AS DIFICULDADES DOS SERVIÇOS DE ABASTECIMENTO DE ÁGUA NAS GRANDES CIDADES, OU BUSCANDO A ÁGUA EM DISTÂNCIAS CADA VEZ MAIORES

Páramos andinos

Na nossa última postagem, falamos da chegada do período das chuvas de verão na Região Centro-Sul do Brasil. Como acontece todos os anos, esse é um período marcado por enchentes, alagamentos e desmoronamento de encostas em muitas cidades, onde o crescimento não foi acompanhado por um planejamento urbano adequado e por obras de infraestrutura, especialmente na área do saneamento básico. Mesmo com todos esses problemas, essas chuvas são fundamentais para a recomposição dos níveis das represas de abastecimento de água e também nos reservatórios das usinas hidrelétricas

Uma informação transversal que surgiu no texto dava conta das dificuldades para o abastecimento das cidades de São Paulo e do Rio de Janeiro, onde a água precisa ser captada a centenas de quilômetros de distâncias e transportada por complexos sistemas de bombeamento e transposição entre bacias hidrográficas. Esse tema é bem interessante e vamos falar um pouco mais sobre isso hoje. 

A cidade de são Paulo, fundada pelos padres Jesuítas em 1554, seguiu uma “fórmula” muito usada na Idade Média – o assentamento foi formado entre dois rios. De um lado, o rio Tamanduateí, que foi responsável pelo abastecimento de água da população até meados do século XIX; de outro lado, o rio Anhangabaú, escolhido para receber e dispersar o lixo e os resíduos gerados pelos moradores. A escolha do Anhangabaú para essa triste função teve uma boa ajuda dos indígenas – dentro do folclore local, esse rio era amaldiçoado e evitado desde tempos imemoriais pelos índios. 

Com o crescimento da cidade de São Paulo, cresceu também a poluição das águas do rio Tamanduateí, que apresentava uma qualidade cada vez pior. Por volta da década de 1880, a Prefeitura da cidade resolveu buscar água na então distante Serra da Cantareira, famosa pelas suas muitas fontes de água cristalina. Foi criado então o primeiro Sistema Cantareira, que foi responsável por parte importante do abastecimento da cidade até o início da década de 1970, época em que o aumento explosivo da população da Região Metropolitana exigiu a construção de um novo e muito maior sistema de abastecimento de água. 

Sem contar com importantes fontes de água disponíveis nas proximidades, foi escolhida a Região Entre Serras e Águas na divisa com o Estado de Minas Gerais, a mais de 100 km de distância do centro da cidade de são Paulo. Alguns dos principais mananciais do Sistema tem nascentes no Estado vizinho como é o caso do rio Camanducaia. As distâncias que são percorridas pelas águas do Sistema Cantareira chegam até 160 km, onde se incluem represas, canais, tuneis e estações de bombeamento. O Cantareira atende atualmente 7,5 milhões de habitantes. Numa eventual saturação do Sistema Cantareira, a Região Metropolitana de São Paulo terá de buscar águas no rio Ribeira de Iguape, a mais de 250 km de distância.

Na cidade do Rio de Janeiro e municípios vizinhos da Região Metropolitana, cerca de 80% da água usada no abastecimento vem do rio Paraíba do Sul – a margem desse rio mais próxima da capital fluminense fica a quase 200 km de distância. A escolha do sítio onde foi fundada a cidade do Rio de Janeiro se deu em função das boas condições da Baía da Guanabara para o atracamento de grandes embarcações. Apesar da localização altamente estratégica, a região não possui grandes rios e o abastecimento de água sempre foi problemático na cidade. 

A solução para os problemas de abastecimento de água no então Estado da Guanabara, antiga Capital Federal do Brasil, começou a ser resolvida com a entrada em cena da Light & Power Company, empresa que ganhou a concessão dos serviços de geração e distribuição de energia elétrica. A primeira grande obra da empresa foi a Usina Hidrelétrico de Fontes, iniciada em 1903, seguida pela Barragem de Lajes, iniciada em 1905, além de usinas hidrelétricas na calha do rio Paraíba do Sul

Em1950, buscando atender o grande aumento na demanda de energia elétrica do Rio de Janeiro, a Light iniciou a construção da Barragem de Santa Cecília no rio Paraíba do Sul. Essa estrutura fazia parte de um grande sistema de transposição das águas do rio Paraíba do Sul na direção de represas e usinas hidrelétricas da Light no interior do Estado. Graças a esse complexo sistema de transposição, cerca de 60% dos caudais do rio Paraíba do Sul passaram a ser desviados – depois de passar pelas turbinas de geração de energia elétrica, essa água era lançada na bacia hidrográfica do rio Guandu e assim seguia na direção da Região Metropolitana do Rio de Janeiro, passando a ser usada no abastecimento da população local. 

Uma outra grande cidade que tem de se esforçar bastante para garantir o abastecimento de sua população é Nova York, a maior cidade dos Estados Unidos, que abriga uma população de mais de 15 milhões de habitantes em sua Região Metropolitana. A maior parte da população se concentra em 5 grandes ilhas, localizadas entre o Oceano Atlântico e a foz do rio Hudson. O sistema de abastecimento de água da cidade começou a ser construído em 1830, captando águas no rio Hudson a montante da mancha urbana. A proximidade com as águas salgadas do oceano é sempre problemática para um sistema de abastecimento de água. A intrusão de água salgada na calha do rio, que em algumas épocas do ano aumenta muito, sempre obrigou a captação a grandes distâncias da foz. 

No início da década de 1990, o sistema de abastecimento de água de Nova York atingiu um ponto de saturação, sem conseguir atender mais o crescimento da demanda. Sem contar com recursos para a construção de um novo sistema produtor, orçado na época em US$ 5 bilhões, a empresa de águas da cidade iniciou um amplo programa de economia e uso racional da água, o que garantiu alguns anos de sobrevida ao antigo sistema. Nos últimos anos, contando com dinheiro para a realização das obras, Nova York iniciou a construção de seu novo sistema de abastecimento – as represas estão localizadas a mais de 170 km do centro da cidade, o que exigiu a construção de um complexo sistema de tubulações e túneis para o transporte da água. 

Outra grande cidade que podemos incluir na lista daquelas com dificuldade para o abastecimento de sua população é Bogotá, a capital da Colômbia. Com mais de 7 milhões de habitantes e localizada a uma altitude de 2.640 metros acima do nível do mar, Bogotá sempre contou com as águas do rio Madalena para o seu abastecimento. Esse importante rio, infelizmente, está apresentando uma série de problemas e, dentro de pouco tempo, o abastecimento da população poderá entrar em colapso. As nascentes do rio Madalena dependem da água resultante do derretimento da neve e do gelo acumulado no alto da Cordilheira dos Andes. Conforme comentamos em uma outra postagem, o aquecimento global está provocando o desaparecimento de uma série de geleiras nos Andes Tropicais

Até o início da década de 1950, existiam 14 grandes geleiras nos Andes colombianos – de lá para cá, 8 dessas geleiras já desapareceram e as 6 restantes estão apresentando uma diminuição sistemática de suas massas de gelo. Prevendo o desaparecimento iminente do rio Madalena, a cidade de Bogotá está realizando uma série de obras que permitirão a captação da água dos páramos andinos (vide foto), um tipo de vegetação arbustiva que cresce a partir de altitudes acima dos 3 mil metros e se estende até a linha de formação da neve. Esse tipo de vegetação é muito similar aos banhados dos Pampas Sulinos e tem a características de funcionar como uma esponja que absorve grandes quantidades de água.  

À diferença do rio Madalena, que corta a cidade de Bogotá, esses novos sistemas de captação de água nos páramos ficam a dezenas de quilômetros de distância da mancha urbana, o que vai dificultar e encarecer bastante a captação e o transporte da água

Buscar água em fontes cada vez mais distantes está se tornando uma frequente e triste realidade para as grandes cidades do mundo. 

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