A FRAGMENTAÇÃO E A REDUÇÃO DE HABITATS, OU POR QUE TANTA PREOCUPAÇÃO COM AS FLORESTAS DA AMÉRICA CENTRAL?

Corredor de biodiversidade

Nas últimas postagens aqui do blog, apresentamos um quadro bastante preocupante da conservação ambiental nos países que formam a América Central. Depois de séculos de derrubada de matas para a criação de campos agrícolas e pastagens, a região apresenta hoje um quadro caótico no que diz respeito à conservação de suas florestas. 

Conforme comentamos no início dessa sequência de postagens, a história natural da América Central sofreu uma completa reviravolta após a formação do Istmo do Panamá, uma ponte de terra seca que uniu as duas grandes massas de terras das Américas do Norte e do Sul. Espécies animais e vegetais (sementes e frutos transportados por animais) dos dois lados dessa “ponte” passaram a se deslocar através desse corredor de biodiversidade, criando novos e riquíssimos biomas.  

A floresta tropical que se formou nas terras mais baixas é uma espécie de extensão da Floresta Amazônica, que com o passar do tempo desenvolveu novas espécies vegetais e criou habitats para uma infinidade de seres vivos. Nas terras mais altas, florestas de coníferas e pinheiros, típicas do hemisfério Norte, se expandiram e se adaptaram a novos climas e terrenos. 

Com o “descobrimento” e conquista das Américas, toda a região centro-americana passou a receber grandes contingentes de imigrantes, assistindo a formação de novas populações e o nascimento de inúmeras cidades. As matas passaram a ser derrubadas, tendo início um processo contínuo de fragmentação e redução de florestas e de habitats para a vida selvagem. 

E o que isso tem de tão problemático? 

Em primeiro lugar, a perda de cobertura florestal de uma região terá reflexos diretos na disponibilidade de água. As árvores são fundamentais para a infiltração da água das chuvas nos solos, algo essencial para a recarga dos lençóis subterrâneos e aquíferos que alimentam as nascentes de córregos e rios. Outro ponto são os solos férteis das florestas tropicais, que costumam ser rasos e são formados por uma camada de matéria orgânica resultante da decomposição de restos de galhos, folhas e de animais mortos da própria floresta.  

Com a destruição da cobertura vegetal, essa camada de matéria orgânica se perde rapidamente, com o complicador criado pelo carreamento de solos e sedimentos para a calha de rios e lagos. Esse assoreamento dos corpos d’água vai criar problemas na drenagem das águas pluviais da região e resultar em enchentes e destruição de margens. Esses dois problemas são recorrentemente citados em nossas postagens. 

Existe também um grande número de problemas criados para a vida animal dessas florestas, sobre os quais costumamos falar pouco e que hoje gostaríamos de tratar com maiores detalhes. Falo aqui da fragmentação e diminuição dos habitats, que no curto e médio prazo implicam na perda de espécies animais, mas que no longo prazo implicam na destruição da própria floresta. 

Podemos definir habitats como ambientes físicos ou ecológicos onde diferentes espécies – animais, vegetais, fungos, bactérias e vírus, vivem em equilíbrio. Também é importante citarmos que existe uma interdependência entre as espécies. Um exemplo são as plantas que produzem flores como parte de seu sistema de reprodução e que dependem de insetos, aves e outros animais como morcegos para realizarem a polinização.

Em alguns casos de extrema especialização, existe um único inseto ou ave que faz essa polinização – se esse polinizador desaparecer, por extinção por exemplo, a espécie vegetal também estará condenada. Essa regra também vale para os predadores especializados, que controlam as populações de outras espécies e mantém o meio ambiente em equilíbrio.

Sempre que analisamos a ecologia de uma floresta, precisamos nos preocupar tanto com a área de solos ocupados pela vegetação quanto com os diferentes “níveis” entre os solos e a copa das árvores ou dossel. A distribuição de espécies segue uma espécie de padrões “por andares”. Existem espécies que vivem no solo e subsolo, e que variam conforme a localização e o tipo desses solos. Aqui podemos citar os insetos, vermes e outros invertebrados, assim como animais terrestres como mamíferos, répteis, anfíbios e aves, entre outros. 

Essa distribuição ecológica também se dá nos “andares superiores” da floresta. Conforme vai se subindo nas árvores, diferentes espécies habitam diferentes níveis. Cito como exemplo algumas espécies de rãs que vivem dentro de pequenas porções de água acumuladas entre as folhas de algumas espécies de bromélias a dezenas de metros do solo. Essas rãs se adaptaram para uma vida em um ambiente completamente diferente do seu ambiente natural em rios e lagos. Posso citar também inúmeras espécies de macacos que vivem no dossel das árvores, onde encontram alimento e abrigo, e que nunca precisam descer até o nível do solo. Frequentemente, esses macacos consomem a águas das bromélias que citei.

Imagine agora que essa floresta foi dividida ao meio por uma inocente ferrovia ou rodovia, onde a construção exigiu a remoção de uma faixa contínua de mata. Para muitos animais terrestres maiores como mamíferos, essa perda de mata não é  tão significativa e eles conseguem atravessar, correndo algum risco, de um lado da mata para outro, sem maiores dificuldades. Outros animais como cobras, anfíbios, aves terrestres e pequenos mamíferos até poderão tentar atravessar essa faixa sem cobertura vegetal, mas ficarão expostos ao ataque de inúmeros predadores – por essa razão, muitos vão desistir da travessia.

Já para os macacos que vivem no dossel das árvores, essa faixa sem vegetação forma uma borda intransponível e as populações desses animais vão ficar “ilhadas” em cada um dos fragmentos da floresta. Essas populações isoladas vão perder diversidade genética ao longo do tempo, o que é uma espécie de meio caminho para a extinção dos animais no longo prazo. Essa barreira que se criou na mata e que impede a livre circulação das espécies é o que se chama na biologia da conservação de Efeito de Borda.

Agora peço que você imagine uma situação mais complexa como a que foi criada pela construção do Canal do Panamá, onde além da derrubada de uma extensa faixa da floresta, foi escavado um canal de navegação no solo. Alguns animais como onças, chamadas de jaguar na América Central, bichos-preguiça e capivaras, entre outros, são excelentes nadadores e não terão dificuldades em continuar circulando pelos seus antigos territórios. Para a imensa maioria das espécies animais, uma obra como essa cria uma barreira intransponível. 

Além de espécies animais, inúmeras plantas e árvores também ficarão restritas a territórios isolados, passando a correr riscos de desparecimento no longo prazo. Frutas e frutos com sementes são consumidos por aves, mamíferos, répteis e peixes, entre outros animais. Essas sementes são transportadas no estomago e intestinos desses animais até serem expelidas nas fezes, quando vão ganhar a oportunidade de germinar e formar novos indivíduos.  

Outros tipos de sementes, como os carrapichos, grudam nos pelos de animais e assim são também transportadas por longas distâncias. Com a fragmentação dos habitats, muitos desses animais têm suas migrações ou andanças pelas matas interrompidas, deixando assim de cumprir o seu papel biológico de dispersores de sementes e frutos. 

Esses processos, onde também se incluem as derrubadas de matas para a formação de campos para agricultura e pastos para animais, além de atividades mineradoras, construção de rodovias e represas, entre outras obras de infraestrutura, resultam no retalhamento de grandes áreas florestais, formando ilhas de vegetação e onde uma infinidade de espécies de animais vão acabar ficando confinadas. Esses processos de devastação florestal se multiplicaram ao longo dos séculos, em maior ou menor grau, por todos os países da América Central e hoje ameaçam a sobrevivência de inúmeras espécies animais e vegetais. 

Quando os primeiros exploradores europeus chegaram ao Novo Mundo nos últimos anos do século XV, as florestas tropicais da América Central se estendiam de forma contínua desde os sopés dos Andes na Colômbia até o Sul do México, cobrindo mais de 600 mil km². Se você pegar um mapa da região nos dias de hoje, o máximo que você vai encontrar serão pequenas manchas verdes, algumas menores e outras maiores, dos inúmeros fragmentos florestais remanescentes espalhados pelos países da região. Na Costa Rica e em Belize, países que adotaram políticas mais arrojadas para proteção e recuperação das áreas naturais, essas manchas são bem maiores. 

Como é virtualmente impossível se pensar em políticas de reflorestamento em grande escala na maioria dos países da América Central, é importante que se criem, com extrema urgência, corredores biológicos ou faixas de vegetação para a ligação desses fragmentos ou ilhas de vegetação, permitindo assim a livre circulação das espécies (vide foto). Isso não vai resolver o problema, mas pelo menos evitará que muitas espécies animais e vegetais entrem em extinção, o que é um caminho sem volta. 

Como eu sempre costumo comentar aqui no blog, há gente demais preocupada em salvar a Floresta Amazônica e gente de menos ocupada com os graves problemas de outras florestas tropicais em risco em todo o mundo. As florestas tropicais da América Central são um desses casos.

PS: Para você que se interessou pelo assunto, apresentado aqui de forma ultra resumida, recomendo o excelente livro Biologia da Conservação de Richard B. Primack e Efraim Rodrigues. 

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