UMA “VÁRZEA VIRTUAL” PARA O TIETÊ E OUTROS RIOS BRASILEIROS

Rio Tietê no passado

Na última postagem falamos de uma série de mudanças urbanísticas que estão sendo implementadas em Seul, a capital da Coreia do Sul. Com quase 10 milhões de habitantes, Seul tem problemas bastante parecidos com os da cidade de São Paulo – entre eles as enchentes e as Ilhas de Calor Urbanas.  

Uma das mais fantásticas “terapias urbanas” realizadas na cidade foi a reabertura do Cheonggyecheon, um rio do centro de Seul que havia sido canalizado na década de 1960 e que foi transformado em um maravilhoso parque linear. Uma outra frente de trabalho dos coreanos é a construção de túneis ao largo do rio Han, que receberão futuramente as pistas das avenidas marginais de Seul – com a liberação dos terrenos, os solos voltarão a ser cobertos com vegetação. 

A canalização indiscriminada de córregos, riachos e rios nas grandes cidades, para a construção de avenidas de fundo de vale, está entre os principais problemas que levam a formação de enchentes durante as chuvas de verão. Citando um exemplo: durante a administração do Prefeito Francisco Prestes Maia, entre 1938 e 1945, a cidade de São Paulo teve 4 mil km lineares de córregos, riachos e rios canalizados e transformados em avenidas. Esse tipo de intervenção urbana é comum nas grandes cidades brasileiras. 

Entre as grandes avenidas construídas nas áreas de várzea da cidade de São Paulo, vou destacar três: a Marginal Tietê, a Marginal Pinheiros e a Avenida do Estado. Essas avenidas ocuparam, respectivamente, áreas de várzea dos rios Tietê, Pinheiros e Tamanduateí, os três principais rios do Planalto de Piratininga. A foto que ilustra esta postagem mostra a várzea do Tietê cheia no início da década de 1940, onde se vê, inclusive, mulheres lavando roupas nas águas limpas do rio.

Estudando antigos mapas da cidade de São Paulo da década de 1920, época em que esses rios ainda corriam “livres” ao longo de suas calhas sinuosas e cercadas por vegetação, eu calculei que aproximadamente 50 km² de áreas de várzea foram perdidas após os trabalhos de retificação das calhas dos rios, aterro e ocupação urbana. Essa é uma estimativa pessoal, uma vez que nunca encontrei em literatura a medida exata dessas áreas perdidas na Pauliceia “desvarzeada” (brinco aqui com o título do antológico livro de poemas “Pauliceia Desvairada” de Mario de Andrade, publicado em 1922) . 

Em rios de planalto, as áreas de várzea oferecem um espaço alagável para os períodos de chuva dos verões, quando as calhas não conseguem comportar toda a água das chuvas. Essas áreas assumem características semelhantes ao Pantanal Mato-grossense e, com o final das chuvas, lentamente vão secando. De acordo com fontes históricas, as áreas de várzea dos rios paulistanos abrigavam jacarés-do-papo-amarelo, garças, cervos do pantanal, capivaras, macacos, onças e tamanduás, entre outros animais, o que lhe dava um verdadeiro ar de mini pantanal. 

Se, num exercício rápido de matemática, imaginarmos que toda essa área alagável acomodasse uma lâmina de água com 1 metro de profundidade durante o período das cheias de verão, chegaremos a um volume total de 50 milhões de m³ de água. Somente com a apresentação desse impressionante número, fica fácil entender porque a cidade fica inundada nos dias em que é assolada pelas fortes tempestades de verão. Além da perda dessa área de várzeas, a cidade também teve uma grande parte dos seus solos impermeabilizados com concreto, asfalto e construções, além de ter perdido extensa áreas de mata. Sem possibilidade de infiltração nos solos, a quase totalidades das águas pluviais corre rapidamente na direção dos canais de drenagem.

Você não precisa ser um expert em recursos hídricos para concluir que é necessário recompor artificialmente essa área perdida das várzeas para recuperar a capacidade dos nossos rios em absorver e acomodar os excedentes de águas pluviais nos meses de verão. Eu chamo isso de criação de várzeas virtuais

Dadas as dificuldades orçamentárias e políticas aqui em nosso país, eu acho muito difícil, no curto e no médio prazo, conseguirmos reabrir córregos e riachos já canalizados em nossas cidades ou construirmos grandes túneis para substituir avenidas como as Marginais Tietê e Pinheiros e Avenida do Estado. Aqui na cidade de São Paulo, até já foi possível restaurar um trecho do Córrego da Coruja, na Vila Madalena, e do Córrego Pirarungauá, no Jardim Botânico da cidade. Nada mais do que isso. 

Mesmo sem contar com essas alternativas, existem várias formas de se criar as tais “várzeas virtuais”. Vejam: 

  • O Laboratório de Tecnologia de Pavimentação da USP – Universidade de São Paulo, criou, há quase 10 anos, o CPA – Camada Porosa de Asfalto. Esse revestimento é um asfalto absorvente de água, feito usando pedras de brita maiores, onde existem espaços ocos entre as pedras. Essa característica permite que o asfalto armazene um volume de água equivalente a 25% de seu volume total. Essa água fica retida dentro da camada de asfalto por até 3 horas e, só então, começa a escorrer na direção dos canais de drenagem. Esse tempo em que a água fica retida é essencial para permitir a drenagem do excedente de águas pluviais e evitar alagamentos localizados. De acordo com informações dos pesquisadores, esse asfalto tem um custo 30% maior que o asfalto convencional; 
  • Uma outra ideia que segue nesta mesma linha é o concreto permeável, que poderia ser largamente utilizado na construção de calçadas de passeios públicos, praças e até mesmo em quintais de edifícios e casas. A diferença principal na produção deste tipo de concreto em relação ao concreto convencional é que na mistura não entra o chamado agregado fino ou areia. Graças a isso, o concreto fica altamente poroso, permitindo que a água da chuva atravesse facilmente a camada pavimentada e consiga infiltrar nos solos; 
  • Outra alternativa de fácil implantação nas casas dos moradores de uma cidade são as caixas de detenção provisória. Falamos aqui de caixas d’água plásticas no formato de uma pequena torre (3 metros de altura, 1 metro de largura e 0,5 metro de profundidade), ligadas na saída das calhas do telhado. Essa caixa tem capacidade para armazenas 1,5 m³ de água ou o equivalente a 1.500 litros. Na base da caixa existe um pequeno furo que libera a água lentamente, o que ajuda muito os sistemas de drenagem locais. O morador da casa também teria a opção de manter essa água armazenada para usos onde não há necessidade de água potável como a lavagem de quintais, automóveis e motos;
  • Finalmente, temos os piscinões, gigantescos depósitos subterrâneos de águas pluviais, que permitem o armazenamento temporário de grandes volumes. A cidade de São Paulo já possui 27 desses equipamentos, sendo que o maior deles tem capacidade para armazenar mais de 900 mil m³ de água. Na próxima postagem falarei mais demoradamente sobre essse dispositivos.

Observem que são ideias simples, que podem ser implantadas lentamente nas cidades. Calçamentos e revestimentos asfálticos, por exemplo, precisam ser refeitos de tempos em tempos e essas alternativas com materiais porosos poderiam ser usadas nesses trabalhos. 

Além dessas alternativas indicadas para o Poder Público, os cidadãos podem ser estimulados a remover calçamentos e revestimentos dos seus quintais e, no seu lugar, plantar grama, flores, plantas ornamentais, árvores frutíferas ou, até mesmo, criar uma pequena horta. Cada metro cúbito de água que deixa de seguir pelos canais de drenagem de águas pluviais das cidades vai fazer diferença no combate às enchentes e alagamentos localizados. 

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