AMAZÔNIA SUSTENTÁVEL: O AÇAÍ E O PALMITO DO AÇAIZEIRO

Há bem pouco tempo atrás, assistindo uma série de comédia norte-americana num canal de streaming, fiquei surpreso com uma cena: dentro de uma suposta base militar da força espacial americana nos confins do Estado do Colorado, alguns militares seguem até um quiosque de lanches para tomar açaí. 

Como eu estava assistindo o filme com dublagem em português, eu fiz questão de voltar a imagem para ouvir o diálogo no áudio original em inglês – e não é que os “gringos” estavam falando de açaí mesmo! Um dos atores, identificado nos diálogos como um caipira do Alabama, pronunciava “eçaí”. Em sequência, a imagem mostrava duas mulheres da base se deliciando e elogiando o sabor da iguaria – a cor escura da massa não deixava qualquer dúvida em se tratar do típico fruto amazônico. 

Não muito tempo depois, desta vez vasculhando aleatoriamente um canal de divulgação de vídeos, encontrei a postagem de um alemão que estava dando dicas de onde comprar açaí nos supermercados de Munique e também de como servir à “moda dos brasileiros”. 

Esse sucesso do açaí para além das fronteiras da Região Amazônica também pode ser facilmente confirmado em cidades por todo o Brasil, onde têm se tornado cada vez mais comum a presença de lanchonetes que servem o produto. Até uns vinte anos atrás eram raros os lugares onde se podia apreciar o sabor surpreendente do açaí fora de cidades como Belém, Porto Velho e Manaus. 

De acordo com dados do IBGE – Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística, a produção de açaí em 2016 foi da ordem de 215 mil toneladas; em 2000, esse volume havia sido de 121 mil toneladas. O Estado do Pará, maior produtor brasileiro de açaí, exportou cerca de 2,3 milhões de toneladas em 2018 para países como Estados Unidos, União Europeia e Japão – os norte-americanos, aliás, consomem 40% das exportações de açaí do Pará. Para efeito de comparação, o pequeno Estado de Israel, com um território de parcos 20 mil km², dos quais 60% são desertos e terrenos semiáridos, exporta 1,5 milhão de toneladas de frutas por ano. Nós temos espaço de sobra para aumentar a nossa produção e ampliar drasticamente os volumes de exportação. 

O açaí (Euterpe oleracea) é o fruto de uma palmeira muito comum em toda a Região Amazônica, a palmeira-açaí ou açaizeiro. A planta costuma se desenvolver nas áreas de várzea, um ambiente dos mais comuns na grande floresta equatorial. Os frutos maduros caem diretamente nos rios ou são arrastados pelas chuvas, mecanismo que garante a dispersão das sementes e a colonização de novas áreas com as plantas. As palmeiras crescem em moitas, onde se desenvolvem de 3 a 25 troncos com diâmetro médio de 14 cm e altura de mais de 12 metros. 

Estudos científicos indicam que o açaí é um dos frutos mais ricos e nutritivos da Amazônia. É fonte de minerais como o manganês, bromo, cobre e cromo, além de vitamina E, sendo considerado tão energético quanto o leite. Além de sua extensa distribuição pela Amazônia brasileira, especialmente nos Estados do Pará, Amapá, Maranhão, Amazonas e Acre, a palmeira-açaí também é encontrada na Venezuela, Equador, Colômbia e nas Guianas. 

Existem evidências arqueológicas que indicam o consumo do açaí por populações indígenas da Amazônia há milhares de anos. Esse hábito foi absorvido pelas populações ribeirinhas que se assentaram na região com a colonização do Brasil, transformando o açaí num dos mais importantes alimentos da Região Norte. 

No preparo tradicional dos ribeirinhos, os frutos maduros são despolpados manualmente depois de ficar por um período de molho em água. A polpa é misturada com água até formar um suco grosso conhecido como vinho de açaí. Entre as populações da Amazônia essa polpa é consumida normalmente misturada com farinha de mandioca ou tapioca. Também é comum o preparo de um pirão com farinha, usado como acompanhamento de peixes e camarões. Mais recentemente, o açaí passou a ser consumido na região em forma de suco batido com açúcar. 

Muitos ribeirinhos sobrevivem colhendo e transportando açaí para venda em mercados nas grandes cidades da Amazônia. Certa feita, eu acompanhei a chegada de dezenas de pequenas embarcações carregadas com açaí no famoso mercado Ver-o-Peso em Belém. Os ribeirinhos desembarcavam grandes balaios com os frutos. No local existem dezenas de quiosques que preparam o açaí para o consumo no local e muitos outros que vendem o fruto in natura para se levar para casa. 

Os coletores de açaí nas áreas de matas e várzeas usam uma antiga técnica indígena para escalar as palmeiras e cortar os grandes cachos com os frutos – a peconha. Trata-se de uma pequena corda feita com fibras vegetais trançadas, que é presa aos pés para facilitar a subida pelos troncos. Usualmente, os frutos são removidos dos cachos e colocados em grandes cestos feitos com fibras vegetais, facilitando assim o embarque e transporte nas canoas. Algumas vezes, os frutos são carregadas em cachos até os mercados. 

Além do fruto, a palmeira-açaí também produz um palmito de excelente qualidade, que vem fazendo muito sucesso em todo o Brasil e em muitos países do mundo. Diferente do palmito extraído da palmeira-jussara (Euterpe edulis Mart.), muito comum no bioma Mata Atlântica e onde é preciso matar a planta para a extração da iguaria, o açaizeiro permite o corte de um ou mais troncos sem prejudicar a planta. Novos troncos voltarão a brotar depois de algum tempo. 

Além dessa produção altamente sustentável e ambientalmente correta dos frutos e do palmito, o açaizeiro também tem outros diversos usos para as populações da floresta – suas folhas são usadas para a cobertura de casas. As fibras do tronco são usadas na fabricação de chapéus, esteiras e cestas. A madeira dos troncos é usada na construção de casas e pontes. Os cachos secos são usados como vassouras ou podem ser transformados em adubo orgânico. Além disso, a fumaça da queima desses cachos funciona com um bom repelente de insetos. 

Juntos, o açaí e o palmito do açaizeiro formam uma excelente dupla de “garotos-propaganda” do uso sustentável dos recursos naturais da Floresta Amazônica. É preciso estimular e apoiar cada vez mais as populações tradicionais e as empresas locais que processam e exportam esses produtos para todo o Brasil e o mundo, mostrando assim o valor real que nós brasileiros damos à Floresta Amazônica

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