OS PROBLEMAS COM A ÁGUA “POTÁVEL” NA REGIÃO METROPOLITANA DO RIO DE JANEIRO

Água potável no Rio de Janeiro

No início desta última semana, enquanto pesquisava vídeos na internet, me deparei com um link que permitia assistir um dos principais telejornais matutinos da cidade do Rio de Janeiro. Curioso, cliquei no link e passei a acompanhar as reportagens. Além de mostrar o grande número de turistas que estavam curtindo as praias locais nessas férias de verão, as reportagens falavam dos muitos problemas de infraestrutura da cidade. Uma reportagem que se destacou apresentava moradores de alguns bairros do subúrbio, que nós paulistanos chamamos de periferia, mostrando a cor escura da água “potável” que estava saindo de suas torneiras (vide foto). 

A certa altura da matéria, um outro repórter entrevistava ao vivo um diretor da CEDAE – Companhia Estadual de Águas e Esgotos do Rio de Janeiro, que jurava de “pés juntos” que aquela água era “100% potável e que poderia ser bebida e usada com total segurança”. A partir daquele momento, passei a observar um grande número de acessos a este blog, com leitores buscando informações sobre o rio Guandu, o principal manancial de abastecimento da Região Metropolitana do Rio de Janeiro. 

Relembrando um pouquinho da história local, a Baía da Guanabara foi descoberta em 1° de janeiro de 1502 pela expedição exploratória de Gaspar Lemos. Algumas fontes históricas afirmam que os exploradores imaginaram que a baía alongada era a foz de um grande rio e por isso a região acabou sendo batizada com o nome de Rio de Janeiro. Após um breve período de ocupação por franceses, a região foi retomada por tropas lideradas por Estácio de Sá, que fundou no local a cidade de São Sebastião do Rio de Janeiro em 1º de março de 1565. Apesar da palavra “rio” fazer parte do nome da região, os moradores locais sempre tiveram problemas com o abastecimento de água. 

Dotada de belezas deslumbrantes em seus horizontes como a Baía da Guanabara, as elegantes montanhas e as muitas praias de águas mornas, a região onde foi fundada a cidade do Rio de Janeiro sempre careceu de fontes abundantes de água potável. Durante os dois primeiros séculos da história da cidade, as nascentes de águas que vertiam das montanhas conseguiram atender satisfatoriamente a população, apesar de alguns problemas durante a época das secas. A partir de 1808, quando a Família Real Portuguesa e sua corte vieram se refugiar no Brasil fugindo das tropas invasoras de Napoleão Bonaparte, a cidade do Rio de Janeiro sofreu uma verdadeira explosão populacional, agravando os problemas de abastecimento de água. 

As antigas nascentes nas montanhas e serras há muito já vinham sofrendo com a destruição da cobertura florestal e já não tinham produção de água suficiente para atender as necessidades crescentes da população da cidade. Data da década de 1820 a decisão de se desapropriar as primeiras terras na região da Tijuca para reflorestar as nascentes de água potável, cada vez mais escassas. Acreditava-se, de forma empírica, que o reflorestamento aumentaria o volume dos riachos. E foi revegetando as encostas da Tijuca que se reparou, em parte, os danos causados pela remoção indiscriminada de toda a sua vegetação para se produzir, sucessivamente, cana-de-açúcar, café, lenha e carvão vegetal e, finalmente, abrigar a produção de alimentos e a criação de animais destinados ao consumo da crescente população.  

Ao longo das décadas de 1820 e 1830, a cidade do Rio de Janeiro enfrentou vários períodos de seca prolongada, com grande escassez de água potável e grandes problemas para a dispersão do esgoto residencial que se acumulava nos canais. Surgia na opinião pública da cidade uma forte pressão sobre os governantes para a adoção de políticas para o aumento da capacidade dos sistemas de produção de água. A partir de 1845 inicia-se, de fato, o trabalho sistemático de recomposição florestal das encostas da Tijuca e as desapropriações de fazendas se intensificaram. As primeiras experiências de reflorestamento haviam apresentado ótimos resultados e partia-se, agora, para um aumento na escala nas intervenções florestais. 

A partir de 1861, por ordem do imperador Dom Pedro II, grandes fazendas na região da Tijuca foram desapropriadas e iniciou-se um processo contínuo de reflorestamento em grande escala. A realização deste trabalho foi confiada ao Major Manuel Gomes Archer que, de forma totalmente amadorista e sem nenhum critério científico, iniciou os trabalhos de plantio de árvores.  

Contando com uma pequena equipe de trabalhadores, entre escravos e assalariados, foram plantadas ao longo de 13 anos mais de 100 mil mudas de árvores, especialmente de espécies da Mata Atlântica, que ainda resistia em pequenos fragmentos florestais. Ao longo de várias décadas, os trabalhos de reflorestamento foram sendo ampliados e a oferta de água potável se estabilizou – o abastecimento da crescente população ficou garantido até a criação de novos sistemas produtores a partir do final do século XIX. A salvadora Floresta da Tijuca, com uma área total de quase 4 mil hectares atualmente, é considerada a maior floresta urbana artificial do mundo

A solução “definitiva” para resolver a demanda por água potável na cidade do Rio de Janeiro e em alguns municípios da Baixada Fluminense passou a ser resolvida com a construção de usinas hidrelétricas no interior do Estado do Rio de Janeiro pela empresa canadense Light and Power. Desde de sua chegada ao Brasil nos últimos anos do século XIX, a Light já vislumbrava o mercado de geração e distribuição de eletricidade no Rio de Janeiro e, desde 1903, já realizava estudos técnicos para a implantação de usinas hidrelétricas no Estado. Após obter a concessão para operar no Rio de Janeiro em 1905, a Light iniciou a construção da Represa de Ribeirão das Lajes e da Usina de Fontes, inauguradas em 1908.  

Até a década de 1950, a Light realizou diversas obras visando aumentar sua capacidade geradora, inaugurando novos reservatórios, usinas e, especialmente, estações de bombeamento que captavam água da bacia hidrográfica do Rio Paraíba do Sul que, após a passagem por diversos grupos geradores de eletricidade, eram lançadas na bacia do Rio Guandu (mais de 60% das águas deste rio são retiradas da bacia hidrográfica do rio Paraíba do Sul). Graças à todas essas obras de engenharia, a vazão do Rio Guandu passou dos históricos 25 m³/s para até 160 m³/s, um volume de água que passaria a ser fundamental para o abastecimento da cidade do Rio de Janeiro e municípios da Baixada Fluminense.  

O desconhecido rio Guandu, que até então era um típico riozinho com nascentes no alto da serra e foz na Baía de Sepetiba, acabou sendo transformado no principal manancial de abastecimento do Estado do Rio de Janeiro. O sistema produtor de águas do rio Guandu atende aproximadamente 85% da população da cidade do Rio de Janeiro e cerca de 70% das populações da Região da Baixada Fluminense, especialmente nos municípios de Nova Iguaçu, Duque de Caxias, São João de Meriti, Belford Roxo, Nilópolis, Itaguaí, Queimados e Mesquita

Infelizmente, como é usual em nossas relações com os rios e outros corpos d’água aqui no Brasil, o Rio Guandu passou a sofrer com a alta carga de esgotos in natura lançadas por dezenas de cidades, vilarejos e indústrias ao longo de seu curso. O rio também passou a ser o destino final de toneladas de fertilizantes e defensivos químicos de áreas agrícolas, que acabam carreadas para a sua calha pelas chuvas. Grandes volumes de lixo e resíduos sólidos de todos os tipos, descartados sem maiores cuidados pela população, completam o quadro de desolação das águas. Nas últimas décadas, o rio Guandu entrou para a lista dos rios mais poluídos do país, fazendo companhia aos rios Tietê, Iguaçu, Ipojuca, das Velhas e tantos outros corpos d’água destruídos pela ação humana. 

É justamente essa intensa poluição quem está por trás da cor escura da água “potável” que está chegando às torneiras de cariocas e fluminenses. Explicaremos isso melhor na próxima postagem. 

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