AINDA FALANDO DA POLUIÇÃO DO AR NA CHINA, OU O ONIPRESENTE CARVÃO MINERAL

Geração termelétrica na China

Na última postagem falamos dos gravíssimos problemas de poluição do ar nas grandes cidades da China – e olhem que são muitas essas grandes cidades. Além de grandes metrópoles como Pequim, Xangai e Guangzhou, o país possui centenas de cidades com mais de 1 milhão de habitantes. A principal fonte da poluição nessas cidades são as usinas termelétricas a carvão (vide foto), que combinadas com as emissões de gases gerados por uma gigantesca frota de veículos automotores, indústrias e sistemas de calefação de residências, tornam a atmosfera urbana quase irrespirável. 

Mas, acreditem se quiser, essa situação já foi muito mais crítica até 5 anos atrás, quando as autoridades decidiram “acabar” com a poluição do ar nas cidades da China. Vamos entender o que está acontecendo por lá. 

Para compreender como foi que a situação da poluição do ar nas grandes cidades chinesas chegou à situação atual, é preciso voltar atrás algumas décadas, para os tempos da ascensão de Mao Tsé-Tung e do Comunismo ao poder na China em 1949. Naqueles tempos, a China era um país essencialmente rural e com uma grande parcela da sua população vivendo na miséria. Os planejadores estatais de Mao criaram diversos planos plurianuais com metas ousadas para o crescimento da agricultura e da industrialização do país. Um desses planos foi o polêmico Grande Salto Adiante, implementado entre 1958 e 1961. 

Esse plano incluiu uma grande reforma agrária, onde foram criadas fazendas coletivas e a produção privada foi proibida. Cada família recebia um lote de terra e tinha uma meta de produção de alimentos, meta essa praticamente impossível de se atingir. Também foram estabelecidas metas para uma industrialização rápida do país. Para o ano de 1958, por exemplo, foi estabelecido o objetivo de dobrar a produção de aço do país, que em 1957 havia sido de 5,3 milhões de toneladas

Para se atingir esse crescimento na produção do aço, milhões de trabalhadores foram deslocados das atividades agrícolas para trabalhos nas industrias. Dezenas de milhares de pequenas forjas de “fundo de quintal” foram construídas e foi ordenado que todos os objetos de aço que as famílias possuíssem, desde ferramentas agrícolas até dobradiças de portas e panelas, fossem entregues ao Estado para reprocessamento nessas forjas. A busca pelo cumprimento e superação das metas estabelecidas pelo Estado chinês criou as bases do chamado “desenvolvimento a qualquer custo” no país. 

Existe aqui um detalhe importante aqui que precisa ser lembrado – os delegados regionais e os líderes locais do Partido Comunista encarregados de atingir uma determinada meta em produção agrícola, em industrias e em infraestrutura, podiam acabar presos caso não atingissem as cotas que foram determinadas pelo Comitê Central do Partido Comunista. Pessoas consideradas suspeitas ou “mal vistas” pelo sistema acabavam sendo fuziladas. Logo, atingir uma cota de produção sem se preocupar com as consequências sociais e ambientais podia significar a diferença entre a vida e a morte para muita gente.

Todo esse conjunto de mudanças bruscas na economia da China teve um alto custo social. O maior deles foi a chamada Grande Fome Chinesa, que aconteceu no mesmo período do Grande Salto Adiante e que matou entre 18 e 50 milhões de pessoas, conforme a fonte consultada (O Governo chinês é especialista em esconder números). Além de gigantescos erros no planejamento estatal, no período também houve uma grande seca no Norte da China e chuvas torrenciais no Sul – só as enchentes no Rio Amarelo em 1959, deixaram um rastro de 2 milhões de mortos no Leste do país. 

Apesar desses percalços, a cultura das metas e/ou cotas de produção na China se consolidou e, quaisquer que fossem os custos sociais, econômicos ou ambientais, essas metas seriam cumpridas. Foi justamente o que ocorreu no desenvolvimento da política de geração de energia elétrica – centenas de centrais termelétricas a carvão, algumas altamente ineficientes, foram instaladas por todo o país, sem qualquer tipo de preocupação com as emissões de gases tóxicos e de material particulado. O importante era se atingir os volumes de produção de energia elétrica estabelecidos no Plano Plurianual.

O carvão mineral é abundante na China, principalmente nas regiões Central e Norte. Grandes contingentes de trabalhadores foram encarregados de extrair imensos volumes diários de carvão, que eram embarcados quase que imediatamente e transportados para as grandes cidades do país através da grande malha ferroviária. Chegando nas centrais termelétricas, outros contingentes de trabalhadores trabalhavam dia e noite alimentando as grandes fornalhas dos geradores elétricos. Graças aos esforços coletivos de todos esses trabalhadores, as grandes metas estabelecidas pelo Comitê Central do Partido Comunista Chinês foram alcançadas. 

Esse esforço coletivo transformou a China na segunda maior geradora e consumidora primária de energia do mundo em 2003, ficando atrás apenas dos Estados Unidos. Cerca de 80% da energia elétrica gerada no país vem de centrais termelétricas movidas a combustíveis fósseis, principalmente o carvão mineral e, mais recentemente, o gás natural. Atualmente, a China consome metade da produção mundial de carvão mineral e, todo esse consumo, resulta em muita poluição

Poluição do Ar na China

A poluição do ar nas grandes cidades chinesas, que já era muito grande, chegou a níveis insuportáveis a partir dos primeiros anos da década de 2000 e, a partir de 2014, o Governo Central se viu obrigado a rever suas políticas de geração de energia elétrica. Foi estabelecido um plano de ação emergencial para a redução da poluição atmosférica no país. Foram estabelecidas reduções de 15% nas emissões de dióxido de enxofre e óxidos de nitrogênio em relação aos níveis de 2015 e estabelecido que as 80 maiores cidades do país tenham 80% dos dias com bons níveis de qualidade do ar

Essas medidas atingiram em cheio as centrais termelétricas, as grandes vilãs da poluição nas grandes cidades. Logo de imediato, foi proibida a construção de novas centrais geradoras nas proximidades das cidades. As demais unidades foram obrigadas a instalar sistemas de filtros nas suas chaminés e também estimuladas a melhorar o rendimento dos seus equipamentos para conseguir gerar a mesma quantidade de energia com uma queima menor de carvão. Em unidades geradoras muito antigas, o carvão foi substituído por gás natural. Essa medida também passou a ser adotada nas indústrias.  

Outro foco de ação foram as caldeiras a carvão usadas nos sistemas de calefação dos edifícios residenciais, que foram obrigados a passar a usar gás natural. No inverno de 2015, muitos edifícios que não conseguiram instalar os novos equipamentos a tempo ficaram sem o sistema de calefação (aquecimento) no inverno, o que mostra bem o jeito das coisas funcionarem num país com planejamento central estatal como na China. Uma outra medida adotada, essa já bastante conhecida de todos nós, foi a restrição à circulação de veículos automotores nos grandes centros urbanos, onde foram criados sistemas de rodízio e de horário de circulação. 

Os relatórios de qualidade do ar de 2018 já mostravam uma sensível melhoria nas 338 maiores cidades do país – na média, houve uma redução de 11,8% na presença de partículas de poluição mais finas, conhecidas como PM2.5. O valor médio dessas partículas ficou em 60 microgramas por metro cúbico de ar. O valor máximo recomendado pela OMS – Organização Mundial de Saúde, é de 25 microgramas por metro cúbico de ar. Esse resultado mostra que, apesar dessa importante melhoria nas qualidade do ar, as coisas precisam melhorar muito nas cidades chinesas para se chegar a um ar verdadeiramente “respirável”. 

A China também vem estimulando a produção de energia a partir de fontes alternativas, principalmente a solar e a eólica. O país já é o maior produtor mundial de células fotovoltaicas e de geradores eólicos. As fontes de geração alternativas representam apenas 2% da matriz energética no país e há espaço de sobra para o seu crescimento

Para encerrar – a qualidade do ar nas grandes cidades chinesas nos dias de hoje é péssima, mas poderia ser ainda pior caso as coisas não tivessem começado a mudar anos atrás. 

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