A FRACASSADA CAPITANIA DE SÃO TOMÉ E OS “SETE CAPITÃES”

Na última postagem falamos dos problemas de povoamento e de produção agrícola na então Capitania do Espírito Santo. Grande parte do território da Capitania era ocupado por nações indígenas hostis como os botocudos e os goitacás. Apesar de algumas fontes históricas afirmarem que a região “produzia o melhor açúcar do Brasil”, a indústria açucareira não prosperou no Espírito Santo, o que beneficiou, e muito, a Mata Atlântica local. 

Naquela época, o trecho Sul do atual Estado do Espírito Santo, a partir do rio Itapemirim, e a faixa Norte do atual Estado do Rio de Janeiro, a partir da cidade de Macaé, formavam a Capitania de São Tomé, também conhecida como Capitania do Paraíba do Sul ou ainda como Capitania dos Campos dos Goytacazes. Fundada em 1539 e abandonada em 1548, essa Capitania foi uma das mais efêmeras tentativas de colonização do litoral brasileiro. 

O Donatário da Capitania de São Tomé foi o fidalgo português Pedro de Góis que, segundo muitas fontes históricas, veio para o Brasil na expedição exploratória dos irmãos Martin Afonso de Sousa e Pero Lopes de Sousa. As terras dessa Capitania se estendiam por uma faixa de 30 léguas entre a Capitania do Espírito Santo, do donatário Vasco Fernandes Coutinho, e o Segundo Quinhão da Capitania de São Vicente de Martim Afonso de Sousa, que englobava terras da região do Vale do Paraíba, no atual Estado de São Paulo, e a faixa Sul do atual Estado do Rio de Janeiro. 

Segundo o relato de Gabriel Soares de Souza em seu Tratado Descriptivo do Brazil, obra publicada em 1587, Pedro de Góis voltou para Portugal por volta de 1536, quando enviou um pedido ao Rei Dom João III solicitando a doação de um quinhão de terras na Colônia. Em seu pedido, Góis afirmava que, tendo vivendo no Brasil na companhia dos irmãos Sousa, “acabou por se afeiçoar à terra”. El-Rei atendeu à solicitação de Pedro de Góis, que recebeu o foral ou o título de posse das terras em 1537. O fidalgo retornou ao Brasil em 1538 e em 1539 fundou a Vila da Rainha, atual São Francisco de Itabapoana, na região do Baixo Paraíba do Sul. 

De acordo com o relato de Gabriel Soares de Souza, os primeiros dois anos da ocupação da Capitania de São Tomé foram bastante produtivos, inclusive com uma convivência pacífica com os índios goitacás. Os portugueses construíram a infraestrutura básica da vila e iniciaram a plantação dos campos de cana de açúcar. Foi então que começou um período de “cinco ou seis anos” de conflito com os indígenas das tribos goitacás e puris.  

Pedro de Góis, que teria voltado para Portugal para angariar mais recursos para investir na Capitania, encontrou a vila completamente destruída quando voltou. Os colonizadores foram então remanejados para a Capitania do Espírito Santo. Pedro de Góis resolveu abandonar o empreendimento em 1548 e voltou para Lisboa. 

Pouco mais de cinquenta anos depois, já no início do século XVII, Gil de Góis da Silveira, herdeiro de Pedro de Góis (existem divergências entre as fontes – algumas afirmam que ele era filho de Pedro de Góis e outras informam que era neto), reclamou o direito de posse das terras junto à Coroa e retomou o projeto da Capitania com a fundação da Vila de Santa Catarina de Mós (a localização exata dessa vila é incerta). 

Segundo as informações históricas disponíveis, Gil de Góis também conseguiu estabelecer uma convivência pacífica com os indígenas. Consta que, para agradar os “silvícolas”, Góis e sua esposa adotaram uma menina indígena de nome Catarina. Anos mais tarde, quando Catarina já tinha por volta de treze anos de idade, Dona Francisca Del Aguiar Manique, esposa de Gil de Góis, descobriu que o marido estava tendo um “caso” com a filha adotiva e ficou enfurecida. Aproveitando-se de uma viagem de Gil de Góis, Dona Francisca açoitou a garota com um chicote – a garota conseguiu fugir e foi buscar refúgio em sua antiga tribo. 

Esse incidente “doméstico” revoltou os índios, que atacaram e destruíram completamente a Vila de Santa Catarina de Mós. Gil de Góis conseguiu sobreviver ao ataque e, em 1619, renunciou a Capitania em favor da Coroa de Portugal. A região foi abandonada e os indígenas retomaram todos os seus antigos territórios. 

A história da região mudaria de rumos em 1627, quando o Governador do Rio de Janeiro, Martim Corrêa de Sá, recebeu ordens da Coroa Portuguesa para dividir o território em sesmarias e distribuir as terras entre diversos solicitantes, os chamados “Sete Capitães”. Esses homens eram veteranos de lutas contra as nações indígenas dos tupinambás e dos tamoios e, “por suas lutas em prol da Coroa” solicitaram as terras “ao Norte do rio Macaé“. Em um trecho da carta de solicitação de terras escreveram: 

“Nós, portugueses, fomos vencedores. Não pela coragem superior a nossos adversários, porém pela vantagem das armas de fogo e disciplina, que nos asseguravam sobre homens nus, que não podiam opor-nos mais que a sua intrepidez; fizemos neles uma grande mortandade, ficando abandonadas as suas povoações: os tamoios ficaram de todo aniquilados, e o resto dos tupinambás abandonaram as montanhas vizinhas e seguiram para o norte” 

A solicitação dos “Sete Capitães” foi atendida em 27 de agosto de 1627 e eles receberam uma extensa faixa de terras entre o rio Macaé e o Cabo de São Tomé, terras que seriam incorporadas ao território do Rio de Janeiro. Eram esses Capitães: Miguel Arias Maldonado, Gonçalo Correia, Duarte Correia, Antônio Pinto, João de Castilho, Manoel Correia e Miguel Riscado. 

Os belicosos índios goitacás de outrora já não eram tão temidos. Desde os tempos dos Góis, a nação havia sofrido com diversas epidemias, especialmente de varíola, e o número de índios na região diminuiu muito. Relatos dessa época afirmam que as mortandades de índios durante essas epidemias chegavam à casa dos 80%. Escritos deixados por alguns dos Capitães afirmam que sete homens brancos, entre náufragos e degredados, foram encontrados vivendo com os goitacás. Um outro relato afirma que um homem negro, provavelmente um escravo fugitivo, também foi encontrado vivendo com os índios. 

A partir de 1633, as terras concedidas passaram a ser demarcadas e foram criadas diversas fazendas para alguns dos Capitães e seus herdeiros. Diferentemente da proposta inicial da Capitania de São Tomé, que pretendia transformar a região num imenso canavial, os novos proprietários resolveram se aproveitar dos grandes campos naturais e da fartura de águas na região para se dedicar à criação de gado.  

A região de entorno da Baía da Guanabara já concentrava uma grande população naqueles tempos e havia uma grande demanda por carne e outros alimentos, além da necessidade de bois para os trabalhos nos engenhos de açúcar. Há registros históricos que confirmam que o Rio de Janeiro abrigava perto de 100 engenhos de cana há época, a maioria de pequeno e médio porte e com uma produção muito aquém dos grandes engenhos do Nordeste

O primeiro engenho de açúcar da região do Norte fluminenses só seria construído em 1650 e a indústria açucareira só se desenvolveria na região ao longo do século XVIII, ganhando grande importância apenas no século XIX. É interessante observar que os engenhos do Norte fluminenses prosperaram em um momento de lenta decadência da indústria açucareira na Região Nordeste, que passou a perder mão de obra para as minas de ouro da Região das Geraes e a sofrer forte concorrência com os engenhos de açúcar da região do Mar do Caribe, isso sem citar os graves problemas de esgotamento dos solos.

Falando novamente da Região das Geraes, é preciso lembrar que o Ciclo do Ouro marcou o início de fortes impactos ambientais na Mata Atlântica em Minas Gerais, numa extensa região que ficou conhecido como a Zona da Mata

A partir da próxima postagem, vamos abandonar temporariamente a faixa da Mata Atlântica ao longo do litoral do Brasil e seus problemas, deixando de falar inclusive sobre os importantes engenhos do Rio de Janeiro, e acompanharemos o início dos desmatamentos no interior das Minas Geraes a partir da descoberta das minas de ouro. 

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