JARDINS VERTICAIS NA CIDADE DE SÃO PAULO – UMA IDEIA QUE “QUASE” DEU CERTO?

Jardim vertical do Minhocão

A ideia de se construir jardins elevados é bastante antiga – os míticos Jardins Suspensos da Babilônia talvez sejam um dos mais conhecidos e considerados uma das “Sete Maravilhas do mundo antigo”. O historiador romano Flávio Josefo (37-100 d.C), nos deixou descrições bem interessantes sobre esses jardins: 

Neste palácio ele (o rei Nabucodonosor) ergueu calçadas muito altas, sustentadas por pilares de pedra; e plantou o que foi chamado de paraíso suspenso, e encheu-o com todos os tipos de árvores, o que lhe rendeu a perspectiva exata de um país montanhoso. Ele fez isso para satisfazer sua rainha, pois ela havia sido criada em Media, e gostava de locais montanhosos.” 

Em tempos modernos, o pai da “matéria” é o botânico francês Patrick Blanc, que desde a década de 1980 começou a usar as fachadas de antigos edifícios para a criação de jardins verticais. Esses jardins são construídos a partir de uma estrutura metálica fixada na parede do prédio, na qual é fixado um suporte para solos férteis feito em tecido sintético, onde ficam as plantas. Esses solos recebem água e nutrientes através de um sistema por micro gotejamento. O resultado final são grandes painéis com centenas de metros quadrados cobertos por vegetação em meio a toda uma massa de edifícios “cinzas”. Eu tive a chance de conhecer vários exemplares desses jardins verticais em viagens ao exterior. 

O primeiro projeto para a construção de um jardim vertical na cidade de São Paulo foi desenvolvido em 2013 por uma empresa privada, em um edifício ao lado do Elevado Presidente João Goulart, o famoso “Minhocão”. Esse projeto foi financiado com verbas publicitárias de uma empresa do ramo de bebidas e ganhou uma enorme repercussão na mídia. Desde 2007, vigora na cidade de São Paulo a Lei Cidade Limpa, que passou a regulamentar a publicidade de rua na cidade e proibiu a veiculação de cartazes e outdoors nas ruas e avenidas. O uso de verba publicitária de uma empresa para financiar esse projeto foi uma estratégia inteligente para divulgar sua marca em meio às restrições impostas pela lei. 

A região de entorno do Minhocão, conforme apresentamos na postagem anterior, é uma das mais densamente povoadas da área central de São Paulo e também uma das mais deterioradas. Após a inauguração do Elevado em 1971, a poluição do ar e o barulho dos automóveis passou a afugentar os moradores e provocou uma grande desvalorização dos imóveis. Como ocorre em todo o centro de São Paulo, os trechos dos bairros de Vila Buarque, Santa Cecília e Campos Elísios, que são atravessados pelo Minhocão, são extremamente carentes de áreas verdes e sofrem, há muito tempo, com o efeito da Ilha de Calor Urbano

Uma característica arquitetônica dessa região são os edifícios antigos, onde se encontram uma grande quantidade de empenas cegas – paredes laterais sem aberturas como janelas, portas e varandas. De acordo com estudos feitos pela empresa que criou o primeiro jardim vertical na cidade, existem perto de 100 edifícios em condições para a instalação desses jardins na região de entorno do Minhocão, com potencial para abrigar 58 mil m² de áreas verdes

A repercussão altamente positiva criada pelo primeiro jardim vertical da cidade de São Paulo levou a Prefeitura da cidade a publicar o Decreto 55.994, que estendeu a construção e a manutenção dessas áreas verdes como uma forma de compensação ambiental para as empresas que receberam multas da Secretaria de Meio Ambiente. Essas multas normalmente geram um TAC – Termo de Ajuste de Conduta, onde a empresa assume algum mecanismo de compensação ambiental como forma de remediar os danos criados. Esse foi o “pulo do gato” para se financiar diversos projetos de jardins verticais na cidade. Somente na região do Minhocão foram 7 projetos. 

Os bons ventos ambientais continuaram soprando com força na região: em 2016, o então prefeito de São Paulo, Fernando Hadad, anunciou um projeto que transformaria o Elevado Presidente João Goulart em um parque elevado em pleno coração da cidade, a exemplo do High Line de Nova York. Como raramente acontece na política brasileira, o novo Prefeito da cidade, Bruno Covas, comprou a ideia e muito se esforçou para levar adiante o projeto do Parque do Minhocão. Infelizmente, conforme já comentamos anteriormente, a ideia não avançou. 

O projeto dos jardins verticais, que animou muita gente na região, também começou a patinar. O Ministério Público de São Paulo entendeu que o uso dos jardins verticais não poderia ser usado como um mecanismo de compensação ambiental. Empresas de construção civil, citando um exemplo, são obrigadas a cortar árvores em terrenos onde vão construir edifícios. Nesses casos, elas são obrigadas a replantar árvores em locais indicados pelos órgãos públicos como forma de compensação ambiental. No entendimento do Ministério Público, a vegetação plantada nos jardins verticais não substitui as funções das árvores em processos de fotossíntese, sequestro de carbono e evapotranspiração

Um outro problema surgiu nas parcerias entre as empresas construtoras e mantenedoras dos jardins verticais e a Prefeitura da São Paulo. Nos acordos firmados, os edifícios que cederam suas paredes para a instalação dos jardins verticais não arcariam com nenhum custo financeiro – todos as despesas com a instalação, manutenção, energia elétrica e água seriam arcados por uma empresa técnica responsável em parceria com a Prefeitura. Foi justamente aqui que começaram a surgir os problemas – nem a Prefeitura nem a empresa “dita” responsável conseguiu realizar a contento a manutenção dos jardins verticais. Muitos dos edifícios acabaram assumindo os custos com a água e energia elétrica, o que segundo informações de alguns síndicos chega a ter um custo próximo de R$ 20 mil por mês. 

Muitos desses jardins acabaram sendo abandonados e se transformaram em um grande painel vertical de folhas e galhos secos. Muitos moradores dos edifícios passaram a reclamar de invasões de grilos, gafanhotos e outros insetos em seus apartamentos, passando a exigir a remoção imediata dos esqueletos desses jardins verticais. O próprio Corpo de Bombeiros do Estado de São Paulo passou a enxergar essas estruturas abandonadas como uma perigosa fonte de riscos de incêndios para os edifícios. 

Desde meados de 2019, diversos condomínios entraram com ações na Justiça pedindo o cancelamento dos convênios assinados com a Prefeitura de São Paulo e exigindo a remoção do que sobrou dos jardins verticais das paredes de seus edifícios. Esse trágico desfecho da história dos jardins verticais na região do Minhocão se junta a outra página da mesma história – a Prefeitura da cidade de São Paulo, acuada por uma série de problemas jurídicos, também resolveu engavetar, por tempo indeterminado, o projeto de criação do Parque Elevado do Minhocão. 

Os problemas ambientais são encontrados por todos os lados em cidades grandes como São Paulo, onde destacamos os resíduos sólidos e os entulhos criados pela construção civil, as enchentes, a ocupação de encostas de morros, as Ilhas de Calor Urbanos, entre muitos outros. Sempre que alguém surge com uma nova ideia que tem potencial para resolver algum desses problemas, aplaudimos com muita alegria. 

Infelizmente, nem sempre essas boas ideias se mostram efetivamente tão boas como imaginávamos. Uma grande pena.

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