A DERROCADA DA AGROPECUÁRIA NA ARGENTINA, OU O “TANGO DO PORTEÑO DOIDO”

Segundo a base de dados do Maddison Project, criada pelo economista e prêmio Nobel de economia Angus Maddison e que fornece informações sobre o crescimento econômico comparativo e os níveis de renda dos países no longo prazo, a Argentina possuía o maior PIB – Produto Interno Bruto, per capita do mundo em 1896. Naqueles bons tempos, um argentino tinha um rendimento, em média, 29% maior que um francês e 14% maior que um alemão. Quando a comparação envolvia japoneses e brasileiros, a diferença era maior ainda: os rendimentos eram 3 e 5 vezes maiores, respectivamente. 

A origem da riqueza da Argentina começou na década de 1860, quando a produção agropecuária do país começou a crescer vertiginosamente. Os solos férteis da Pampa passaram a ser ocupados por grandes plantações de trigo, cultura que veio se juntar a já tradicional pecuária. Uma complexa rede de trilhos ferroviários passou a ligar as regiões produtoras aos portos do país, em especial o de Buenos Aires, e da lá os produtos argentinos seguiam para alimentar o mundo. 

Um exemplo da riqueza extraordinária do país nesse período foi a inauguração em Buenos Aires da primeira e única filial da famosa loja Harrods fora da Inglaterra em 1912. Já no ano seguinte, a cidade assistiu a inauguração da primeira linha de metrô da América Latina. A Capital porteña era, há época, a terceira maior cidade das Américas, ficando atrás de Chicago e Nova York. Nessa época, apenas para efeito de comparação, a cidade do Rio de Janeiro, que então era a capital do Brasil, recém havia eliminado os focos de mosquitos que causavam as grandes epidemias de febre amarela na cidade mais importante do país. 

A prosperidade argentina aumentou ainda mais durante a Primeira Guerra Mundial (1914-1918), período em que o país se tornou o principal fornecedor de alimentos para as nações que se aliaram na luta contra a Alemanha. Um dos principais produtos argentinos dessa época eram as carnes cozidas e enlatadas, que abasteciam diretamente os milhões de soldados que lutavam nos fronts.  

Essa fase dourada das exportações e da grande riqueza do país se manteria até o fatídico ano de 1929, quando ocorreu a quebra da Bolsa de Valores de Nova York e o mundo nunca mais seria o mesmo. A decadência contínua da economia argentina ganharia um outro componente em 1946, quando ascendeu ao poder o General Juan Domingo Perón, político que criaria um conceito de assistencialismo governamental populista que até hoje é muito forte no país – o peronismo. 

Nesse ano que passou, quando a Argentina estava imersa em mais um capítulo da sua interminável crise econômica, o país foi atingido em cheio pelas notícias da pandemia da Covid-19 e o Governo decretou aquele que seria o lockdown mais longo de todo o mundo. Para um país que já enfrentava uma grave recessão econômica, desemprego e aumento crescente da pobreza, corrosão das reservas financeiras e fuga de capitais, o fechamento da economia só fez o tamanho do desastre aumentar. 

Uma das primeiras medidas econômicas anunciadas pelo Governo no enfrentamento da pandemia da Covid-19 ainda em março de 2020, foi o aumento do imposto sobre as exportações de soja, que passou de 30% para 33%. Com uma produção da ordem de 60 milhões de toneladas, a Argentina é o terceiro maior produtor mundial de soja, só ficando atrás do Brasil e dos Estados Unidos. As exportações do produto, principalmente do farelo de soja que é usado para a produção de ração para animais, é vital para a economia do país. 

Essa sobretaxação do produto, que aumentou ainda mais um imposto que já era considerado extremamente elevado para os produtores, desencadeou uma crise gigantesca. Muitos produtores optaram por não colher a soja dos seus campos e, muito pior, concluíram que seria mais barato queimar as plantações ou simplesmente gradear as plantas com tratores. Como o preço da commodity é determinado pelo mercado internacional, não há espaço para repassar mais esse aumento nos custos de produção. O resultado desses “protestos” foi uma redução de 11,6% na safra da soja em relação ao ano de 2019. 

Além dos problemas ligados a produção da soja, importantes regiões agrícolas do país sofreram com a falta de chuvas ao longo do ano, um problema que comprometeu outras duas importantes culturas agrícolas do país: o milho e o trigo. Os produtores esperavam colher 50 milhões de toneladas de milho, mas só conseguiram colher 47 milhões de toneladas. Já no caso do trigo, a expectativa era de 21 milhões de toneladas, mas só foram colhidas 17,5 milhões de toneladas

Dando um tempero extra ao já complicado “caldo” da produção agrícola na Argentina em 2020, caminhoneiros, fiscais alfandegários e estivadores realizaram inúmeros protestos e paralizações em suas atividades para pressionar o Governo a aumentar as medidas de proteção contra a epidemia da Covid-19. Os sucessivos adiamentos nas exportações de commodities agrícolas comprometeram profundamente os níveis das reservas internacionais da Argentina, que praticamente zeraram em alguns momentos ao longo de 2020. 

Como se os problemas criados para a produção e exportação de grãos já não fossem suficientemente grandes, o Governo argentino tomou uma medida populista e chegou a impor limites para as exportações de milho do país. Matéria prima essencial para a produção de rações para animais, o milho é fundamental para a produção pecuária na Argentina – na cabeça dos governantes locais, ao se aumentar a oferta de milho para a produção de ração, os criadores argentinos de gado aumentariam os seus rebanhos e garantiriam o fornecimento de grandes volumes de carne barata para a população. Só que, como diz um velho ditado, “teoria na prática é outra coisa”. A exemplo de muitas empresas que optaram por abandonar a Argentina – o caso mais emblemático foi o Mercado Livre, muitos pecuaristas se mudaram de “mala e cuia” para o Uruguai.

Um argentino médio consumia anualmente cerca de 70 kg de carne até bem poucas décadas atrás – com as sucessivas e intermináveis crises econômicas do país, esse consumo já baixou para 50 kg/ano (é provável que tenha caído ainda mais ao longo de 2020). Para nós brasileiros, que consumimos algo próximo dos 37 kg/ano, esse número é bastante razoável; para os carnívoros argentinos, porém, isso é uma verdadeira tragédia – a carne é considerada um alimento básico por lá. 

Segundo muitas projeções econômicas internacionais, a economia da Argentina pode ter sofrido uma retração de aproximadamente 12% no ano de 2020. O número oficial ainda não foi fechado pelo Governo e, há muitos anos, as estatísticas do país são “editadas” – talvez esses números mostrem um cenário “menos pior” que a realidade. O índice mais grave, entretanto, se refere ao número de pessoas pobres no país – 42% da população já vive abaixo da linha da pobreza e cerca de 10% são considerados indigentes. Esses números já vinham crescendo há vários anos, porém, com o fechamento da economia por causa da Covid-19, os números explodiram. Forçar a mão sobre os produtores de gado para conseguir oferecer carne mais barata para essa população foi uma tentação irresistível para o Governo peronista da Argentina. 

Eu costumo assistir os noticiários da televisão argentina e lembro de ter visto que o Governo criou vários postos para a venda de carne mais barata nas principais cidades do país. Em dias determinados, gigantescas filas se formavam nesses locais – as pessoas passavam horas esperando até conseguir trocar seus desvalorizados pesos por alguns quilos de carne. 

Esse populismo de “quinta” categoria remete à lembrança imagens de tempos passados, quando a então Primeira-Dama da Argentina, Eva Perón (vide foto), mais conhecida como Evita (1919-1952), realizava trabalhos de assistência social aos mais pobres, inclusive, distribuindo notas de dinheiro. As pessoas formavam as mesmas filas gigantescas, onde passavam horas até chegar sua vez de receber uma nota de alguns pesos diretamente das mãos da “Mãe dos pobres”. 

Graças à excepcional qualidade de suas terras, a Argentina já foi um dos maiores produtores e exportadores de alimentos do mundo. Porém, ao longo das últimas décadas, possuir terras férteis para a produção agrícola e pecuária deixou de ser relevante para um país. O caso da Região Centro-Oeste do Brasil é um grande exemplo – graças ao uso da tecnologia, foram criadas sementes de grãos que crescem em solos ácidos e de baixa fertilidade – nosso desprezado Cerrado se transformou num verdadeiro celeiro agropecuário.

As tecnologias para a produção de fertilizantes e para a correção dos solos também evoluíram bastante e terras que eram consideradas improdutivas em várias partes do mundo hoje batem recordes nas colheitas. A alta fertilidade das terras dos Pampas argentinos deixou, há muito, de ser um diferencial estratégico para o país e uma garantia de altos rendimentos nas atividades agropecuárias. Infelizmente, os dirigentes do país parecem não estar vendo isso e as coisas desandam cada vez mais.

Enquanto a produção nos campos da Argentina perde o seu rumo, há uma pressão muito forte para o aumento mundial da produção de alimentos, principalmente pela crescente demanda da China, uma situação que está criando excelentes oportunidades de negócio para os países produtores. O Brasil está se beneficiando, e muito, dessa alta demanda. 

Enquanto isso, nossos hermanos argentinos dançam seu tango, cada vez mais trágico. É de chorar pela Argentina… 

PS: O título da postagem faz uma referência irônica a expressão “samba do criolo doido“, que é usada, no Brasil, para se referir a coisas sem sentido, situações incompreensíveis e também a textos mirabolantes e sem nexo.

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