O PROJETO GRANDE CARAJÁS E O BOOM DA MINERAÇÃO NA AMAZÔNIA

Serra dos Carajás

A mineração, como um todo, forma um importante capítulo da história da Amazônia e ajuda a explicar uma parte significativa da ocupação territorial e dos problemas ambientais que vêm chocando o mundo. As atividades de mineração na região vão desde os pequenos garimpos instalados nos barrancos dos rios, onde a caça ao valioso ouro é realizada da maneira mais artesanal possível, à exploração de gigantescas jazidas minerais por processos altamente mecanizados. 

A Bacia Amazônica ocupa uma área com aproximadamente 7 milhões de km², o que corresponde a quase 40% do território da América do Sul. A Floresta Amazônica é um pouco menor, ocupando uma área com fabulosos 5,5 milhões de km². Estatisticamente falando, uma área tão grande deveria possuir grandes riquezas minerais e, desde os primeiros tempos da colonização das Américas, foram muitos os que sonharam com as riquezas escondidas nessa região. Os conquistadores espanhóis no alto dos Andes foram os primeiros a cobiçar essas grandes riquezas. 

As primeiras expedições que penetraram na misteriosa Floresta Amazônica foram organizadas por espanhóis ainda no século XVI e tinham como objetivo encontrar a mítica El dorado, uma “cidade de ouro”. Lendas indígenas que circulavam nos domínios Andinos da Espanha falavam que o rei dessa cidade não usava roupas – todas as manhãs, seu corpo era untado com óleo e depois coberto com ouro em pó. À noite, esse rei se banhava numa espécie de piscina, onde o fundo acumulava uma grossa camada de ouro. 

Aventureiros castelhanos como Francisco de Orellana, Pedro de Úrsua e Lope de Aguirre, se embrenharam nos rios e matas da desconhecida Amazônia em busca desse tesouro lendário e só encontraram morte e sofrimento. As verdadeiras tragédias em que se transformaram essas expedições ofuscaram durante muito tempo o sonho de se encontrar essas riquezas – sua existência, porém, nunca foi completamente esquecida. 

Uma fenomenal descoberta mineral na Amazônia brasileira ocorreu em 1967, quando um geólogo brasileiro da empresa norte-americana United States Steel descobriu uma grande jazida de ferro na Serra dos Carajás, no Estado do Pará. Um helicóptero a serviço da empresa que sobrevoava a região sofreu uma pane e teve de fazer um pouso de emergência. O piloto viu uma grande clareira na mata e manobrou a aeronave até conseguir pousar em segurança. Um geólogo da empresa que estava a bordo ficou curioso com a falta de vegetação na clareira e passou a analisar o solo, descobrindo acidentalmente que a origem do problema era a presença de minério de ferro no local. 

Essa empresa vinha realizando pesquisas para a prospecção de manganês na Amazônia desde 1949. Com o aprofundamento dos estudos, descobriu-se que aquela era, simplesmente, uma das maiores jazidas de minério de ferro do mundo, com impressionantes reservas estimadas anos mais tarde em 18 bilhões de toneladas de minério lavrável, o suficiente para garantir uma exploração em larga escala por mais de 500 anos. Além de minério de ferro, a jazida apresentava grandes concentrações de manganês, zinco, níquel, cobre, ouro, prata, bauxita, cromo, estanho, tungstênio e urânio

Naqueles velhos tempos, a prospecção de minerais nos mais remotos cantos do planeta era uma espécie de aventura, com geólogos parecendo personagens como Indiana Jones. Munidos de bússola e mapas rudimentares, suprimentos, armas de fogo e ferramentas manuais, os geólogos se embrenhavam em matas, cordilheiras e desertos, revirando solos e quebrando pedras até encontrar jazidas minerais economicamente viáveis. Atualmente, com o desenvolvimento dos satélites orbitais e de potentes câmeras fotográficas e de equipamentos de sensoriamento remoto, esse trabalho ficou muito mais fácil. 

De acordo com o contrato assinado no início de suas atividades no país, a United States Steel assumia os riscos e os custos da prospecção mineral e, em troca, teria direito a uma grande fatia na exploração dos recursos minerais encontrados. Dentro desse contexto, a empresa norte-americana teria direito a 70,1% das reservas minerais de Carajás, uma situação que desagradou em cheio a cúpula militar que governava o país há época num “regime de exceção” (1964-1985). Conforme já comentamos em postagens anteriores, havia uma ideologia ainda em voga naqueles tempos – a Hileia Amazônica, onde muitos defendiam a internacionalização da Região e sua “administração” por uma entidade internacional. 

A ideologia da Hileia Amazônica teve forte impacto sobre os militares brasileiros a partir de 1947. A proteção e a soberania do país sobre o seu quinhão da Amazônia se transformaram em pilares principais da doutrina das forças militares do Brasil. A ideia de uma empresa norte-americana, ainda mais chamada United States Stell, controlando uma grande área da Amazônia brasileira e uma das maiores jazidas minerais do mundo há época (foi somente em 2013 que Carajás passou a ser considerada a maior jazida do mundo) era inadmissível. 

Ainda na década de 1960 foi criada a Amazônia Mineração S.A., com controle acionário da United States Steel e os sócios minoritários eram a Companhia Vale do Rio Doce e outras empresas estrangeiras. A pressão da cúpula militar sobre as operações da empresa se estendeu ao longo de toda a década de 1970, quando, “por livre e espontânea pressão militar”, os estrangeiros resolveram se retirar do negócio em troca de uma vultosa indenização. A Companhia Vale do Rio Doce assumiu o controle total das operações. Em 1982 foi lançado o Programa Grande Carajás, um detalhado conjunto de projetos envolvendo mineração, extração vegetal e produção agropecuária, que se inseriam dentro de outros grandes projetos de ocupação e de desenvolvimento da Amazônia. 

A área total do Projeto Grande Carajás engloba aproximadamente 1 milhão de km² ( a Serra dos Carajás tem 550 mil km²) abrangendo áreas do Sudeste do Pará, Oeste do Maranhão e Norte do Tocantins. Para a consolidação das atividades de mineração, foi necessária a criação de uma importante infraestrutura, onde se incluem, entre outras, a construção da Usina Hidrelétrica de Tucuruí, a Estrada de Ferro Carajás e o Porto do Itaqui, na cidade de São Luís no Maranhão. Carajás responde por mais de ¼ de toda a produção nacional de minério de ferro e por mais de 80% da produção de manganês

As oportunidades de trabalho que surgiram, com grande demanda por mão de obra nas atividades mineradoras, atraíram grandes contingentes de migrantes para a região. Ao redor da Serra dos Carajás surgiram e se desenvolveram inúmeras cidades como Marabá, Parauapebas, Canaã dos Carajás, São Felix do Xingu, Ourilândia do Norte, entre outras. O Sudeste do Pará, não por acaso, se transformou na região de maior devastação ambiental de toda a Floresta Amazônica, onde se incluem não só as atividades de mineração, que demandam a subtração de grandes áreas de mata, como também os desmatamentos para a criação de áreas para agricultura e pecuária

Na esteira da mineração, desembarcaram na região inúmeras empresas especializadas na produção do ferro-gusa, um pré-processamento do minério de ferro que será depois enviado para as grandes siderúrgicas. Conforme comentamos em postagem anterior, a produção do ferro-gusa requer o uso de grandes quantidades de carvão, grande parte atendida por carvão de origem vegetal produzido na própria região. Estudos indicam que perto de 57% da madeira usada pelas carvoarias locais vem de desmatamentos ilegais, o que contribui, e muito, na degradação da Floresta Amazônica. Essas carvoarias também costumam se valer de mão de obra escrava e infantil, criando toda uma série de impactos sociais negativos. 

A produção anual de minério de ferro em Carajás se situa atualmente na casa das 100 milhões de toneladas e em poucos anos deverá superar a casa das 150 milhões de toneladas, sem falar na grande produção de outros minerais valiosos – inclusive ouro.  Isso significa altos ganhos financeiros para muita gente, o que transforma a necessidade de proteger e preservar a Amazônia numa prioridade bem, bem secundária. 

Os conquistadores espanhóis estavam certos sobre as riquezas da Amazônia em sua busca pelo El dorado – só estiveram procurando no lugar errado. Aliás, um importante município da região recebeu o sugestivo nome de Eldorado dos Carajás

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