ERA UMA VEZ UM SONHO CHAMADO ”ERETZ YISRAEL”

O Estado de Israel possui um território com apenas 20 mil km², algo equivalente ao nosso Sergipe. Além de muito pequeno, o país possui um clima árido na maior parte do seu território – perto de 80% de suas terras são formadas por terrenos semiáridos, desérticos e também por formações rochosas. Um complicador extra é a grande escassez de recursos hídricos. As chuvas são reduzidas e muito mal distribuídas, e o único rio importante do país é o lendário Jordão. 

Apesar da natureza, literalmente, conspirar contra Israel, o pequeno país é um gigante agropecuário e um dos líderes mundiais no desenvolvimento de tecnologias agrícolas. Um exemplo – os tomates-cereja que muitos dos leitores devem apreciar foi criado em centros de pesquisas em Israel. Outra grande conquista do país, essa no campo tecnológico, são os modernos sistemas de irrigação por micro gotejamento usados em todo o mundo. 

Antes de falarmos dos verdadeiros “milagres” que os israelenses vêm fazendo há mais de um século nas disputadas terras da Palestina, transformando “desertos em jardins”, é preciso entender as raízes históricas que levaram à recolonização das terras do antigo Reino de Israel, ou Eretz Yisrael em hebraico, por judeus depois de quase 2 mil anos de diáspora (ou dispersão) pelos quatro cantos do mundo. 

Sem entediá-los demais com detalhes históricos, a saga da dispersão dos judeus pelo mundo teve início no ano 70 d.C., quando tropas romanas destruíram Jerusalém e forçaram os judeus a abandonar suas terras. Essa migração forçada levou à criação de inúmeros núcleos judeus por todo o Oriente Médio, Ásia Central, Europa e Norte da África. Desde então, falando de uma forma muito resumida, um eventual retorno à terra de origem, ou o Eretz Yisrael, passou a fazer parte da cultura e, de certo modo, até de dogmas religiosos dos judeus. 

A ideia de um retorno organizado dos judeus para as antigas terras da Palestina ganhou muita força entre as comunidades de judeus da Europa Central e do Leste Europeu a partir de meados do século XIX. Esse foi um período de forte nacionalismo entre diversos povos da região e as comunidades judaicas acabaram sendo “contaminadas” pelas novas ideias, em especial a partir da década de 1880

Dois marcos importantes desse período foram a criação da revista Selbstemanzipation (Autodeterminação) por Nathan Birnbaun, um escritor judeu natural de Viena, em 1885, e também pelo lançamento do livro Der Judenstaat (O Estado Judeu) por Theodor Herzl, um escritor judeu de nacionalidade austríaca, em 1895. Esses escritos seriam determinantes para a criação do “movimento sionista”. Também foram destaques os rabinos (líderes religiosos judeus) Judá Alkalai, Naftali BerlinTzvi Kalisher, Samuel Mohiliver e Isaac Jacob Reines

Uma forma de se perceber a força que as ideias sionistas ganharam no período foi a popularização da expressão Vaiter yor in Irushilim – Ano que vem em Jerusalém, um cumprimento que passou a ser usado pelos membros das comunidades judaicas. Em 1897, foi organizado na cidade de Basileia, na Suíça, o Primeiro Congresso Sionista. Reunindo mais de duzentos participantes, o Congresso discutiu, entre outros temas, o local onde seria fundado o novo Estado Judeu.  

Entre as alternativas estavam a Ilha de Chipre, a Patagônia argentina, colônias europeias na África como o Congo e Uganda e também a Palestina Otomana. Por razões históricas, venceram os partidários da Palestina. O Congresso também resultou na criação da Organização Sionista Mundial, entidade que viabilizaria economicamente a compra de terras na Palestina e o assentamento de comunidades judaicas na região. 

Os primeiros imigrantes judeus que se estabeleceram na Palestina dentro do sionismo moderno eram de origem russa e começaram a chegar na região em 1882. Eles formavam um movimento chamado Bilu (Pioneiros) e buscaram asilo na sua terra ancestral fugindo das leis antissemitas introduzidas pelo Czar Alexandre II da Rússia. Esse grupo era formado por 14 estudantes universitários, tendo como líder Israel Belkind. Após muitos altos e baixos, o grupo conseguiu apoio financeiro e, em 1886, fundou uma vinícola em Rishon Lezion

A partir dos últimos anos do século XIX, milhares de imigrantes originários de toda a Europa, Rússia e Estados Unidos passaram a chegar na Palestina com apoio da Organização Sionista Internacional. Esses imigrantes passaram a se estabelecer em terras compradas de árabes da região por companhias internacionais. Essas terras eram, na sua imensa maioria, formadas por solos semiáridos e considerados “imprestáveis” para qualquer tipo de prática agrícola por seus antigos proprietários. 

Contando com apoio internacional de seus pares, esses pioneiros passaram a se dedicar a trabalhos de pesquisas técnicas para a recuperação desses solos – limpeza de campos rochosos, construção de terraços agrícolas, drenagem de áreas pantanosas, dessalinização de solos, reflorestamento e contenção de encostas, desenvolvimento de sistemas de irrigação, entre outras intervenções. Foram esses esforços que criaram as bases da agricultura israelense moderna. 

O movimento migratório de judeus para a Palestina ganhou muita força ao longo e após a Segunda Guerra Mundial, quando milhares de pessoas, fugindo principalmente da perseguição político/religiosa da Alemanha Nazista, tentavam recomeçar a vida na Palestina (vide foto). A entrada desses refugiados foi bastante dificultada pela Inglaterra e pela França, potencias coloniais que assumiram o controle da Palestina com a derrocada do Império Otomano após a Primeira Guerra Mundial.  

Em 1948, a Assembleia Geral da ONU – Organização das Nações Unidas aprovou, sob muita pressão, a polêmica criação do Estado de Israel. A consolidação da pequena nação levaria ainda muitas décadas e demandaria muito esforço – especialmente militar. Para os amantes de cinema, recomendo os filmes “Exodus”, de 1960, dirigido por Otto Preminger, e “À sombra de um gigante” (Cast a giant shadow), de 1966, dirigido por Melville Shavelson, que contam emocionantes histórias dos primeiros anos do Estado de Israel. 

Sem nos envolvermos nas questões políticas com os países vizinhos e, especialmente, com a importante causa do povo palestino, o Estado de Israel se transformou em uma referência mundial em agricultura. Desde 1948, a área agrícola do país aumentou de 165 mil hectares para 435 mil hectares, ocupando principalmente áreas de deserto com sistemas de irrigação. A produção agrícola aumentou 16 vezes nesse período

A produção de frutas é um dos destaques de Israel – são mais de 40 tipos. Além de frutas cítricas como laranjas, grapefuits e tangerinas, se incluem ameixas, nectarinas, morangos, peras, caquis e romãs. Também merecem destaque a produção de uvas e vinhos, verduras, legumes e grãos como sorgo, trigo e milho. Também são relevantes as produções de leite e de flores. A produção agrícola representa 2,5% do PIB – Produto Interno Bruto, e 3,6% das exportações do país, principalmente para Europa

Na próxima postagem vamos detalhar melhor os fundamentos que levaram Israel ao grande êxito nessa área, principalmente com o apoio de sistemas de irrigação e uso racional dos escassos recursos hídricos. 

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