente dentro da Europa. Conforme já destacamos em postagens anteriores, o conflito ameaça uma parte importante do fornecimento mundial de alimentos – especialmente o trigo, e também o de combustíveis – destaque aqui para o gás. 

Um dos países em situação delicada na questão dos combustíveis é a Alemanha – 55% do gás natural, 50% do carvão e 30% do petróleo consumidos pelo país vem da Rússia. A situação ganha contornos ainda mais dramáticos quando se analisa o atual cenário energético da Alemanha. 

No final de 2021, em continuidade a uma política de substituição das fontes energéticas poluentes como a queima de carvão e inseguras como a energia nuclear, a Alemanha desativou 3 usinas nucleares. Outras 3 plantas nucleares, as últimas ainda operacionais no país, devem ter suas operações encerradas até o final desse ano. 

Até o ano de 2038, de acordo com o cronograma estabelecido pelo Governo, a queima do carvão mineral para geração de energia elétrica na Alemanha deverá estar totalmente abolida. Fontes de geração de energias renováveis como a eólica e a fotovoltaica, que respondem hoje por 22% e 9%, respectivamente, da matriz energética do país, deverão ampliar substancialmente a sua participação. 

As boas intenções das políticas verdes desenvolvidas ao longo dos últimos anos na Alemanha colocaram o país em uma situação de escassez energética após o início do conflito entre a Rússia e a Ucrânia. E as coisas poderão piorar muito caso a Rússia seja impedida ou desista de fornecer combustíveis para o país. 

Sem possuir um “Plano B” na área energética para o curto prazo, muitos políticos alemães já falam abertamente em manter e até em ampliar a geração de energia em centrais termelétricas a carvão, além de adiar por tempo indeterminado o desligamento das últimas centrais nucleares do país – a reativação de usinas desligadas também poderá ser reconsiderada. 

Mesmo que seja aprovada a continuidade da geração nuclear no país, serão necessários entre um ano e meio a dois anos até que as operações se normalizem. Devido ao cronograma de desligamento que estava em andamento, as usinas não possuem estoques de elementos radiativos para alimentar os reatores – será preciso encomendar e esperar a produção desses materiais em empresas altamente especializadas. 

Outro problema será suprir a falta de mão de obra. Muitos dos antigos operadores e técnicos se aposentaram e, devido à falta de perspectivas de mercado de trabalho, muitos cursos na área de energia nuclear foram encerrados nas universidades do país e os jovens optaram por seguir carreira em áreas mais promissoras. 

Ao longo das últimas décadas, os alemães conquistaram uma posição extremamente confortável no campo energético devido aos acordos comerciais com a Rússia, especialmente para o fornecimento de gás natural. O produto era transportado desde os campos de produção na Sibéria até a Alemanha por sistemas de gasodutos que atravessavam o território da Ucrânia. 

Em 2011, entrou em operação o gasoduto Nord Stream, um revolucionário e polemico sistema de tubulações sob do Mar Báltico, que passou a permitir o transporte do gás diretamente da Rússia para a Alemanha. Esse sistema garantia o transporte de 55 bilhões de metros cúbicos de gás por ano. 

Um segundo gasoduto, o Nord Stream 2, que duplicaria o volume de gás transportado para a Alemanha, estava em fase final de construção. A obra foi paralisada após o início das agressões russas na Ucrânia, o que fez acender as luzes de alerta no país. 

Para desespero dos alemães, a Comunidade Europeia passou a impor uma série de embargos econômicos à Rússia e, entre eles, estaria uma provável suspensão das compras de gás, petróleo e carvão. A maior economia da Europa e uma das mais importantes do mundo passou a correr o risco de ficar sem energia elétrica e combustíveis. 

As perspectivas ruins para as empresas e consumidores da Alemanha passou para o campo dramático após o Governo da Rússia anunciar a construção de um novo gasoduto desde a Sibéria até a China passando pela Mongólia. A China, conforme já tratamos em uma postagem aqui no blog, está sofrendo com a falta de combustíveis – em especial o carvão e o gás. A construção desse novo gasoduto seria muito bem-vinda. 

O gás russo que estaria sendo negociado com os chineses seria justamente o gás que hoje está sendo fornecido para a Alemanha e que teria o seu fornecimento suspenso devido aos embargos econômicos da União Europeia. 

A ascensão da Rússia à posição de grande player do mercado mundial de combustíveis foi uma decorrência da complicada situação geopolítica do Oriente Médio. Apesar da abundância de combustíveis fósseis na região, o transporte dos produtos até os mercados na Europa sempre foi problemático devido ao ambiente belicoso entre os países da região. 

Se valendo da relativa tranquilidade dentro de suas fronteiras e de uma aparente harmonia entre seus antigos estados satélites, os russos se lançaram ao desafio de construir gigantescos oleodutos e gasodutos desde a longínqua Sibéria até os países da Europa. Vários desses sistemas atravessam o território da Ucrânia. Países europeus ficaram felizes ao receber um produto mais barato e com uma suposta garantia de fornecimento contínuo. 

Ainda não é possível avaliar quais serão os desdobramentos e as consequências do conflito entre os russos e os ucranianos, ou ainda quanto tempo ele durará. O que podemos afirmar, com algum grau de certeza, é que questões energéticas de países não se resolvem do dia para a noite. 

É preciso desenvolver novos relacionamentos com fornecedores alternativos, negociar contratos e preços, construir infraestruturas para o transporte e armazenamento dos combustíveis, desenvolver uma rede de logística para a distribuição dentro do país, para só então usar os combustíveis nas residências, nas indústrias e também para a geração de energia elétrica. Falamos aqui de prazos entre 5 e 10 anos. 

Adaptando um ditado aqui do meu bairro, os alemães foram pegos de “calças curtas” nessa história e vão pagar muito caro pela pressa que tiveram ao “esverdear” muito rapidamente a produção de energia do país. 

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