AS PREOCUPAÇÕES MUNDIAIS COM O DERRETIMENTO DE GRANDES MASSAS DE GELO NA ANTÁRTIDA

Um dos maiores problemas ambientais do nosso tempo é o aumento das temperaturas em todo o planeta. Entre outros males, esse aumento das temperaturas está provocando o derretimento de grandes massas de gelo no Ártico, na Antártida (ou Antártica, que muitos especialistas afirmam ser a melhor grafia) e em geleiras localizadas em altas montanhas. A consequência direta de tudo isso é um aumento gradual do nível dos oceanos – foram 1,4 centímetro de aumento entre 1979 e 2017. Isso pode parecer pouco, mas já pode estar causando muitos estragos pelo mundo afora. 

Nos últimos 40 anos, a velocidade do derretimento do manto de gelo da Antártida aumentou em cerca de 6 vezes. Somente nos últimos 20 anos, a Antártida perdeu cerca de três trilhões de toneladas de gelo. Além da incidência direta do calor do sol, esse derretimento também vem sendo provocado pelas águas mais quentes dos oceanos, que derretem e desestabilizam as bordas das plataformas de gelo flutuante. 

Um tema que passou a ocupar a agenda de muitos líderes mundiais nos últimos anos é o combate ao aquecimento global. Entre os objetivos do Acordo de Paris, um grande tratado ambiental assinado por 195 países em 2015, destacam-se as metas para a redução das emissões dos gases de efeito estufa, apontados como uma das principais causas do aumento das temperaturas em todo o mundo

Uma das premissas do Acordo é limitar em 2° C o aquecimento do planeta até o final do século XXI. As dificuldades para implementar muitas das medidas acordadas, entretanto, estão sinalizando para um aumento das temperaturas globais em, pelo menos, 3° C. 

A prestigiada revista científica Nature publicou uma interessante pesquisa onde se comparou as consequências ambientais para os diferentes aumentos das temperaturas globais previstos. Caso se consiga limitar o aumento da temperatura em apenas 2° C, a Antártida continuará perdendo sua cobertura de gelo, porém, em uma velocidade constante durante todo o século XXI. 

Caso o limite de 2° C seja ultrapassado, poderá haver uma aceleração abrupta no derretimento e perda de gelo por volta do ano de 2060, o que poderá dobrar o aumento esperado do nível do mar até o ano de 2100. A região onde haveria um maior aumento na perda de gelo é a Antártida Ocidental. 

O atual derretimento do gelo antártico resulta em um aumento do nível dos oceanos de cerca de meio milímetro a cada ano. Caso se consiga limitar o aumento das temperaturas globais entre 1,5 e 2° C, o estudo indica que o aumento do nível dos oceanos poderá a chegar a 2 milímetros por ano – isso significará que, até o ano de 2100, os oceanos terão aumentado de 80 a 90 milímetros.  

No caso do cenário de um aumento de 3° C das temperaturas globais, importantes plataformas de gelo e geleiras da Antártida poderão colapsar. As simulações sugerem que por volta do ano de 2060, o derretimento do gelo atingirá um “ponto sem retorno”, onde as perdas de gelo e o aumento do nível dos oceanos se voltará contra o manto de gelo e os penhascos marítimos, aumentando cada vez mais a perda de gelo.  

Se confirmando esse cenário, o aumento do nível dos oceanos até o ano de 2100 chegará a cerca de 150 milímetros. A partir de então, o derretimento do gelo da Antártida poderá representar um aumento de 5 milímetros por ano no nível dos oceanos. Mantido esse cenário, o nível dos oceanos poderá aumentar cerca de 1,5 metro até o ano 2300, um cenário nada animador para as futuras gerações. 

A notícia desanimadora desse estudo é que, qualquer que seja o limite no aumento das temperaturas globais, o gelo da Antártida vai continuar derretendo e provocando um aumento contínuo no nível dos oceanos. O que está em jogo são as consequências que toda a humanidade arcará até o ano 2100: um oceano entre 80 e 90 milímetros mais alto, ou, na hipótese de um aumento maior das temperaturas, de um oceano até 150 milímetros mais alto. 

Para mostrar o quão preocupante são as questões do derretimento da capa de gelo da Antártida e do aumento do nível dos oceanos, gostaria de mostrar os impactos que estão sendo previstos para um dos países mais pobres do mundo – Bangladesh. O país, que já fez parte do território da Índia, tem cerca de 148 mil km² e conta com uma população de 163 milhões de habitantes. 

Cerca de 90% das terras de Bangladesh tem uma altitude máxima de 10 metros em relação ao nível do mar. Para piorar, o território bangladês recebe todas as águas do trecho final de duas grandes bacias hidrográficas – dos rios Ganges e Brahmaputra. Durante o período das Chuvas da Monção, metade do território de Bangladesh já fica inundado. Com um aumento do nível das águas do Golfo de Bengala, haverá uma tendência de crescimento das terras inundáveis.  

De acordo com estudos realizados pela Diretoria de Gestão de Mudança Climática e Risco de Desastres do Banco Asiático de Desenvolvimento, um eventual “aumento do nível do mar poderia inundar periodicamente 14% da superfície de Dhaka, e as zonas mais próximas a Sundarbans terão pior sorte”. Os estudos também mostram que uma área de 47 mil km² próxima da costa do país ficará sujeita aos impactos de fortes tempestades, ciclones e aumento da salinidade. Nessa região vive cerca de 40 milhões de pessoas ou o equivalente a 25% de toda a população de Bangladesh.  

Em termos econômicos, as mudanças no padrão climático serão simplesmente catastróficas. A produção do arroz, o produto mais importante da agricultura local, sofreria perdas ente 17% e 28%. A agricultura responde por 20% do PIB – Produto Interno Bruto, de Bangladesh e ocupa 48% da mão de obra. Outros dois importantes setores da economia do país, a indústria do desmonte naval e a têxtil, também serão fortemente impactadas.  

Dhaka, a maior e mais importante cidade de Bangladesh, sedia milhares de pequenas oficinas de corte e costura e já sofre imensamente com o drama das enchentes – basta uma chuva de meia hora para inundar toda a cidade. Já os estaleiros espalhados ao longo da costa, esses ficariam com suas operações completamente inviabilizadas.  

Os modelos matemáticos criados pelos especialistas do Banco Asiático de Desenvolvimento indicam que um aumento na temperatura global de 2° C poderá levar Bangladesh a perder 8,8% do PIB até o ano de 2100. Até o ano de 2030, estão sendo estimados gastos anuais da ordem de US$ 89 milhões apenas para adaptar o país a resistir aos primeiros impactos ambientais. A partir do ano de 2050, esses investimentos precisarão ser quadruplicados e serão necessários investimentos anuais de US$ 369 milhões em obras para o combate dos efeitos das mudanças climáticas. Em um país onde a renda per capita é pouco superior a US$ 400.00, isso é muito dinheiro. 

Bangladesh é apenas um exemplo – existem dezenas e mais dezenas de países em todo o mundo com características físicas de seu território exatamente iguais, onde os impactos da elevação do nível dos oceanos seriam igualmente catastróficos. Lamentavelmente, a maioria desses países é quase tão pobre quanto Bangladesh. 

Nós brasileiros também precisamos nos preocupar com esse problema – a maior parte de nossa população vive em áreas litorâneas ou bem próximas a costa, que serão impactadas diretamente pelo aumento do nível do Oceano Atlântico. Conforme comentamos na postagem anterior, muitas cidades do nosso litoral já sofrem com o avanço gradual do mar. 

Apesar de muita gente, inclusive alguns cientistas, ainda duvidarem do aquecimento global, o cenário está ficando cada vez mais complicado, em especial na Antártida. 

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