OS IMPACTOS DO CONFLITO NA UCRÂNIA NOS CAMPOS BRASILEIROS

O Brasil fica a mais de 10 mil quilômetros de distância da Ucrânia, país que está enfrentando uma dramática invasão por tropas da Rússia nesses últimos dias. Apesar dessa enorme distância entre os dois países, podemos afirmar que as bombas que explodem por lá lançam estilhaços que poderão atingir os brasileiros em cheio. 

As potenciais vítimas desse conflito aqui em nossas terras são os produtores rurais. E eles são muitos – o Brasil se transformou numa potência agrícola nas últimas décadas. A prática da agricultura moderna requer bons solos, água, muito sol, máquinas e mão de obra especializada, e, principalmente, de fertilizantes. 

Numa definição rápida, fertilizantes são compostos minerais que são usados para melhorar a nutrição das plantas. Em condições naturais, a fertilidade dos solos é garantida pela decomposição natural de matéria orgânica originária de restos de plantas e de animais mortos. Em campos agrícolas, onde a vegetação foi suprimida, esse processo é praticamente inexistente e a recomposição da fertilidade depende da introdução desses compostos minerais. 

Desde o ano passado, em grande parte por causa dos desdobramentos econômicos da epidemia da Covid-19, o mercado mundial de fertilizantes vem passando por uma redução da oferta e por um aumento substancial dos preços dos produtos. Um exemplo é o potássio, um dos principais minerais usados na produção de fertilizantes – nos últimos doze meses a tonelada de potássio passou de US$ 320.00 para US$ 850.00. 

Um dos maiores produtores mundiais de fertilizantes é justamente a Rússia, país que invadiu a Ucrânia, um ato que vem sendo repudiado por grande parte dos países do mundo. Entre os principais desmembramentos dessa crise estão as sanções comerciais que as grandes economias do mundo estão prometendo impor aos russos.  

Ou seja, a Rússia terá dificuldades para vender seus fertilizantes no mercado externo, o que poderá gerar grandes aumentos nos preços internacionais. Existe ainda um outro complicador nessa equação – Belarus, também conhecida como Bielorrússia, também é um grande produtor de fertilizantes e é uma grande aliada da Rússia – eventuais sanções comerciais contra os russos também afetarão as exportações bielorrussas. 

A situação do mercado de fertilizantes ganha contornos ainda mais dramáticos por causa da China, país que responde por 30% do mercado mundial de fertilizantes fosfatados e nitrogenados. O Governo do país estuda suspender as suas exportações. Desde meados de 2021, a NDRC – Comissão Nacional de Desenvolvimento e Reformas, na sigla em inglês, vem solicitando a interrupção das exportações como forma de proteger o mercado interno. 

A China vem enfrentando inúmeros problemas energéticos devido à escassez de carvão e gás. Os governos das províncias chinesas, inclusive, têm feito cortes sistemáticos no fornecimento de energia elétrica como resposta a essa falta de combustíveis. Isso tem afetado a produção industrial no país como um todo. Com 1,4 bilhão de bocas para alimentar, o Governo da China está se vendo obrigado a privilegiar os agricultores locais. 

De acordo com as projeções do IBGE – Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística, a produção brasileira de cereais, leguminosas e oleaginosas deverá atingir a marca de 279,1 milhões de toneladas nesse ano de 2022. Essa produção deverá superar em 7,4% a safra de 2021. Isso se consegue com muito trabalho e com o uso de fabulosos volumes de fertilizantes. 

O Brasil consome perto de 40 milhões de toneladas de fertilizantes a cada ano e precisa importar cerca de 85% desse volume. Esse insumo é usado tanto pelas grandes plantações comerciais de grãos para exportação como a soja e o milho, como nas pequenas plantações da agricultura familiar. 

Os fertilizantes são divididos em 3 grupos em função dos seus principais compostos químicos – nitrogênio (N), fósforo (P) e potássio (K). Os fertilizantes nitrogenados tem como principais fornecedores a Rússia, a China e países do Oriente Médio, que respondem juntos por 95% da demanda brasileira. 

China, Marrocos e Rússia respondem por 75% dos fertilizantes fosfatados consumidos pelo Brasil. Os fertilizantes a base de potássio têm como principais produtores Belarus, Canadá e Rússia, países que respondem por 95% de nossas importações. O Brasil tem planos para reduzir essa dependência para cerca de 60%, porém, serão necessárias várias décadas até que isso se concretize. 

Poucos dias antes do conflito na Ucrânia começar, o Presidente brasileiro fez uma criticada visita oficial ao Presidente da Rússia. Segundo informações divulgados pelo Governo, essa visita estava agendada há vários meses. Um dos principais temas econômicos discutidos entre as autoridades foi justamente o aumento das exportações de fertilizantes da Rússia para o Brasil.

Essa negociação, que vinha sendo considerada estratégica para a produção agrícola do país, poderá ficar completamente sem efeito por causa dos desdobramentos do conflito, o que afetará profundamente a economia brasileira. As atividades ligadas ao agronegócio respondem por cerca de 30% do PIB – Produto Interno Bruto, do Brasil. 

Além da forte alta no preço dos fertilizantes, os produtores rurais brasileiros também vêm sofrendo com os aumentos nos custos dos combustíveis, especialmente o óleo diesel. Tratores, máquinas agrícolas e caminhões, equipamentos essenciais para a produção, utilizam motores a diesel. Esses aumentos, é claro, serão repassados para os preços dos produtos e resultarão em aumentos em cadeia em todos os alimentos que chegam na mesa dos brasileiros. 

Os custos econômicos e sociais desse embate serão pagos por todo o mundo – dos mais pobres aos mais ricos. Precisamos todos torcer para que essa situação se resolva no menor tempo e nas melhores condições possíveis. 

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