RESERVATÓRIO DA USINA HIDRELÉTRICA DE ILHA SOLTEIRA PRÓXIMA DO NÍVEL MÍNIMO DE OPERAÇÃO

O inverno na Região Centro Sul do Brasil termina em meados da próxima semana e o tempo já começa a apresentar mudanças significativas. Ontem, dia 16 de setembro, uma chuva mais forte caiu aqui na cidade de São Paulo, amenizando o tempo quente e seco que predominava. A primavera é sempre uma esperança do renascimento da vida. 

As chuvas voltam timidamente num momento crítico para uma grande área do Brasil Central onde se convive com a maior seca dos últimos 91 anos. A bacia hidrográfica do alto Rio Paraná, a mais fortemente atingida pela estiagem, se apresenta com rios e reservatórios de usinas hidrelétricas com pouca água. 

Um grande exemplo de como estão as coisas por lá pode ser visto no reservatório da Usina Hidrelétrica de Ilha Solteira, uma das maiores unidades geradoras de energia da Região Sudeste: o nível se aproxima perigosamente do “volume zero”. De acordo com a operadora da hidrelétrica, a cota do reservatório atingiu o nível de 322 metros no dia 15 de setembro – o nível mínimo para operação é 314 metros

Usina Hidrelétrica de Ilha Solteira é a terceira maior do Brasil, com uma potência instalada de 3.444 MW. Localizada no rio Paraná entre os Estados de São Paulo e Mato Grosso do Sul, a hidrelétrica tem uma barragem com 5,6 mil metros de extensão, formando um reservatório com quase 2 mil m², o que nos dá uma ideia dos impactos sócio ambientais provocados. A usina hidrelétrica foi concluída em 1978 e possui um total de 20 grupos geradores. 

As usinas de Ilha Solteira e Jupiá, no rio Paraná, e Três Irmãos, no rio Tiete, formam o Complexo Hidrelétrico Urubupungá, que possui uma capacidade total instalada de 4,995 MW e é vital para o fornecimento de energia elétrica para o Estado de São Paulo. O iminente “desligamento” da maior geradora desse Complexo trará sérias consequências para o abastecimento de uma enorme população na região. 

A Usina Hidrelétrica de Ilha Solteira é uma das heranças dos tempos do Regime Militar que governou o Brasil entre os anos de 1964 e 1985. Esse foi um período de obras de infraestrutura grandiosas que visavam garantir um “grande salto” no desenvolvimento do país. Essas obras eram gestadas em gabinetes governamentais sem qualquer participação da população. Ao final da fase do planejamento, uma autoridade “estrelada” simplesmente apontava o dedo para um mapa e ordenava que se construísse uma rodovia ou uma hidrelétrica ali. 

Aqui é importante lembrar que antes da publicação da Resolução Conama 001, em 23 de janeiro de 1986, que estipulou os critérios básicos e as diretrizes gerais para a avaliação de impactos ao meio ambiente, obras de grande porte como uma usina hidrelétrica eram feitas na “marra” e sem direito de reclamação por populações que eventualmente tivessem de ser deslocadas de suas casas e terras. Também não existiam maiores preocupações com a fauna, flora e dinâmica das águas. 

Um dos impactos ambientais mais visíveis da formação de grandes barragens no rio Paraná foi a alteração do ciclo de cheias. Em condições naturais, o nível do rio oscilava entre as grandes cheias do período das chuvas e o período de vazante no período da seca, quando o nível das águas baixa fortemente. Todo o meio ambiente, incluindo populações humanas, vida animal e vegetal, se adaptaram a esses ciclos de cheias e vazantes do rio. As barragens alteraram dramaticamente esses ciclos e os fluxos de águas nos rios passaram a ficar vinculados ao volume de produção de energia elétrica nas usinas.  

O lago formado pela barragem da Usina de Ilha Solteira alagou uma área equivalente a duas vezes o tamanho do município de São Paulo, avançando sobre propriedades rurais e áreas de matas, que foram suprimidas antes do enchimento do lago. Entre as áreas de vegetação nativa que existiam na região, encontravam-se áreas alagáveis, importantes habitats da vida animal e vegetal, que tinham características de flora e fauna bastantes similares ao Pantanal Mato-grossense.  

Essas áreas desapareceram para sempre sem que maiores estudos científicos fossem realizados. Muito do que sabemos sobre esses ecossistemas vem de estudos que foram feitos posteriormente na região onde se formou o lago da Usina Hidrelétrica de Porto Primavera, construída entre os anos de 1980 e 2003. Essa região, que também acabou inundada, era conhecida como Mini Pantanal do rio Paraná.  

Entre as muitas “heranças” deixadas pela construção destas grandes usinas hidrelétricas temos a cidade de Ilha Solteira, que surgiu em 1968 para servir como alojamento dos trabalhadores da obra. A cidade, que atualmente conta com 26 mil habitantes, foi totalmente planejada, contando com uma boa infraestrutura urbana como iluminação pública, redes de água e esgoto.  

Além de abrigar os trabalhadores e funcionários da obra, a cidade recebeu um grande número de deslocados das áreas alagadas pelo reservatório da usina. Grande parte da arrecadação fiscal do município, que se emancipou de Pereira Barreto em 1991, vem dos impostos pagos pela Usina Hidrelétrica de Ilha Solteira.  

Um outro caso emblemático é a cidade de Rubineia, que foi totalmente inundada pelo reservatório de Ilha Solteira, e teve de ser reconstruída em outro local. A pequena cidade conta atualmente com menos de 3 mil habitantes – estima-se que cerca de 10 mil habitantes do município foram deslocados de suas terras por causa das obras da usina hidrelétrica. 

Enquanto a Usina Hidrelétrica de Ilha Solteira ou outra grande unidade geradora opera normalmente e grandes volumes de energia elétrica que são usados no abastecimento da população, todos os “pequenos pecados” cometidos ao longo de sua construção são esquecidos e perdoados. É num momento caótico de seca intensa, quando ficamos sem a geração da eletricidade, que nos damos conta de todos os danos infringidos ao meio ambiente e a um sem número de famílias que foram deslocadas de suas casas e terras. 

É nossas horas que paramos para pensar em tudo e nos questionamos se todas essas perdas valeram realmente a pena… 

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