ÁFRICA: O NOVO CELEIRO DO MUNDO OU DA CHINA?

Desde o início da Era das Grandes Navegações na Europa do século XV, a África foi transformada em uma espécie de almoxarifado geral do mundo. Primeiro, o continente forneceu milhões de escravos para atender as demandas de produção agropecuária e de mineração nas Américas. Depois, a maior parte dos territórios foi partilhada entre as grandes potências europeias, que fizeram o que bem entenderam com os recursos naturais e com as populações. 

Depois dos diversos processos de independência que varreram o extenso território ao longo de todo o século XX, a Àfrica foi sendo esquecida pelas suas antigas metrópoles. A divisão artificial dos territórios feita pelos europeus, onde não se respeitou os antigos domínios tribais, acabou resultando em inúmeras guerras. Os responsáveis pelo caos se fizeram de “mortos” – com a independência vem a responsabilidade: então, se virem! 

Os chineses “descobriram” a África no início da década de 1960. Timidamente e muito longe da potência econômica atual, a China de então ajudou a financiar a construção da Ferrovia Tazara, que ligou a Tanzânia a Zâmbia. Paulatinamente e em silêncio, os investimentos chineses foram crescendo nesse grande pedaço esquecido do mundo. Hoje, a China tem uma presença forte nos 54 países da África. 

O continente africano é onde os chineses mais investem atualmente. De acordo com informações da publicação Hoje Macau, jornal de Macau (Região Autônoma da China) publicado em língua portuguesa, somente no primeiro semestre de 2016, os chineses investiram mais de US$ 50 bilhões em países africanos, superando os investimentos de americanos e europeus. Entre os anos 2000 e 2015, a China concedeu US$ 95 bilhões em empréstimos e linhas de crédito para Governos e empresas estatais africanas. E de lá para cá o ritmo desses investimentos não diminuiu

Mais de 63% desses empréstimos foram destinados a obras de infraestrutura como ferrovias e rodovias, além de projetos nas áreas de energia e telecomunicações. Países como Angola, Etiópia, Quênia e Sudão lideram a lista dos investimentos. Um exemplo é a polêmica Hidrelétrica Grande Renascença na Etiópia, prevista para gerar 6 mil MW de energia elétrica a partir do represamento das águas do rio Nilo. 

O Nilo é o segundo rio mais importante da África, só ficando atrás do rio Congo. A bacia hidrográfica do rio Nilo abrange um total de 9 países: Egito, Sudão, Etiópia, Uganda, Tanzânia, Quênia, República Democrática do Congo, Burundi e Ruanda. Mais de 500 milhões de pessoas dependem, direta ou indiretamente das águas do rio Nilo

Esse verdadeiro mundo de gentes e águas tem um grande nó: no final da década de 1950, o então Império Britânico criou um “tratado” (para atender aos interesses de suas antigas colônias), reservando 80% das águas do rio Nilo para atender os usos do Egito e do Sudão. A Etiópia começou a construção da sua grande barragem sem pedir autorização para os “donos” das águas do rio Nilo, uma atitude que poderá, inclusive, gerar um conflito armado com os demais países da bacia hidrográfica

O lago que será formado pela barragem Grande Renascença terá uma extensão de 250 km e permitirá o desenvolvimento de uma infinidade de projetos agropecuários na região das Savanas e dos terrenos semiáridos etíopes. Para quem não conhece, as Savanas da África são biomas muito parecidos com o nosso Cerrado. Usando tecnologias para irrigação e sementes adaptadas, essa extensa região poderá ser transformada em um fabuloso celeiro de grãos, que tem a grande vantagem de estar localizado a pouco mais de 1/3 da distância da China em relação ao Brasil e aos Estados Unidos. 

Um outro país onde os investidores chineses buscam viabilizar projetos agropecuários é Angola. Depois de conviver por décadas com uma sangrenta guerra civil, Angola vem buscando investimentos externos para alavancar a economia de um país rico em recursos como minerais e petróleo. O foco de interesse dos chineses é região Leste do país onde se encontram as nascentes do rio Okavango

Com cerca de 1.600 km de extensão, o Okavango é um dos mais importantes rios da África Austral. Suas águas correm desde as montanhas de Angola para as profundezas do Deserto do Kalahari na Namíbia, onde uma grande fossa tectônica desvia seu curso para o interior do continente. Em Botswana, o rio deságua em um grande delta interior, onde forma uma grande planície alagável com mais de 15 mil km² – o Delta do Okavango

As planícies semiáridas ao longo da bacia hidrográfica do rio Okavango em território angolano sustentam atualmente dezenas de milhares de famílias de agricultores pobres, que com muito custo conseguem colher 100 kg de painço para cada hectare cultivado. Os investidores chineses imaginam que, com o uso de alta tecnologia agrícola e sistemas de irrigação, esses solos possam produzir quantidades exponencialmente maiores de grãos como soja e milho. 

Entre as grandes ambições dos investidores chineses e suas montanhas de dinheiro, existem, entretanto, alguns grandes problemas. O primeiro deles é a corrupção sistêmica que assola a imensa maioria dos Governos da África. Se você acha que os políticos brasileiros são corruptos, saiba que eles são ‘pintos pequenos” diante de grandes ícones da política africana. Vou citar como exemplo José Eduardo dos Santos, ex-presidente de Angola, que tem uma fortuna pessoal estimada em US$ 20 bilhões. 

Outro gravíssimo problema é a enorme divisão étnica e cultural das populações dos países, existindo inclusive grande hostilidade entre diferentes grupos. Um exemplo é Ruanda, um pequeno país dividido entre hutus tutsis. Ao longo dos conflitos étnicos entre esses dois grupos em 1994, podem ter sido mortas até 800 mil pessoas (não existem estatísticas precisas). Também é importante lembrar que a África já tem uma população de 1,2 bilhão de habitantes e muito do que for produzido terá de ficar no continente para sustentar essa grande massa de gentes

Outro exemplo é o Congo, país que abriga importantes jazidas minerais e onde grandes empresas chinesas de mineração da China estão em operação. O país conta com um Governo oficial e possui, pelo menos, cinco grandes lideranças rebeldes com grandes exércitos próprios que comandam diferentes áreas do país. Esses rebeldes se valem dos lucros obtidos com a exploração de recursos minerais valiosos como ouro, diamantescoltan para comprar armamentos e financiar seus exércitos.  

Grandes projetos agropecuários ou de infraestrutura que se tenha em mente em qualquer região da África precisam ser negociados com os respectivos Governos oficiais e com diferentes milícias regionais. Os chineses conhecem bem esses problemas, mas, diante dos problemas maiores que envolvem a segurança alimentar da sua imensa população, eles não tem deixado de tentar fazer os seus “negócios da China” na África. 

Num curto e médio prazo, grandes países produtores como o Brasil, os Estados Unidos, Austrália e a Argentina, ainda não precisam perder noites de sono preocupados com a concorrência dos grãos africanos. Num futuro um pouco mais distante, porém, é bom já ir pensando em deixar as “barbas de molho”… 

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