LEMBRANDO DA REVOLUÇÃO VERDE, OU AINDA FALANDO DA CRISE DOS FERTILIZANTES 

Solos férteis, falando de uma forma bem simplificada, são os que permitem o desenvolvimento e a sustentação de vida vegetal. Esse tipo de solo reúne sedimentos minerais como areia, silte e argila; matéria orgânica resultante da decomposição de plantas e animais mortos; água e também ar. Também precisa reunir algumas formas de vida animal como as colônias de bactérias responsáveis pela decomposição da matéria orgânica. 

Insetos como as formigas e vermes como as minhocas também possuem um papel importante na fertilidade dos solos. As formigas carregam grandes quantidades de folhas e outras matérias orgânicas para suas colônias subterrâneas – essa matéria servirá para o “cultivo” de fungos, o alimento das formigas. A decomposição dessa matéria orgânica libera nitrogênio no solo, um elemento fundamental para a nutrição das plantas. As fezes das minhocas também liberam nitrogênio nos solos. 

Contando com sedimentos para dar sustentação às raízes, com nutrientes e água para “alimentar” as plantas e ainda com a energia da luz do sol, a vida vegetal consegue se desenvolver e sustentar a base da cadeia alimentar de um ecossistema. Em uma região de deserto de areias, como ocorre em grande parte do Deserto do Saara, os solos não reúnem todos esses elementos, por isso a raridade de vida vegetal. 

De outro lado encontramos florestas luxuriantes como a Amazônia, que aparentam possuir solos de altíssima fertilidade. Ledo engano – a maior parte dos solos da Amazônia apresentam uma alta acidez e uma baixíssima fertilidade. Toda a vida vegetal da grande floresta depende de uma grossa camada de matéria orgânica que cobre o solo e que provém da decomposição de restos de matéria orgânica da própria floresta e de animais mortos.  

Em vários locais da Amazônia, onde grandes extensões da floresta foram derrubadas para a implantação de campos agrícolas e pastos para o gado, a pouca fertilidade dos solos se perdeu dentro de poucos anos. Exposta às fortes chuvas da região, essa camada de matéria orgânica ou húmus acabou sendo carreada pelas águas, deixando solos onde mal crescem plantas rasteiras. Existem milhares de hectares desses solos abandonados na região, especialmente no Leste do Pará. 

Um caso bem interessante de perda de fertilidade dos solos de uma grande região foi o que ocorreu na América Central, que num passado já distante sustentou grandes impérios ameríndios como os maias, astecas e toltecas. Em um passado já bastante remoto, tribos indígenas que migraram de regiões desérticas do Norte do México e do Sudoeste dos Estados Unidos encontraram nas regiões dos planaltos centro-americanos uma espécie de gramínea que produzia saborosos grãos comestíveis.  

Domesticadas ao longo de muitas gerações, essas gramíneas foram transformadas no milho, um dos alimentos mais importantes do Novo Mundo. Grandes trechos das florestas da América Central passaram a ser queimadas para a formação de grandes plantações de milho, que sustentavam milhões de índios naqueles tempos. 

Essa queima das matas, que aqui no Brasil é conhecida como coivara, permite tanto a limpeza do terreno quanto uma adubação rudimentar pelas cinzas. Com o passar do tempo, esses solos perdem a fertilidade e outras áreas precisam ser queimadas para a formação de novos campos agrícolas. De acordo com vários estudos científicos, foi essa destruição de grandes áreas florestais a principal responsável pelo fim de algumas dessas civilizações indígenas, principalmente a maia. 

As dificuldades para a manutenção da fertilidade dos solos agrícolas ao longo de grandes períodos de tempo sempre foi um fantasma que acompanhou a humanidade desde o início da agricultura, surgida entre 10 e 12 mil anos atrás. Povos que viviam ao lado de grandes rios como o Tigre e o Eufrates na Mesopotâmia; o Nilo no Egito; o Ganges e o Indus no Subcontinente Indiano, ou ainda nas várzeas de grandes rios do Sudeste Asiático e Extremo Oriente, sempre podiam contar com o período das enchentes, quando uma grossa camada de nutrientes era trazida todos os anos pelas águas e recobria esses solos. 

Povos que não contavam com essa dadiva da natureza eram obrigados a se valer de uma série de artimanhas para garantir uma produção agrícola adequada. Uma dessas técnicas, que se manteve por vários milênios, era a rotação de terras. Enquanto um pedaço de uma área de terras estava sendo usado para a agricultura, outros trechos ficavam “descansando” por alguns anos, o que permitia que os solos recuperassem a sua fertilidade. 

As coisas, porém, nem sempre saíam do jeito que se esperava. Safras com baixa produtividade, secas, pragas agrícolas e ataques de gafanhotos, guerras, entre outros males, frequentemente assolavam povos inteiros e grandes contingentes populacionais sofriam com a fome e a desnutrição. Esse fantasma da insegurança alimentar ligada à produção agrícola (contra as guerras nunca houve muito o que se fazer) só passou a ser razoavelmente controlada há bem poucas décadas atrás. 

Um marco no aumento da produtividade agrícola data da década de 1930, quando o agrônomo norte-americano Norman Borlaug passou a realizar melhoramentos e a seleção de diferentes variedades de trigo, onde buscava plantas com maior produtividade, resistência a doenças e pragas. Plantações experimentais feitas anos depois no México resultaram em uma produtividade até sete vezes maior. O trabalho de Norman Borlaug para o aumento da produtividade na agricultura lhe rendeu o Prêmio Nobel da Paz de 1970. 

Outra fonte importante de inovações surgiu, surpreendentemente, de estudos feitos para a fabricação de gases venenosos para uso militar durante a Segunda Guerra Mundial. Muitas das moléculas que foram desenvolvidas viriam a ter um uso mais nobre como defensivos agrícolas para o controle de pragas, como fungicidas e também herbicidas. 

O desenvolvimento da indústria também resultou na criação de fertilizantes químicos baratos e de fácil produção, que revolucionariam para sempre a agricultura, inclusive em países pobres e que já tinham uma longa história de baixa produtividade agrícola e ciclos de fome. A mecanização da agricultura também foi um fator fundamental para o aumento da produtividade no campo. 

Em 1966, durante uma convenção das Nações Unidas sobre agricultura realizada na cidade de Washington, capital dos Estados Unidos, o pesquisador William Gown cunhou uma expressão que resumiria todas essas mudanças na agricultura – Revolução Verde

Um exemplo dessa Revolução Verde foi o que se passou aqui no Brasil na região do Cerrado. Conforme já comentamos em diversas postagens anteriores, essa grande região brasileira sempre foi considerada “inútil” para fins de agricultura. Os solos são extremamente ácidos e de baixíssima fertilidade. 

Com a criação da EMBRAPA – Empresa Brasileira de Pesquisas Agropecuárias, ainda na década de 1960, passaram a ser realizadas pesquisas para o desenvolvimento de grãos adaptados aos solos e ao clima do Cerrado brasileiro. Em 1975, a EMBRAPA apresentou as primeiras variedades de soja e de milho adaptadas para o plantio no Cerrado. 

Com o tratamento dos solos da região com calcário, processo conhecido como calagem, com as sementes adaptadas e com o uso intensivo de fertilizantes e defensivos químicos, o Cerrado se transformou no grande celeiro de grãos do Brasil. Processos semelhantes de grande aumento da produtividade agrícola ocorreram nessa mesma época na Índia, Paquistão e China, entre muitos outros países. 

Com todas as reservas que precisamos fazer sobre os impactos ambientais dos excessos praticados, é simplesmente impossível desenvolver uma agricultura moderna de grande produtividade sem o uso de fertilizantes e de defensivos químicos, especialmente em um mundo que tem 7,7 bilhões de bocas para alimentar. 

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