AS FORTES CHUVAS QUE ESTÃO CASTIGANDO AS FILIPINAS

Mais uma vez, o arquipélago das Filipinas está sendo devastado por um dos chamados eventos climáticos extremos. A “bola da vez” é a tempestade tropical Mogi, que já matou ao menos 80 pessoas e já deixou mais de 17 mil desabrigados. Por definição, uma tempestade tropical é um ciclone tropical com fortes ventos de mais de 63 km por hora. 

As fortes chuvas dos últimos dias provocaram inundações e quedas de energia elétrica, especialmente nas ilhas localizadas ao largo do Oceano Pacífico. A maior parte das vítimas morreu em deslizamentos de encostas, um problema que nós brasileiros conhecemos muito bem. 

Uma das regiões do país mais afetadas pelas chuvas é a Ilha de Leyte. Apenas no vilarejo de Pilar já foram contabilizadas 26 mortes e cerca de 150 pessoas estão desaparecidas. As maiores dificuldades para as equipes de resgate são as estradas precárias, que no momento estão cobertas de lama. 

Mais de 100 vilarejos da ilha, especialmente aqueles localizados ao largo de rios ou próximos das praias, ficaram praticamente submersos devido a um forte temporal seguido de chuvas contínuas. Foram registradas rajadas de vento com velocidades acima de 65 km/h. 

A República das Filipinas é um grande país insular do Sudeste Asiático. É formado por mais de 7 mil ilhas, com um território de aproximadamente 300 mil km² e onde vive uma população de pouco mais de 100 milhões de habitantes. O arquipélago está localizado entre os Oceanos Pacífico e Índico, uma posição que o coloca frequentemente no caminho de tufões e tempestades tropicais. 

Em média, as Filipinas são atingidas por 20 tufões e tempestades tropicais a cada ano. A tempestade atual é a primeira a atingir o arquipélago esse ano – muitos outros eventos extremos atingirão as ilhas ao longo deste ano. 

De acordo com um relatório da OMM – Organização Meteorológica Mundial, um braço da área climática da ONU – Organização das Nações Unidas, o território das Filipinas é uma das regiões mais afetada por fenômenos climáticos extremos no Oceano Pacífico. Foram 48.950 mortes em consequência desses eventos nos últimos 50 anos. Esse número corresponde a 75% das mortes nesses eventos na região. 

Os graves problemas provocados pelas chuvas no arquipélago são ampliados por causa da enorme devastação da cobertura florestal das ilhas. É comum se afirmar que perto de 75% das matas e florestas nativas já desapareceram – alguns autores chegam a afirmar que só resta algo entre 6 e 8% da vegetação nativa original, algo muito parecido com a situação da Mata Atlântica aqui no Brasil

Muitos especialistas consideram as Filipinas como o pior caso de degradação ambiental de todo o mundo. Muitos cientistas chegam até a afirmar que o país é uma “causa perdida” em termos ambientais. Desde o descobrimento das ilhas no século XVI, a exploração intensiva de madeira foi uma das principais atividades econômicas, que aumentou vertiginosamente a partir do século XX, 

Esse nível de degradação das florestas, é claro, tem seus reflexos na vida animal e vegetal. De acordo com informações da IUCN – União Internacional para a Conservação da Natureza na sigla em inglês, uma das mais respeitadas organizações ambientais do mundo, cerca de 21% dos animais vertebrados e metade das espécies de plantas das Filipinas estão ameaçados.   

É sempre importante lembrar que, como se tratam de ecossistemas de ilhas, existe um alto grau de endemismo nas espécies animais e vegetais nas matas das Filipinas – ou seja, grande parte das espécies só são encontradas em suas respectivas ilhas.  

Das 1.100 espécies de vertebrados conhecidos, quase a metade são endêmicos. No caso das plantas, as estimativas oscilam entre 45 e 60% de endemismo. A extinção de qualquer um desses seres vivos é uma perda irreparável para todo o mundo.  

Vários estudos recentes vêm encontrando dezenas de novas espécies endêmicas de mamíferos e especialistas alertam que as Filipinas podem “abrigar a maior concentração de espécies únicas de mamíferos do planeta“. Isso aumenta o tamanho da crise ambiental local. 

Plantas e animais são interdependentes – os animais se alimentam de folhas, caules, raízes e frutos. Em troca, os animais realizam parte importante da dispersão de sementes e partes das plantas que formarão novas mudas Sempre que ocorrem reduções expressivas de populações de espécies animais, as populações de plantas ficam cada vez mais restritas geograficamente, inclusive com risco de serem levadas a extinção no longo prazo. 

As Ilhas Filipinas são essencialmente de origem vulcânica, possuindo terrenos bastante acidentados e montanhosos. Originalmente, as encostas dessas montanhas e serras eram cobertas por uma densa vegetação tropical, o que protegia os solos dos processos erosivos resultantes das fortes e frequentes chuvas da região.  

Sem a proteção das matas, os solos perdem a capacidade de reter parte importante das águas das chuvas. Muito pior – a velocidade das enxurradas “morro abaixo” aumenta muito, o que resulta em grandes alagamentos nos vales e partes baixas. Os solos das encostas também se tornam instáveis durante as chuvas, ocorrendo inúmeros deslizamentos de encostas, o que, conforme comentamos, é a causa da maior parte das vítimas fatais. 

Desgraçadamente, a situação já complicada do país tenderá a ficar pior ao longo dos próximos anos. O aumento das temperaturas globais, mais conhecido como aquecimento global, está alterando importantes correntes marítimas e de ventos, além de provocar uma elevação gradual do nível dos oceanos. Esses problemas tendem a aumentar a incidência e o potencial das tempestades que atingem as Filipinas todos os anos. 

Como diz um antigo ditado – quem planta vento colhe tempestade. É mais ou menos isso o que foi feito nas Filipinas. 

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