A DEGRADAÇÃO E A DESTRUIÇÃO DOS RIOS DA MATA ATLÂNTICA

Ao longo de uma longa sequência de postagens, contamos de forma bem resumida a triste saga da Mata Atlântica. Aos tempos da chegada dos primeiros descobridores europeus às nossas terras, a Mata Atlântica ocupava perto de 1,2 milhão de km² ou cerca de 15% do atual território brasileiro. 

Ao longo de mais de cinco séculos de intensa degradação ambiental, ora para o plantio de cana de açúcar, ora para a plantio de café e exploração madeireira, a Mata Atlântica acabou reduzida a um sem número de fragmentos, que ocupam uma área entre 9 e 15% da área original, conforme a fonte consultada

Essa perda massiva de cobertura florestal trouxe inúmeros consequências das mais negativas para a flora e a fauna, mas, sobretudo, para os recursos hídricos da região outrora coberta pela luxuriante floresta. Rios e fontes de água dependem da boa “saúde” das áreas florestais – solos cobertos por densa vegetação propiciam uma melhor infiltração da água que recarrega os lençóis subterrâneos e os aquíferos, o que vai resultar em bons volumes de água brotando das nascentes, especialmente nos meses de seca. 

A cobertura florestal também protege as calhas dos rios do assoreamento e entulhamento. Solos desnudos expostos às chuvas sofrem processos erosivos, o que vai resultar em grandes volumes de sedimentos sendo carreados para o leito dos rios. A vegetação também retém galhos de árvores, troncos caídos, restos de folhas e de animais mortos, que também poderiam ser arrastados para as calhas dos rios e criariam pontos de represamento das águas e/ou poluição das águas. 

Grande parte da população brasileira vive dentro dos antigos domínios da Mata Atlântica, tanto em áreas urbanas quanto em propriedades rurais. O descaso histórico com a preservação dessa importante floresta tem como consequência uma alternância de períodos de carência de água em muitas regiões e de enchentes e alagamentos em outras – em comum, a maior parte desses problemas estão associados com a devastação da Mata Atlântica. 

Tomemos como exemplo as duas maiores cidades brasileiras – São Paulo e Rio de Janeiro: 

Entre os anos de 2014 e 2015, a Região Metropolitana de São Paulo sofreu com a maior estiagem de sua história. O Sistema Cantareira, um gigantesco conjunto de represas localizadas nas bordas da Serra da Mantiqueira, enfrentou uma drástica redução nos volumes de chuvas, o que resultou numa drástica redução do volume de água das represas.

Aliás, o Sistema entrou no chamado “volume morto”, quando o nível de água dos reservatórios fica abaixo do nível de captação. Todas as populações das cidades da Região Metropolitana de São Paulo e de Campinas foram obrigadas a enfrentar um rigoroso racionamento de água. 

A empresa responsável pela maior parte do abastecimento de água no Estado de São Paulo, a Sabesp, precisou realizar uma série de obras emergenciais para interligação de outros reservatórios do sistema e, assim, garantir um mínimo abastecimento à população. Passada a situação de emergência, duas coisas ficaram muito claras – a falta de planejamento da Sabesp e a necessidade de reflorestar grandes áreas ao longo das nascentes e dos rios formadores do Sistema Cantareira. 

A cidade do Rio de Janeiro também tem seríssimos problemas no seu sistema de abastecimento de águas, praticamente dependente do rio Guandu, um corpo d’água alimentado por águas transpostas a partir da bacia hidrográfica do rio Paraíba do Sul. Esse rio está totalmente inserido dentro dos domínios da Mata Atlântica e sofre com a poluição, com o assoreamento e com a perda de cobertura florestal. Mais de 80% da água utilizada no abastecimento da população da cidade do Rio de Janeiro e de várias cidades da Baixada Fluminense dependem das águas do rio Paraíba do Sul

Imaginem o que aconteceria a toda essa gente se ocorresse um acidente com uma barragem de rejeitos de mineração a exemplo do que se passou com o rio Doce, um outro importante rio da Mata Atlântica que corre desde Minas Gerais até o Espírito Santo? 

Esses são apenas dois exemplos de Regiões Metropolitanas densamente povoadas dentro dos domínios da Mata Atlântica, que dependem de rios degradados e poluídos do bioma. Existem centenas de cidades de Norte a Sul do Brasil que se encontram dentro do que já foi a Mata Atlântica e que hoje estão à mercê de uma série de problemas criados a partir da devastação das matas. 

Falando apenas do gravíssimo problema da poluição das águas, os rios mais poluídos são, em sua grande maioria, corpos d’água que ficam dentro dos domínios da Mata Atlântica. Vejam; 

Rio Tietê – o maior rio do Estado de São Paulo e também o rio mais poluído do Brasil; 

Rio Iguaçu – Maior rio do Estado do Paraná e dono da segunda colocação entre os rios mais poluídos do Brasil; 

Rio Ipojuca – Terceiro rio mais poluído do país, o Ipojuca nasce no Agreste Pernambucano e tem seu trecho final na Zona da Mata, o nome local da Mata Atlântica. Outro rio de Pernambuco, o Capibaribe, tem essa mesma configuração geográfica e entra na lista como o sétimo entre os rios mais poluídos do país. 

Podemos incluir nessa lista os já citados rio Paraíba do Sul (vide foto) e rio Doce, respectivamente o quinto e o décimo colocados na lista dos rios mais poluídos do Brasil. Dezenas de milhões de brasileiros e centenas de cidades dependem das águas desses rios para o seu abastecimento e grandes volumes de dinheiro precisam ser gastos diariamente em Estações de Tratamento de Água e em produtos químicos na potabilização dessas águas. 

A partir da próxima postagem vamos fazer um raio X na situação ambiental dos principais rios da Mata Atlântica, mostrando os seus inúmeros problemas e também sobre os grandes desafios ambientais para a recuperação da qualidade de suas águas. 

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