OS MUITOS MALES QUE RECAEM SOBRE O RIO SÃO MATEUS (OU CRICARÉ) NO NORTE DO ESPÍRITO SANTO

Pero de Magalhães Gândavo foi um intelectual de destaque há sua época. Era professor de latim e de português no Norte de Portugal e depois trabalhou como secretário na Torre do Tombo, o Arquivo Geral do Reino de Portugal. Entre cerca de 1558 e 1572 esteve no Brasil, onde trabalhou na Secretaria da Fazenda do Governo Geral da Capitânia em Salvador. 

Em 1576, já tendo retornado para Portugal, Gândavo publicou um dos primeiros relatos detalhados sobre o Brasil – A História da Província de Santa Cruz, a que vulgarmente chamamos Brasil. Esse texto, que você poderá achar facilmente na internet, é uma fonte preciosa de informações sobre os primeiros tempos da colonização do nosso país. Ali existem informações sobre os engenhos de açúcar e as plantações de cana, os primeiros colonos, os indígenas e também sobre a terra. 

Um registro importante sobre a então Capitânia do Espírito Santo informava que possuía “um engenho, tira-se dele o melhor açúcar que há em todo o Brasil“. Infelizmente, a Capitânia também tinha uma enorme área do seu território controlada pelos temíveis índios botocudos. Pero Gândavo, é claro, registrou suas impressões sobre esse povo: 

Chamam-se Aymorés, a língua deles é diferente dos outros índios, ninguém os entende, são eles tão altos e tão largos de corpo que quase parecem gigantes; são muito altos, não parecem com outros índios da Terra.” 

Os botocudos ocupavam um extenso território que englobava todo o Sul da Bahia, o Norte do Espírito Santo e uma faixa entre o Nordeste e o Leste de Minas Gerais. As Capitânias de Ilhéus e de Porto Seguro na Bahia não conseguiram prosperar devido aos furiosos ataques desses índios e foram abandonadas. No Espírito Santo, os ataques foram concentrados na Vila do Espírito Santo, um assentamento criado em 1535. Depois de anos sob ataque dos índios, os colonos mudaram para a Ilha de Santo Antônio, onde fundaram a Vila Nova do Espírito Santo, atual cidade de Vitória. O antigo assentamento passou a ser conhecido como Vila Velha. 

Entre os inúmeros embates entre colonizadores e indígenas no Espírito Santo destaca-se um grande cerco à Ilha de Santo Antônio por diversas tribos em 1557. Em socorro aos locais, o Governador Geral, Mem de Sá, enviou uma grande esquadra com forças militares sob o comando de seu filho, Fernão de Sá. Após derrotar esses indígenas, a esquadra seguiu para o Norte da Capitânia, onde o grosso das forças dos indígenas estava concentrada numa aldeia fortificada às margens do rio Cricaré, conhecido atualmente como rio São Mateus, e em meio a densa floresta da Mata Atlântica

As naus da esquadra entraram pela foz do rio e bombardearam a aldeia com seus canhões. No dia 22 de maio de 1558, após uma sangrenta batalha com pesadas baixas lusitanas e onde o próprio comandante Fernão de Sá foi morto, as forças portuguesas conseguiram vencer. Como lembrança desse grande feito, a Vila Nova do Espírito Santo passaria a ser conhecida como Vitória. Muitos outros embates com esses indígenas ainda se desenrolariam ao longo dos séculos seguintes. 

Os últimos focos de resistência dos botocudos seriam “pacificados” no final do século XIX. A densa vegetação de Mata Atlântica do Norte do Espírito Santo ainda resistiria até meados do século XX, quando foi transformada em fonte de madeira para a construção da cidade de Brasília. Já o caudaloso e imponente rio São Mateus de outrora, que permitia inclusive a entrada de grandes naus no seu baixo curso, hoje é uma pálida sombra do passado e sofre com a poluição, com o forte assoreamento e com a redução dos seus caudais. 

As nascentes do rio São Mateus ficam dentro dos domínios do Semiárido do Norte de Minas Gerais, mais precisamente no município de São Félix de Minas. De lá, o rio faz um percurso bastante sinuoso com aproximadamente 180 km até se encontrar com seu maior afluente, o rio Mariricu, já bem próximo de sua foz no Oceano Atlântico no Norte do Espírito Santo. O nome indígena do rio – cricaré, significa “preguiçoso” e ainda é muito utilizado pelas populações locais. 

Assim como aconteceu com outros rios da região do Semiárido Mineiro, como foi o caso do rio Jequitinhonha, o trecho inicial do rio São Mateus sofreu intensamente com os desmatamentos e a queima de vegetação para a formação de áreas de pastagens para a criação do gado e de campos agrícolas. Esse processo de ocupação territorial, chamado comumente de “colonização baiana”, foi bastante intenso entre as décadas de 1890 e 1930, resultando em enormes danos ambientais aos trechos locais dos biomas Caatinga e Mata Atlântica, e, consequentemente, aos corpos d’água da região. 

Os graves problemas na região das nascentes do rio São Mateus foram ampliados com o processo de devastação das áreas de Mata Atlântica no seu médio e baixo curso. Inúmeras pequenas nascentes e riachos que contribuíam para a formação dos caudais do rio foram desaparecendo junto com as matas. O golpe final veio com a substituição das florestas por áreas de pastagens e por campos agrícolas. A calha do rio São Mateus passou a sofrer intensamente com o carreamento de grandes volumes de sedimentos gerados por processos de erosão de solos agrícolas. O crescimento das cidades resultou no despejo de grandes volumes de esgotos in natura.

A situação do rio São Mateus e das populações que dependem das suas águas para o abastecimento é desesperadora, principalmente nos períodos da seca, quando os caudais diminuem dramaticamente. Com a redução da correnteza do rio, as águas do Oceano Atlântico invadem a calha do rio, transformando grande parte do seu baixo curso num rio de águas salobras. A cidade de São Mateus, que tem aproximadamente 130 mil habitantes e que capta águas do rio para o seu abastecimento, é uma das que mais sofrem com o problema

Essa intrusão de água do mar na calha de um rio, também conhecida como “língua salina”, é um problema que está afetando a região de foz de muitos rios brasileiros a exemplo do rio São Francisco. Além de comprometer a qualidade das águas dos rios, essa salinidade também pode infiltrar nos solos e atingir as reservas subterrâneas de água, um temor que assombra a população de São Mateus. 

Depois de sucessivas secas e dificuldades para o abastecimento da população, o SAAE – Serviço Autônomo de Águas e Esgotos, do município de São Mateus passou a perfurar poços artesianos para garantir a captação das águas usadas no abastecimento da população. Nesses últimos meses, o SAAE tem captado águas exclusivamente nesses poços e a população está reclamando muito da pouca quantidade e da baixa qualidade da água servida, que está muito barrenta. 

Devido à redução da vazão por causa da forte seca em suas nascentes, o nível de salinidade no baixo curso do rio São Mateus atingiu a impressionante marca de 600 ppm (partes por milhão) – o nível máximo recomendado pela OMS – Organização Mundial da Saúde, é de 250 ppm. Em muitos bairros da cidade, o abastecimento da população está sendo feito com caminhões-pipa. 

A recente campanha eleitoral que elegeu o novo prefeito da cidade foi marcada por inúmeras promessas de solução definitiva desse grave problema. Terminado o pleito, o agora prefeito reeleito terá a dura missão de transformar as promessas de campanha em uma realidade, algo que não será nada fácil. A pressão popular será enorme. 

Desgraçadamente, esse é um drama mundial que só tende a piorar ao longo dos próximos anos. Devido aos efeitos do aquecimento global e das mudanças climáticas, o nível dos oceanos tende a aumentar gradativamente. Falamos aqui de alguns poucos centímetros nas próximas décadas, mas para rios que já sofrem com o avanço das águas do mar, como é o caso do rio São Mateus, isso é muito mais problemático. 

Entre as medidas que poderão ser tomadas para ajudar a resolver parte desse problema, podemos citar o reflorestamento e a recuperação de áreas de nascentes. Essas medidas, que só terão efetividade a médio e longo prazo, permitirão que as águas das chuvas infiltrem com mais facilidade nos solos, recarregando os lençóis subterrâneos de água e os aquíferos, aumentando assim os volumes de água que brotam nas nascentes e alimentam o rio. 

Também será preciso gerir melhor os campos agrícolas e as áreas de pastagem, eliminando processos erosivos – a recuperação das matas ciliares é uma ótima alternativa. Por fim e não menos importante, os investimentos em saneamento básico e tratamento dos esgotos das cidades não poderão ficar de fora. 

Se nada disso for feito, é melhor as populações de São Mateus e de outras cidades da região irem logo se acostumando a tomar “café salgado” – o que já está mal poderá ficar ainda pior. 

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